Poeta da vida marinha, Iveraldo Guimarães é um dos pioneiros na carcinicultura no Brasil

Publicação: 2019-11-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Encontrei Iveraldo Guimarães bebendo uísque numa mesa de canto no Cais 43 (na Ponta do Morcego), não antes de confundi-lo com uma estátua de marinheiro na entrada do estabelecimento. “É a minha cara, né?”, diz Iveraldo tomando um gole. O mar à frente, em pleno entardecer, guarda muitas das histórias desse biólogo marinho, um dos pioneiros da carcinicultura no Brasil. Mas para ele o mar é mais que vida, ecossistema e ciência, é poesia das boas, sendo que só poucos conseguem captar. Ele, tomando seu uisquinho na maior paz, está sempre atento.

Iveraldo Guimarães • Biólogo e escritor

Além de cientista, Iveraldo é também escritor, autores de crônicas em que desmistifica a linguagem científica com textos agradáveis sobre biologia molecular, física, cosmologia, como é o caso do livro “Veleiros do Infinito” (1999), que vendeu até o momento 30 mil exemplares. A obra está prevista para ser relançado em breve, por uma editora paulista que está editando um novo livro do autor, “Borboletas de Concreto”, também de crônicas científicas.

Nesta entrevista agradável e cheia de curiosidades sobre camarões - esse bichinho do mar que é símbolo do estado -, Iveraldo fala sobre a área que tanto se dedicou. Lembrou dos primeiros anos da carcinicultura no Potengi (nos anos 70), a primeira fazenda de camarões do Brasil (em Macau), o comportamento dos bichos, as descobertas emocionantes e a poesia que a natureza presenteia nos pequenos detalhes.

Carcinicultura
No início dos anos 70 Arimar França, presidente do Banco do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte (BDRN) na época, havia ido ao Japão e viu alguns experimentos iniciais sobre cultivo de camarão. Achou interessante e contou para o governador Cortez Pereira. Lembrou que eles tinham o problema do clima frio, o que só permitia a eles trabalharem poucos meses do ano. Então imaginou que no Rio Grande do Norte a produção poderia ser melhor. Cortez gostou da ideia, montou uma equipe para estudar a viabilidade técnica e econômica do projeto.

Primeiros laboratórios
Chegamos a montar um laboratório no Rio Potengi. A gente ia para o alto mar pescar fêmeas ovadas de camarões. Voltava à noite, ia para o laboratório colocar nos tanques e começava o trabalho. Criava larvas até atingirem a condição de entrarem nos tanques. Fui um dos primeiros a trabalhar nessas pesquisas. Mas pouco mais de três anos depois, Tarcísio Maia acabou com o projeto. Os poucos técnicos que tinham acabaram saindo do estado. Eu fui pra Macau, onde um multinacional holandesa me chamou. Levei todas aquelas ideias iniciais e fui tentar implantar o projeto.

Pioneirismo
No Brasil ninguém fazia esse trabalho. No mundo existiam experiência em Kioto, no Japão, e Texas, no Estados Unidos. Era tudo primário. E nós fomos totalmente pioneiros nisso. Mas gente não sabia de porra nenhuma. Foi descobrindo tudo aos poucos. Com ciência é assim mesmo. Quem trabalha com coisa viva nunca vai aprender tudo, só um pouquinho só.

Macau
Quando fui para Macau o negócio começou pra valer. Foi quando surgiu a primeira fazenda de camarões em nível comercial, desde o ovo até a prateleira do mercado. A primeira no Brasil e uma das primeiras da América Latina. O nome da empresa era Cirne, uma salineira que queria diversificar os negócios e topou fazer a experiência com camarões. Passei 12 anos lá. Hoje tem 400 empresas de carcinicultura só no RN. Somos o maior produtor de camarão do país.

O ciclo do camarão
O ciclo do camarão é o seguinte. As fêmeas desovam em alto mar e as larvas vem se desenvolvendo até a costa, numa viagem de 15 a 20 dias, quando chegam nos mangues para se alimentar e crescer até 8 cm, para depois voltarem já adultos par ao alto mar, aproveitando a maré de vazante. Os camarões voltam todos para o alto mar, onde se reproduzem e o ciclo se reinicia.

DE Viveiro e de mar
Talvez no começo o gosto era mais diferente. Porque a gente a não entendia muito da alimentação, usava umas rações que podia interferir no sabor. Hoje a tecnologia é muito avançada em todas as fases do processo. Do meu tempo, do ovo até o filhote já era uma coisa extraordinária. Depois ir para o mercado, outra conquista. Hoje o pessoal já trabalha a genética, algo inimaginável na época.

