Poder e arte em Pedro Velho de Albuquerque Maranhão

Publicação: 2019-12-01 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
«   Lívio Oliveira »
Advogado Público e Escritor/livioalvesoliveira@gmail.com


O ícone abolicionista e republicano Pedro Velho nasceu em Natal, em 27 de novembro de 1856, tendo falecido a bordo do paquete nacional Brasil, na cidade do Recife, em 09 de dezembro de 1907. Estamos, portanto, neste mês, passando pela efeméride dos seus 163 anos. Não deixaríamos de lembrar a data, por dever e por prazer de falarmos acerca da nossa grande figura histórica, patrono da Cadeira nº 15 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Para breve ilustração acerca dessa grandiosa figura do Rio Grande do Norte, cujo nome sempre é ligado às narrativas acerca do poder no nosso Estado, trazemos uma das mais belas páginas, conforme se pode vislumbrar em trecho da obra de Luís da Câmara Cascudo intitulada “Vida de Pedro Velho”, livro de 1956, reeditado em 2008, pela Editora da UFRN. Ali, já no texto introdutório, brinda-nos Cascudo com palavras como as que seguem:

“O século XVIII continuou para nós até o primeiro decênio do XX. Quase não tivemos o século XIX. Pedro Velho foi o primeiro e último chefe com a mentalidade pacificadora, aconselhativa e serena dos juízes de paz, na letra reinol. Difícil encontrar a compensação em sua vida trabalhada e rápida. Deputado, governador, senador, influente, prestigiado, nome nacional, morre com 51 anos.”

Partiu cedo, de fato. Mas a obra permanece e se amplia. Abolicionista corajoso e republicano apaixonado – fundador e responsável pela consolidação do regime –, impossível negar-se a ele um lugar dentre os nossos heróis, do Estado e da pátria. Acaso houvesse um panteão, como o de Paris, nesta nossa tão combalida Natal, decerto que os seus despojos estariam ali.  Hoje, encontram-se no Cemitério do Alecrim, num grande mausoléu.

Bom salientar que Pedro Velho, médico de formação e político poderoso, foi um homem que soube também apreciar e fomentar as sutilezas da alma, através das letras e outras artes. Professor e jornalista, foi o fundador de “A República” (em 1º de julho de 1889), o órgão de imprensa mais influente até certa altura de nossa história republicana. Também o mais antigo, ainda em circulação na Capital, Tem-se notícia de que Pedro Velho exercitava ali a pena eminentemente literária, a partir de textos que subscrevia no velho jornal, por volta de 1897, com o curioso pseudônimo de “Nemo”, certamente referência ao personagem de Júlio Verne em “Vinte mil léguas submarinas”.

Umberto Peregrino, que ocupou a Cadeira nº 15, da ANRL, da qual Pedro Velho é o Patrono, tem um texto importantíssimo sobre a faceta voltada ao mundo das letras, assumida de forma descontinuada pelo líder republicano, que descreve como “inaproveitada vocação literária”. Peregrino também menciona a sua evidente cultura histórica. O trabalho recebeu o título de “Pedro Velho nas Letras” e está na obra “Crônica de uma cidade chamada Natal”, Clima-Editora, 1989.

A leitura das palavras de Umberto Peregrino nos leva à informação de que Pedro Velho, além de todos os valores pessoais e poderes de natureza pública, era um amante da música, além do teatro, bem como cultivava a palavra literária:

“Pedro Velho não foi um escritor militante, mas era sem dúvida um escritor nato.”

O insigne Eloy de Souza, por sua vez, em texto que hoje está compilado na obra que reúne suas “Memórias” (Instituto Pró-Memória de Macaíba/RN e Senado Federal, 2ª edição, Natal, 2008, organização, notas e índice onomástico por Rejane Cardoso), assim comentava o gosto e o exercício estético do grande líder:

“Nunca foi tentado pelas musas, mas o foi pela música. Tinha um ouvido excelente, de retentiva surpreendente. Um dos seus passatempos ao cair da noite era interpretar várias composições de autores clássicos ou músicas ligeiras que ainda não eram as músicas levianas dos nossos dias. Seus autores preferidos que ficaram na minha memória eram Chopin e Cheminade. O piano foi, assim o derivativo das preocupações dos dias de trabalho e dos cuidados partidários.”

Recomendamos, diante de tais passagens que nos fazem constatar o humanismo arraigado de Pedro Velho, a leitura completa e detida desses e outros textos acerca do grande republicano e abolicionista, bem como propomos a renovação contínua das homenagens ao nosso colossal Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, que não era homem somente afeito às artes do poder, mas também ao poder das artes.

Pedro Velho caminhou altivo pelas ruas do passado, ajudou a construí-las sólidas, perpetuou os seus passos nas vias cheias de brisas, que se estenderam até os dias de hoje, projetando-se no sentido do futuro. Sua coragem libertadora e sua firme vontade republicana e progressista se constituem em bússola e em marco para a continuidade da grande obra que edificou para o Rio Grande do Norte e, por consequência, para o Brasil.

continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários