Polêmica dos ‘Rolezinhos’

Publicação: 2014-01-26 00:00:00
Os encontros de jovens em shoppings, marcados e convocados a partir de redes sociais – os chamados 'Rolezinhos' – estão provocando muita polêmica e discussões acaloradas em todo o país. Em São Paulo, o assunto já foi parar na Justiça que chegou a se pronunciar autorizando alguns centros comerciais a impedir os encontros. A discussão sobre o assunto envolve discriminação, proteção ao direito de ir e vir, segurança, proteção à propriedade privada... O movimento não tem ambições políticas, mas possui  grande poder de mobilização popular. Especialistas  dizem que a tendência é que o movimento, iniciado nos shoppings, ganhe as ruas, graças à reação dos empresários do setor e da polícia. A TRIBUNA DO NORTE convidou o presidente da Associação Comercial, Adelmo Freire, e  o cientista social/professor da UFRN, Alipio de Sousa Filho, para opinar sobre o assunto. Os dois
concordam em um ponto: os jovens precisam de espaços que ofereçam atividades culturais/esportivas. E essa falta de espaço público faz dos shoppings centers o ponto de encontropara esses grupos. “Tomara os jovens dos rolezinhos se encontrem com os manifestantes das jornadas de junho e, malgrado toda a heterogeneidade de seus participantes e apelos, organizem passeatas, nas ruas, reivindicando aos prefeitos, governadores, parlamentares e empresários mais equipamentos e projetos culturais!” defende Alipio de Sousa.

Para Adelmo, não existe no RN o posicionamento contra a esse público nos shoppings: “O problema é o fato da concentração de um grande número de jovens em um mesmo ponto de circulação das pessoas no estabelecimento prejudicando a movimentação e  em conseguência gerando prejuízos aos lojistas”. Eis os artigos:

Novo fenômeno
Adelmo Freire - presidente da Associação Comercial do RN
Adelmo Freire: O rolezinho confirma exatamente a utilização dessas ferramentas (redes sociais) para fazer as suas mobilizações, influenciando diretamente nos efeitos e na capacidade de reunir esses grupos
O que falar de algo novo , fatos recentes que merecem uma analise sócio-cultural que estão afetando um segmento da economia que está sempre avaliando as tendências, inovações, quedas e altas nas vendas, situação do comportamento da economia e de repente se depara com um movimento de jovens que utilizam espaços de circulação de  um equipamento do setor do varejo chamado shopping centers  para seus encontros.

Analisando esse fenômeno como descrevi logo de início parece favorável pois com as migrações de classes sociais, aumento de poder de compra da população e uma certa garantia de emprego eles se tornam consumidores em potencial com o grande desejo de adquirir produtos que em algum tempo atrás era algo de difícil aquisição, então qual é o problema do rolezinho? É o título dado a esse movimento e fenômeno antes de encontrar uma resposta, gostaria de acrescentar algo que está merecendo uma análise profunda por parte do varejo.

Recentemente estive participando em Nova York da maior convenção do varejo mundial chamada  NRF 2014 , e o assunto que predominou entre as palestras é o alerta para os varejistas de como saber utilizar e se adaptar para  todo esse aparato tecnológico, que envolve aplicativos, software , equipamentos e principalmente as redes sociais que esta transformando o consumidor em um verdadeiro conhecedor, articulador e influenciador nos negócios do varejo.

O rolezinho confirma exatamente a utilização dessas ferramentas para fazer as suas mobilizações influenciando diretamente nos efeitos e na capacidade de reunir esses grupos.

Outro fato que precisamos acrescentar é que a partir  das manifestações de junho passado no país e claro em nosso estado a população começa a ter sintomas de insegurança quando se defronta com qualquer tipo de agrupamento de pessoas imaginando na possibilidade de alguma forma de vandalismo

O que temos constatado aqui em Natal por parte do comércio é que não existe o posicionamento de contra a esse público nos shoppings, até porque sempre frequentaram para passear e comprar. O problema é o fato da concentração de um grande número de jovens em um mesmo ponto de circulação das pessoas no estabelecimento prejudicando a movimentação e  em conseguência gerando prejuízos aos lojistas .

Vale acrescentar também que devemos alertar as autoridades públicas para a criação de espaços de lazer para essa juventude, pois nos dias de hoje não é somente a praia que satisfaz e por não existir equipamentos públicos de conveniência os shoppings vão se tornando cada vez mais a nossa nova praia.

