População em situação de rua está sem orientação para evitar contágio do novo vírus

Publicação: 2020-03-24 00:00:00
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Ofício entregue às autoridades, pelos coordenadores do movimento dos sem teto, pede apoio às autoridades na prevenção ao Coronavírus para as famílias que moram em condições precárias. Secretarias municipais e estaduais se reuniram na tarde desta segunda (23), para levantamento das medidas que serão adotadas e aguardam próxima reunião que acontece hoje (24) para efetivação das medidas.

Créditos: Magnus NascimentoA discussão sobre medidas a serem adotadas com pessoas em situação de rua deve ser realizada hoje entre Estado e os municípios de Natal e ParnamirimA discussão sobre medidas a serem adotadas com pessoas em situação de rua deve ser realizada hoje entre Estado e os municípios de Natal e Parnamirim


Com 13 casos confirmados de Coronavírus no Rio Grande do Norte e a implantação de medidas de isolamento e quarentena em todo território, até ontem não havia registros por parte do Movimento de que as pessoas em situação de rua (entre mil e 1.200 em Natal), principalmente,  tivessem recebido a visita do poder público. “Ninguém da saúde, nem do município, nem do Estado, ainda não chegou à periferia”. A frase é de Wellington Bernardo, coordenador geral do Movimento de luta por moradia popular. 

Hoje, Natal tem 48 mil famílias sem moradia digna, essas famílias na sua maioria estão espalhadas nas 72 favelas, nas ocupações urbanas; nas vilas pagando aluguel, nas ruas da cidade. A pergunta que Wellington faz é “como fazer quarentena dentro de um barraco 5x5 aonde em pleno meio dia chega a um calor de 50 graus?”.  De acordo com ele, foi entregue um ofício na manhã do dia 23 de março para todas as autoridades que possam responder por medidas voltadas para a saúde pública dos moradores. “Encaminhamos hoje um ofício para a SETHAS, CEHAB, esses órgão ligados ao governo do Estado e também para a SEMTAS e SEHARPE esses ligados à Prefeitura de Natal e aguardamos uma resposta”. 

No ofício, elaborado a partir de relatos de diversos moradores das ocupações: Helleny Ferreira no Parque dos Coqueiros, Aurora Maria , localizada na cidade da Esperança, Tiradentes em Felipe Camarão e ocupação Olga Benário, localizada no Planalto, estão pedidos como: Não ter despejo durante a crise do Coronavírus. 2. Distribuição de Cestas Básicas e kits higiene incluído mascara e álcool gel nas ocupações urbanas e 3. 

Distribuição de lonas para reforçar os barracos. Além desses itens, estão também a suspensão dos pagamentos de água e energia elétrica, além da suspensão do pagamento da internet e dos boletos do pagamento das parcelas faixa, 1, 1.5 e faixa 2. 
As familiais que moram nas ocupações urbanas de Natal são 80% trabalhadores informais que vivem nos semáforos, vivem de diaristas, vendedores autônomos, camelôs, entre outros serviços. E a outra pergunta levantada é “Como vão sobreviver sem sair de casa?”. 

Orientação
Suênia Bezerra, 33 anos é coordenadora da Ocupação Tiradentes que fica localizada no Bairro de Felipe Camarão. Ela confirma que até hoje, não apareceu ninguém da área da saúde que pudesse orientar os moradores.  “Aqui não veio ninguém, nem da saúde e nem de nenhum canto. A gente mora num barraco, a gente não tem condições de comprar álcool em gel, não temos condições sequer de comprar máscaras e temos muito idosos e crianças”, reflete Suênia.  Na ocupação Tiradentes,  hoje são 63 famílias que moram em condições precárias. São casas feitas de madeira, lonas, plásticos e outros materiais que não proporcionam higiene adequada. Além disso, a maioria vive da reciclagem de lixo.  “Muitos de nós estamos parados, não temos mais nem alimento quase em casa. Os que tem estão dividindo, mas é uma situação que não temos o que fazer. Ou vamos para a rua ou morremos”. 

Suênia vive com o marido e a filha. E ao lado de sua casa, mora sua filha e a neta. Para suprir a necessidade, Suênia se reuniu com alguns moradores para adotarem medidas internas na ocupação. “A gente conversa diariamente sobre a importância de ficar em casa, mas muitos precisam sair para sobreviver. Quem tem ainda algum sustento ou alimento divide, mas estou vendo a hora de não termos mais nada. Aqui não veio ninguém até hoje, nenhuma orientação, vemos as coisas pela televisão”, desabafa. 

Ela lembra quando houve o surto da H1N1, quando também teve muito medo. “E o medo é coletivo. Temos medo de sair, de ir para o trabalho. Lembro demais daquele surto, mas agora é diferente, ele chegou de maneira mais avassaladora”.

Secretários se reúnem para elaboração de medidas 
Durante a manhã e a tarde da segunda feira (23), município e estado se reuniram para discutir as medidas que serão adotadas em relação aos moradores de rua, refugiados e pessoas em ocupações. Iris Oliveira, secretaria estadual da SETHAS, (Secretaria de Estado do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social), conversou com a TRIBUNA DO NORTE e explicou sobre as demandas emergenciais que estão em levantamento.  “Hoje nos dedicamos a questão de refugiados e à população de rua, além das pessoas de assentamentos. Nós, enquanto gestão estadual, precisamos olhar para o estado todo. Tivemos uma reunião envolvendo algumas secretarias de Estado, a Sesap, e a secretaria Municipal de Natal e Parnamirim e estamos levantando as demandas do movimento das pessoas em situação de rua, além das demandas da defensoria pública. E o Estado precisa avaliar tudo e  entraremos em caráter suplementar”, disse a secretária. 

Uma das preocupações são os centros de convivência como o Albergue e o Centro Pop, que recebem pessoas diariamente em grandes quantidades, com uma circulação entre 100 e 180 pessoas por dia. “Isso já acarreta aglomeração e a convivência de pessoas em espaços e ambientes com superlotação. E é um problema que se agrava agora. A proposta que temos, é utilizar espaços como as escolas públicas, sobretudo nas regiões em que essas pessoas estão e organizar e distribuir material de higiene”, 

A secretária afirma que aguarda também um mapeamento vindo dos municípios para saber as medidas corretas a serem tomadas. “Em Mossoró, por exemplo, também temos um quadro de população indígena e ciganas, além dos Venezuelanos, e em Caicó estamos aguardando o levantamento do município, vamos fazer abordagem nas ruas para ter melhor previsão das demandas”, afirma. 

A proposta é que com o levantamento, o Estado junto com os municípios, possam garantir acolhimento, cuidados básicos, materiais de higiene, além de aluguel social para os refugiados. 

“Criamos um comitê para monitorar as ações de emergências, que envolve a SETHAS, a Secretaria de Educação, Secretarias de Saúde, e integram também as duas secretarias de Natal e Parnamirim, além de outros municípios como Mossoró e Caicó, além do próprio movimento da população de rua, e pessoas da comissão dos direitos humanos. E o objetivo é monitorar as ações de emergência em conjunto com os comitês”, disse Irís Oliveira. 

Nas medidas levantadas até agora estão: isenção das taxas do pagamento  no valor de R$ 1 no restaurante popular e a  viabilização do programa do Leite. Nesta terça-feira (24), haverá uma nova reunião para efetivação das medidas. 





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