Poeta e cordelista Antônio Francisco relembra trajetória

Publicação: 2019-05-26 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter


Em menos de 24 horas em Natal o poeta mossoroense Antônio Francisco já havia chorado duas vezes. O motivo: em outubro de 2019 ele completa 70 anos de vida e desde já não lhe tem faltado homenagens — coisa rara neste estado que tem a fama de não prestigiar tanto os seus artistas. “Ontem à tarde visitei uma escola e não me aguentei com as crianças. Hoje de manhã a mesma coisa, fui pego de surpresa com uma pintura que me deram de presente”, diz o poeta, autor de livros como “Dez  cordéis  num  cordel  só” (2001) e “Por  motivos  de  Versos” (2005), e de cordéis que se tornaram clássicos, como “A casa que a fome mora” e “Os animais têm razão”.

Diante de tanta emoção, um amigo que tinha agendado para o poeta outras duas visitas a escolas até achou por bem verificar. “O coração está preparado para mais tarde né, Francisco? Porque vou te dizer: tem turma aqui que montou um espetáculo em cima de um dos teus poemas. Pediram para eu não contar mas não teve jeito. Vá preparado, porque tá muito bonito”, aconselhou. Mas é certo que Antônio Francisco aguenta, porque o que ele tem de sensível tem de forte – e encantador. E na entrevista concedida à TRIBUNA DO NORTE ficou claro isso.

Antônio Francisco cresceu entre livros, mas já foi ciclista e vendedor de revista. Hoje tem obras adotadas em escolas e é estudado nas universidades
Antônio Francisco cresceu entre livros, mas já foi ciclista e vendedor de revista. Hoje tem obras adotadas em escolas e é estudado nas universidades

Criado solto nas ruas de Mossoró, quando não estava fazendo molecagem Antônio Francisco estava em casa descobrindo o mundo mágico da literatura de cordel – mais precisamente à noite, quando sua tia recitava sob a luz da lamparina. No entanto, o poeta dentro dele só se revelaria mais tarde. Antes, Antônio tinha uma mar de profissões para exercer e uma ruma de estradas para desbravar de bicicleta. “Lá em Mossoró tem gente que diz que aquela série 'Largados e Pelados' seria férias pra mim”, brinca.

O cordelista Antônio Francisco começa a estourar nacionalmente a partir do lançamento de sua obra completa pela editora cearense IMEPH, em 2011. É quando outras regiões do país o descobrem, escolas adotam seus livros e convites para apresentação começam a chegar vindos de várias partes do país, inclusive do meio acadêmico.

Hoje Antônio Francisco é um dos maiores nomes das letras potiguares e um dos principais poetas populares em atividade do país, integrando a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, na cadeira 15, cujo patrono é Patativa do Assaré. Nesta entrevista Antônio Francisco revisita sua infância em Mossoró, enumera suas dezenas de profissões, revela suas inspirações, conta sobre a fase ciclista,a experiência das primeiras declamações, nas esquinas de mossoró, até chegar ao reconhecimento dos professores acadêmicos.

LAGOA DO MATO


Cresci no bairro Lagoa do Mato. Passei a infância jogando bola, pião, tomando banho de rio, pescando traíra, caçando rolinha, fazendo armadilha pra pegar preá... [Antônio Francisco vai citando as coisas que fazia quando menino e começa a declamar:] “Nasci numa casa de frente pra linha, num bairro chamado Lagoa do Mato. Cresci vendo a garça, a marreca e o pato brincando por trás da nossa cozinha. A tarde chamava o vento que vinha das bandas da praia pra nos abanar. Titia gritava: está pronto o jantar! O Sol se deitava, a Lua saía, o trem apitava, a máquina gemia, soltando faísca de fogo no ar”. Aquilo era um mundo encantado!

UM TEMPO EM NATAL


Toda a minha vida foi em Mossoró, tirando um tempo que passei em Natal, quando servi o Exército. Morei no Alecrim, nas Quintas. Trabalhei como sapateiro. Ia muito na Cidade Alta beber com os amigos, assistir filme. Meu primeiro voto foi na AABB. Também cheguei a treinar no Força e Luz e jogar futsal no Palácio dos Esportes. Quando terminava a pelada a gente ia andando pra casa com a camisa no ombro. Fiz muitos amigos aqui. Gosto demais de Natal. É minha segunda casa.