LUA CHEIA
Eu estudava camarão 24 horas por dia. Mergulhava nos tanques para aprender sobre o comportamento deles, o que ficavam fazendo, como comiam. Hoje ninguém faz mais isso porque a tecnologia avançou. Mas naquelas minhas observações eu notei que em determinadas luas, nova e cheia, os camarões rodeavam as laterais do viveiro, como se fossem cardumes. Depois dessas luas eles se aquietavam. Então percebi esse fenômeno, que era um fenômeno de emigração. Entendi que eles faziam isso por causa do ciclo deles de crescer e pegar a vazante do mangue para voltar para o alto mar. Então pensei, se eu criar uma comporta no paredão do viveiro e colocar uma rede, os camarões entram tudinho na rede e eu pesco eles facilmente. Foi assim que nasceu a comporta dos viveiros, com uma espécie de rede funil. O fluxo trazia os camarões tudinho para a rede. Antes para pescar os bichos era muito trabalhoso, fazíamos com redes que iam até o fundo dos viveiros e como eram muitos viveiros, era algo quase inviável.

DESCOBERTAS
As descobertas eram assim, de pouquinho em pouquinho. Por exemplo, os laboratórios de reprodução, coisa que não existia antes, a gente tinha que ir para o mar capturar a fêmeas fecundadas. Depois fomos pioneiros nessa área. Acho que foi em 72 que apresentei nossa experiência num congresso no Uruguai. Ninguém era gênio. Éramos trabalhadores. Tínhamos que criar soluções, inventar. Senão não dava certo. Foi assim que surgiu a carcinicultura.

OLÉO NO LITORAL
Sabemos que há animais morrendo, mas ainda não denunciaram uma mortandade enorme de peixes, algo como o que aconteceu em 2007 no Rio Potengi, com dezenas de toneladas de peixes mortos de um dia para o outro. Com esse óleo não morreu e nem vai morrer porque o óleo se divide na água. Mas toda essa situação continua sendo uma grande merda! É uma irresponsabilidade contra a vida! Temos sido rápidos em retirar o que chega na costa, tem surgido boas iniciativas, temos demonstrado ter criatividade para resolver esse problema.

TRAGÉDIA NO POTENGI
Nossa tragédia maior foi o que aconteceu no Potengi e acusaram a carcinicultura. Mas o problema do Potengi foi derramamento de ácido fosfórico não inertizado. A carcinicultura não poderia ter matado tudo aquilo de peixe porque não trabalha com resíduos químicos, só biológico. O que despeja é a própria água dos viveiros, a água usada para os camarões, ela é impossível de matar os peixes.

MANGUE É VIDA
Mas é verdade que no início da carcinicultura a gente não tinha noção da importância do mangue no processo. A ideia que se tinha, não só aqui, mas em todo canto, era a de que se podia construir em área de mangue. No Recife os mangues foram entregues para a  construção civil. Então pensamos, se ele podem, a gente pode também. Depois vimos o erro. A água do mangue é muito rica em microalgas, o alimento para os camarões. Então vimos que tínhamos que construir viveiros não em cima do mangue, mas próximo. Quando descobrimos isso, parou-se a degradação dos manguezais. Mas esse estigma sobre a carcinicultura ficou. Diminuiu muito, mas ainda tem gente que culpa a carcinicultura pela degradação dos mangues.

MAR E POESIA
A literatura esteve sempre comigo. Mar é poesia, né. No “Veleiros do Infinito” falo de biologia molecular, física, cosmologia, tudo numa linguagem pra todo mundo entender. Gosto de levar a poesia para a ciência. Acho que se combinam. Não é petróleo na água no mar não. Aqui funciona bem. Agora estou prestes a lançar um novo livro, “Borboletas de Concreto”, sairá por uma editora paulista – que também relançará “Veleiros do Infinito”. São 10 crônicas longas, de temas científicos, mas escritas de forma que todos podem entender.

CAMARÕES JUNTOS PARA SEMPRE
Uma vez na Indonésia fui convidado para um casamento. Vi que na mesa de presentes tinham peças incríveis, eram como esculturas que pareciam ser de calcário, mas depois descobri que eram esqueletos de esponjas marinhas. A história desses presentes é a seguinte. No mar da Indonésia tem um tipo de camarãozinho que quando a fêmea despeja os filhote, um casal de larvas, não mais que um, não sei porque, coisas da natureza, entra na esponja marinha. Então e fica vivendo lá, se alimentando. E quando cresce, pelo tamanho, não consegue mais sair. Se reproduzem, seus filhos, microscópicos, passam pelas paredes da espoja, mas eles ficam lá e morrem ali, juntos. Dai o sentido do presente. Aqueles esqueletos de esponja, há muitas e muitas gerações, são símbolos de amor eterno. Isso é uma prova de que a natureza é poesia. Só falta a gente descobrir, em cada coisa maluca que a natureza faz.


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