Rolezinhos: miséria cultural
AlÍpio de Sousa Filho - cientista social, professor da UFRN
AlÍpio: Tomara os jovens dos rolezinhos se encontrem com os manifestantes das jornadas de junho e, malgrado toda a heterogeneidade de seus participantes e apelos, organizem passeatas, nas ruas, reivindicando aos prefeitos, governadores, parlamentares e empresários mais equipamentos e projetos culturais!
Passadas as jornadas de junho de 2013, o país se volta para o assunto dos chamados rolezinhos. Como as jornadas, os rolezinhos são aglomerações de jovens em algumas cidades brasileiras, só que, desta vez, nos corredores de alguns shoppings centers. Menos transclassistas que as jornadas, eles concentram majoritariamente jovens mais pobres, habitantes do que o preconceito nomeia de “periferia” das cidades. Mas já encontraram solidariedade nos setores jovens de outras camadas sociais e movimentos sociais progressistas. Ora, se se tratasse de uma referência à geografia das cidades, as periferias seriam as regiões afastadas de seus centros. Mas não é isso. No imaginário social (constituído por representações sociais as mais diversas, entre estas, representações estereotipadas, preconceituosas), periferia constitui o lugar onde se aglomeram os pobres. Na representação imaginária, se habitam regiões afastadas dos centros das cidades, os ricos moram em bairros nobres, aristocráticos, “chiques”. Não morando nestes bairros, os jovens dos rolezinhos, então, são nossos “jovens da periferia”. E são mesmo! O fato é que eles habitam a periferia da vida. A periferia da vida econômica, social, política e cultural da sociedade brasileira. Embora em outros países não seja diferente.

No nosso país, políticas recentes de distribuição de renda serviram para retirar da miséria absoluta alguns tantos (lhes deram o que comer, que sequer isso tinham!) e políticas de crédito fácil para consumo primário (geladeira, fogão, televisão etc.) serviram para alimentar a fantasia dos mais pobres que estão “ascendendo” socialmente. Fantasia útil! Para governantes e partidos no poder, essas políticas serviram para alimentar a fábula sociológica (ou ideológica?) de uma “nova classe média”, maquiando-se dados de acesso a consumo (que podem mudar ao sabor dos ventos das chamadas políticas econômicas), como se correspondessem a padrões reais de mobilidade social na estrutura de classes da sociedade brasileira. Nada disso: basta uma virada dos atuais modelos de incentivo ao consumo, aumento de juros, corte de crédito etc. para a “nova classe média” ficar pobre outra vez! Não é nova classe, porque classe social não dura apenas o tempo de uma conjuntura ou política econômica. Sociólogo que fala de “nova classe média” no Brasil foi malformado.

Todavia, ainda que seja assim, no país, vem-se produzindo uma ilusão de inserção social (ou de ascensão) dos mais pobres por meio do consumo de bens materiais (mesmo tão primários). Mas uma ilusão que não é, ao mesmo tempo, acompanhada de mudanças reais em diversos setores da vida. No âmbito da atividade cultural, por exemplo, a maior parte de nossas cidades continua sem espaços, projetos, produções e eventos que sejam alternativas para todos, e não apenas para jovens (nem apenas pobres). Pouquíssimo de lazer cultural é proporcionado pelas prefeituras e governos estaduais em projetos, programas e espaços de responsabilidade pública. Quando muito, temos eventos catálogos esporádicos, mas nada de permanente nos bairros, nos teatros etc. Aliás, alguns bairros há que nenhum espaço cultural existe . Em uma cidade como Natal, somos miseravelmente desprovidos de bibliotecas, salas de cinema, teatros, espaços esportivos nos nossos bairros. Tristemente, pela falta de espaços e atividades culturais dignas desse nome, promovidas pelo poder público ou pelo setor privado (com menos sede de lucro!), nossos jovens invadem shoppings centers como se estes fossem uma alternativa de lazer importante, e com suas presenças tumultuosas escancaram o ridículo (de todos!) que é fazer do shopping o templo da distração. Não deixe aí de ter, nas suas ações, uma expressão dos baixos anseios daqueles que, jogados na periferia da vida e sendo destituídos da capacidade de crítica e reivindicação, não saem às ruas pedindo mais teatros, arenas de shows, cinemas, espaços de esporte e lazer, ao invés, correm como abobalhados, num frenesi desassossegado, em zappings entre a decadência e a barbárie cultural. Tomara os jovens dos rolezinhos se encontrem com os manifestantes das jornadas de junho e, malgrado toda a heterogeneidade de seus participantes e apelos, organizem passeatas, nas ruas, reivindicando aos prefeitos, governadores, parlamentares e empresários mais equipamentos e projetos culturais!

Os rolezinhos são bem o retrato de nossa miséria cultural!