GOSTO PELA LEITURA


Eu gostava de estudar, mas não de ir à escola. A minha infância era muito agitada, eu vivia solto na rua,  e a escola era muito monótona. O que meu salvou foi a leitura. Aprendi a ler na minha luta diária. E passei a ler muito. De Khalil Gibran à Victor Hugo, Tolstoi, Hermann Hesse. Lia de tudo sob a luz da lamparina.

DE TUDO UM POUCO


Já fui sapateiro, soldador, soldado, pintor de parede, servente, garçom, vigia, vendedor de cajarana, de tapioca, de jornal, de revista Cruzeiro, Manchete e Ele e Ela. Também sou formado em História pela UERN. Cheguei a ser professor por uns dias, mas deixei pra fazer placa de automóvel. Professor tinha muitos em Mossoró, e pra fazer placa de automóvel só tinha eu. Mas hoje eu vivo de cordel.

O CICLISTA


Antes de ser poeta eu era conhecido em Mossoró como ciclista. Eu sou apaixonado por bicicleta. Já fui pedalando até João Pessoa, Recife, também vim muito pra Natal, ia até Pipa e voltava, tudo de bicicleta. Mossoró tem a vantagem de estar próximo do Mar e do Sertão. Eu prefiro o Sertão. Então andei muito por essas estradas secas. Botava minhas coisas na bolsa e ia embora, preparado para acampar no caminho. Até hoje sou assim, carrego meu caneco. Eu montado numa bicicleta tô feito.

A VIAGEM MAIS MARCANTE


Na estrada já escrevi versos, mas é raro, gosto mais de aproveitar a viagem. Lembro de ter escrito algo para um pé de juazeiro que não tinha espinho. Ficava na casa de Manuel Feliciano, armei minha rede nesse juazeiro. Mas das viagens que fiz a mais marcante foi pra João Pessoa, pra ver minha irmã se formar na faculdade. Montei minha própria bicicleta pra ir. Sempre gostei de fazer minhas bicicletas. Na estrada o mais difícil é lidar com o sol e o vento. A vinda de Mossoró pras bandas de cá horrível, pesado demais, porque é contra o vento. A volta é mais tranquilo. Se bobear eu ainda faço mais uma viagem dessa.

DAS ESTRADAS PARA OS VERSOS


Quando eu era garoto lembro da minha tia lendo cordel com luz de lamparina em casa. Eu lia também, aprendi cedo. Meus cordéis favoritos eram os de Lampião. [Ele começa a declamar “A chegada de Lampião no Inferno”, de José Pacheco], “O Pavão Misterioso”. Eu era vizinho de Luiz Campos [poeta e repentista mossoroense], gostava de estar entre os cantadores, então sempre tive uma ligação. Mas declamar publicamente e publicar é só fui fazer depois de velho. Eu já declamava nas esquinas. Mas a primeira vez que eu me apresentei foi num daqueles Seis e Meia, em Mossoró. O produtor queria fazer uma janela para o Nando Cordel. Ele me procurou e perguntou se eu tinha coragem de fazer aquilo que eu fazia nas esquinas no palco. Eu fiz e deu certo.

10 CORDÉIS NUM CORDEL SÓ


Eu não me via como escritor até reunirem meus cordéis no livro “Dez Cordéis Num Cordel Só”, publicado no início dos anos 2000, por Vingt-un Rosado. E quando esse meu livro foi adotado no vestibular da UERN ai foi o incentivo que faltava para eu passar a me dedicar só ao cordel. É quando em Mossoró as pessoas passam a me ver não mais como ciclista, mas como poeta, e quando eu começo a receber convites para me apresentar nas escolas daqui e fora do RN. Hoje já estou com seis livros publicados. Quer dizer, o sexto livro está quase saindo. O nome é “Quatro léguas e meia de cordéis”.
















continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários