Poderes de Pordeusa

Publicação: 2017-09-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Pereira Sitônio Pinto
Jornalista e escritor


Agora eu entendi porque Glória Gadelha me pediu para levá-la até o auditório da Estação Ciência, quando ela dilatou a pupila para fazer exame de vista. Fiz esse exame na manhã de segunda-feira, no primeiro dia da semana, e estou vendo pessimamente mal. Foi para ver se a diabetes tinha alcançado meus olhos; não alcançou, graças aos deuses, à Glória Pordeusa, à Cabocla Jurema e outras entidades que me acompanham e protegem.

Glória tem poderes. Não é à toa que o nome civil dela, completo, é Glória Pordeus Gadelha. Na Umbanda, ela é conhecida por Glória Pordeusa, ou simplesmente Pordeusa. É assim que a chamo. Pois nossa Pordeusa um dia me pediu para leva-la até o auditório da Estação Ciência, onde a memória de Sivuca estava recebendo uma homenagem da Sinfônica Jovem. A Orquestra tocava com uma solista especial: Lucy Alves, sentada numa cadeira à beira do palco, à esquerda do Maestro, como spala. Já pensou?

Quando o concerto terminou, subimos ao palco e Glória me apresentou à sanfoneira. E eu concluí a apresentação, pois revelei que a minha família paterna (toda) é de Misericórdia. E Lucy, apresentando-me aos genitores: “Ele é da Região.” Grato, Lucy. Como dizia Ariano, quando lhe perguntavam por sua naturalidade: “a Paraíba é meu estado materno, Pernambuco é meu estado paterno.”. Pois vivo uma situação semelhante: Princesa é minha cidade materna, Misericórdia é minha cidade paterna.”.

Misericórdia é meu rincão paterno e avoengo, pois era assim que meu avô Gratulino lhe chamava. E não pelo modernoso nome de Itaporanga. Meus bisavós, trisavós, tetravós e quintavós paternos estão sepultados na Misericórdia. Assim, me sinto um legítimo Jenipapo – que é como se chama o povo que me deu origem pela banda do meu pai. Gratulino, pai do meu pai, pegou na Comblain contra a força de Princesa em 1930; por isso, sinto-me à vontade para escolher o lado que quero ficar. Em tempo: Princesa não era Isabel, era só Princesa. Veio ganhar o apelido Princesa depois da Guerra de Trinta.

Mas, voltemos à dilatação de pupila. Minha e de Glória. Se eu atropelar alguma palavra, já estou justificado. As letras estão borradas, cobertas por uma pátina violeta. O médico ainda mandou que eu tomasse muito líquido nos próximos dois dias: “bastante líquido” (há meio século não bebo água). Aí me lembrei de quando a palavra “bastante” entrou para o vocabulário nordestino: foi por obra de 1950. Achei esquisito, mas depois me acostumei. Até o pintor Raul Córdula aderiu, pois ele tachava de “bastante ruim” as peças de arte das quais não gostava. Mas Raul cresceu no Rio de Janeiro.

Glorinha desceu com muito cuidado os degraus da Estação. Eu também, para não cairmos os dois. Para quem está sofrendo limitações, descer degraus é pior de que subir. Penso como deve ser ruim a experiência pela qual estão passando os réus da Lava Jato. Os caras eram príncipes, agora são peões acusados de quantos crimes. Não sei como ninguém ainda se suicidou. O fato de estarem vivos parece até uma confissão de culpa. Será que nos prédios onde moram não tem janelas para o outro mundo, para um inferno menos pior, como dizia o deputado e cacique Juruna?

Tenho uma suspeita a respeito de Juruna. Ele devia ser da Linha de Jurema, a linha da Umbanda mesclada com o catimbó de meus avoengos índios. Escute o bombo bater: “Aonde anda o capangueiro da Jurema / que até agora não apareceu [queira ver].”. Juruna era sóbrio de costumes: não bebia nem fumava. Não gostava da companhia de boêmios, que chamava pelo nome certo: “cachaceiros.”.

Por um tempo fui “cachaceiro”: o tempo mais perdido de minha vida. Ainda bem que na mesa do bar aprendi a fazer heptassílabos e decassílabos. Não fosse isso, o prejuízo teria sido total. Mas Pordeusa livrou-me desse prejuízo absoluto, quando me deu algumas de suas melodias para eu botar letra. Mesmo com a pupila dilatada.



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