Políticos de cultura

Publicação: 2019-06-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Thiago Gonzaga
Escritor

Nos últimos anos, Natal tem merecido mais atenção dos seus gestores em relação aos projetos culturais da cidade. Eventos tradicionais, que voltaram com força total, recentemente, como o Carnaval de Rua, o São João da Capital, o FLIN - Festival Literário de Natal, já podem figurar com destaque entre os acontecimentos culturais do país. Isso revela certa sensibilidade, uma preocupação dos nossos recentes gestores com a cultura, e se não é o desejável, já é alguma coisa, e acredite, você, leitor mais jovem, já foi pior. Basta lembrar o caos em que uma certa executiva deixou a cidade, um verdadeiro rastro de destruição.  Claro que administrar um município não é tarefa para qualquer um. E quando você encontra um político com sensibilidade e cultura, é um diferencial em qualquer lugar do mundo.

No Rio Grande do Norte, sobretudo em Natal, temos bons exemplos de políticos, voltados para a cultura. Destacamos alguns a seguir:

Alberto Maranhão (1872- 1944), nascido na cidade de Macaíba, foi por duas vezes governador do Rio Grande do Norte, além de exercer dois mandatos de deputado federal. Conhecido também como mecenas potiguar, faleceu na cidade de Angra dos Reis (RJ).

Quando cumpria o segundo mandato como governador, Alberto Maranhão fundou o Conservatório de Música do Rio Grande do Norte, o Hospital Juvino Barreto (atualmente Onofre Lopes), o Derby Clube, apoiando a prática do hipismo, dentre outras obras.  No governo dele foi implantada a luz elétrica em Natal e, posteriormente, as linhas de bondes elétricos. Em 1908, inaugurou a Escola Normal, propiciando a formação de professores e implantou o primeiro grande movimento de educação popular no RN, através da rede de Grupos Escolares. Em 1912, Alberto Maranhão restaurou o teatro, então denominado Carlos Gomes, que havia inaugurado em 1904, e que hoje tem o seu nome.

Sylvio Pedroza (1918-1998) nascido em Natal, foi o décimo oitavo Prefeito da capital, entre os anos de 1946 e 1951.  Eleito Vice-governador do Rio Grande do Norte, assumiu a chefia do executivo estadual, em face da morte do Governador Dix- Sept |Rosado, tendo governado de 16 de julho de 1951 a 31 de janeiro de 1956. Seu trabalho como Prefeito da capital, que o projetou no mundo político, notabilizou-se pelo investimento na orla marítima, pela construção da Avenida Circular, a oficialização do bairro do Alecrim, e pela integração do bairro das Rocas ao resto da cidade.

Grande amigo de Câmara Cascudo, Sylvio Pedroza   o nomeou como historiador oficial da cidade de Natal, inclusive apoiando a publicação do livro “História da Cidade do Natal”, de mestre Cascudo, lançado em 1947. Sylvio Pedroza deu mais atenção ao Forte dos Reis Magos, aos esportes na capital, e foi ele quem cedeu o terreno onde foi construída a Academia Norte-rio-grandense de Letras.  Já ausente da política, publicou um livro de memórias, Pensamento e Ação - Marcos de uma Trajetória de Governo; na mesma época foi eleito para a ANRL.

Além desses dois grandes nomes, poderíamos citar vários outros com fortes laços com a cultura, como Henrique Castriciano (1874-1947), intelectual, autor da primeira “Lei do Livro”, que obrigava o Governo do Estado a publicar obras de valor para a nossa cultura. Primeiro Presidente da ANRL, autor de vários livros de poemas, irmão de Auta de Souza e Eloy de Souza. Ainda poderíamos citar Antonio de Souza (1867-1955), Governador do Estado, por duas vezes, publicou diversos livros sob o pseudônimo de Polycarpo Feitosa, e Aluízio Alves (1921- 2006), que, também Governador, entre outras realizações, implantou o primeiro plano cultural do Estado e criou a Fundação José Augusto, inclusive, promovendo a publicação de vários títulos.

Dentre os prefeitos de Natal, não poderíamos deixar de enfocar dois outros nomes emblemáticos, separados por mais de cinquenta anos: Djalma Maranhão e Carlos Eduardo.

O primeiro citado, nasceu em Natal, no dia 27 de novembro de 1915, e foi, além de político, professor de educação física e jornalista, fundador e diretor de jornais. Elegeu-se deputado estadual em 1954. Por duas vezes exerceu o cargo de Prefeito: a primeira, na segunda metade da década de 1950, por nomeação do governador Dinarte Mariz e a segunda, em 1960, na primeira eleição direta para a prefeitura de Natal.

O governo de Djalma ficou conhecido pela campanha "De pé no chão também se aprende a ler", política educacional para alfabetizar crianças pobres. Djalma Maranhão foi um político comprometido sobretudo com as causas sociais, governou com os olhos voltados para sua gente e principalmente para a cultura popular.  Modificou o formato de educar na capital, a partir das ideias de Paulo Freire, e com a coordenação do secretário de Educação, Moacyr de Goes.

Com o golpe de estado de abril de 1964, foi destituído da prefeitura, e teve seu mandato cassado. Ficou preso, algum tempo, sendo libertado por ordem de habeas corpus do Supremo Tribunal Federal, em dezembro de 1964, e asilou-se na Embaixada do Uruguai. Morreu no exílio, aos 56 anos de idade. Seus restos mortais encontram-se no Cemitério do Alecrim.

O segundo Prefeito com fortes laços com a cultura, Carlos Eduardo, filho do jornalista e político Agnelo Alves, nasceu no Rio de Janeiro, em 5 de junho de 1959, todavia reside em nossa capital, desde os dois anos de idade. Carlos Eduardo formou-se em Direito e muito jovem começou na vida pública. Em 1986, elegeu-se Deputado Estadual, tendo ocupado uma cadeira na Assembleia Legislativa por quatro legislaturas. Exerceu, também, o cargo de Secretário Estadual do Interior, Justiça e Cidadania.

Em 2000, foi eleito Vice-Prefeito de Natal, na chapa de Wilma de Faria, e, em 2002, com a renúncia da titular, para disputar o Governo do Estado,  assumiu a Prefeitura. Elegeu-se Prefeito em 2004, fez uma administração aprovado pelos natalenses. Em 2012, foi novamente eleito Prefeito da capital, levando a efeito uma gestão com grandes realizações, especialmente na área da Educação, Cultura e Saúde. Em 2016, foi reeleito para o seu quarto mandato à frente da Prefeitura de Natal. Dois anos depois, renunciou ao cargo para disputar o Governo estadual. Não conseguiu eleger-se governador, mas continua em atividade na área política.

Como gestor, viabilizou a implantação do aterro sanitário da Grande Natal, construiu o Parque Dom Nivaldo Monte, conhecido como Parque da Cidade, enorme área verde localizada entre os bairros de Candelária e Cidade Nova, com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, o parque foi inaugurado em 21 de julho de 2008. . Construiu o ginásio Nélio Dias, o Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, apoiou o Encontro dos Escritores da Língua Portuguesa de Natal, dentre inúmeras outras obras e eventos. Homem de cultura, amigo dos livros, sempre se voltou para os eventos culturais e literários, mesmo com todas as dificuldades de administrar uma cidade. Dando continuidade ao bom legado dos dois gestores, acima referidos, temos que reconhecer que o Vice-prefeito, Álvaro Dias, que assumiu a administração de Natal em 2018, tem lutado, sobretudo com ajuda do Secretário de Cultura de Natal, Dácio Galvão, para manter essa tradição cultural da cidade dos Reis Magos.





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