Por que a síndrome de Guillain-Barré acomete mais jovens no Brasil

Publicação: 2018-12-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

A Síndrome de Guillain-Barré é uma condição rara que pode acontecer a qualquer um. Segundo os estudiosos, ocorre de um a dois casos a cada 100 mil habitantes. É um inimigo silencioso e oportunista, desencadeado pelo sistema imunológico após vários  processos infecciosos. Um deles, o surto de Zika Vírus tido há dois anos, fez com que o número de casos aumentasse e ligou o alerta dos médicos para que mais estudos fossem realizados sobre o tema. Natal é um dos pólos de pesquisa no país, onde se busca identificar as principais causas e mecanismos dos sintomas. A síndrome virou assunto nacional após surgir na trama da novela “Segundo Sol”, acometendo a personagem da atriz Giovanna Lancelloti. A forma repentina como a SGB aparece, assustou as pessoas.  A síndrome se manifesta quando as defesas do organismo são mais intensas que o necessário para acabar com uma infecção. 

Doença que surge de forma repentina, a Síndrome de Guillain-Barré pode acometer qualquer pessoa. Ela se manifesta quando as defesas do organismo são mais intensas que o necessário para acabar com uma infecção. O surto de Zika Vírus tido há dois anos, fez com que o número de casos aumentasse
Doença que surge de forma repentina, a Síndrome de Guillain-Barré pode acometer qualquer pessoa. Ela se manifesta quando as defesas do organismo são mais intensas que o necessário para acabar com uma infecção

“O próprio sistema imunológico gera uma reação autoimune frente a uma infecção que ataca o sistema nervoso, e acaba levando ao problema”, explica Antônio Condino Neto, professor do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, em entrevista ao Jornal da Família. A síndrome afeta os nervos que controlam o movimento dos músculos, levando a complicações progressivas. 

Em cerca de 30% dos pacientes a síndrome se manifesta através de uma fraqueza nas pernas que se espalha até comprometer outras partes do corpo. Os sintomas incluem fraqueza muscular; sensação de dormência nas pernas, braços, tronco e/ou face; a paralisia total dos membros em casos mais graves; insuficiência respiratória; taquicardia/arritmia; queda ou aumento da pressão arterial, retenção urinária ou constipação intestinal. Segundo Antônio Condino, a velocidade do avanço da doença no corpo é variável, mas pode ser muito rápido. “Em 24 horas, por exemplo, uma paralisia geral pode acontecer”, diz. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) a taxa de mortalidade chega a 5% nos casos mais graves. 

Como toda síndrome, a Guillain-Barré não tem uma causa determinada, sendo várias as condições que podem levar a ela. Por ser uma doença pós-infecciosa, foram identificados alguns vírus que desencadeiam os sintomas, como os vírus da gripe, o citomegalovírus (da mononucleose), o Epstein-Barr (responsável por diversas viroses respiratórias), e o Influenza. Em seguida vêm os vírus dengue, HIV, e a herpes simples. Outra causa apontada é a bactéria 'campylobacter jejuni', causadora da diarréia. 

O tratamento é medicamentoso, visando inicialmente combater as inflamações. “As imunoglobulinas seguem sendo o tratamento mais avançado que existe na atualidade. Os corticosteróides e imunoglobulinas são as alternativas mais eficazes. Acredito que novos medicamentos imunobiológicos devem surgir pela frente”, diz o médico. A fase aguda é normalmente tratada com imunoterapia, trocando de plasma para remover anticorpos do sangue. Em caso de persistência de fraqueza muscular após a fase aguda da doença, os pacientes podem precisar de serviços de reabilitação para reforçar os músculos e recuperar os movimentos. Há também medidas preventivas, como a monitorização da respiração, frequência cardíaca e tensão arterial. “É importante também manter em dia as vacinações e evitar, se possível, áreas endêmicas para doenças”, reforça  Condino. 

Pesquisa potiguar 
O Rio Grande do Norte registra de 20 a 30 casos por ano de Síndrome de Guillain-Barré. O médico potiguar Mário Emílio Dourado acompanha de perto esses números: é reconhecido internacionalmente como um dos maiores pesquisadores no assunto.  Ele estuda e acompanha pacientes  potiguares da síndrome desde 1994, e catalogou – até o momento - 364 casos de SGB no estado durante 24 anos de pesquisa. Aqui  há outro perfil e faixa etária.  

Médico potiguar Mário Emílio Dourado estuda casos há mais de 20 anos e explica as características da síndrome no Brasil: crianças e jovens estão mais propensas a ter contato com águas e alimentos contaminados
Médico potiguar Mário Emílio Dourado estuda casos há mais de 20 anos e explica as características da síndrome no Brasil: crianças e jovens estão mais propensas a ter contato com águas e alimentos contaminados

Junto a outros médicos da UFRN ele criou um grupo de estudos que atua em hospitais de apoio como Walfredo Gurgel, Giselda Trigueiro, Varela Santiago, e hospitais privados. Os núcleos de  pesquisa estão no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL) e o Instituto de Medicina Tropical, do Departamento de Bioquímica da UFRN. Os médicos potiguares mantém contato com outros grupos de estudo na USP de Ribeirão Preto, em Recife (Hospital da Restauração), Universidade Fluminense (RJ), e Campinas – além de interações com grupos na Espanha, Holanda e Japão. 

A dedicação de tantos anos à pesquisa da síndrome, levou a algumas conclusões do médico sobre as particularidades da doença em diferentes posições geográficas. “Apesar de atingir o mundo todo, a síndrome se comporta de forma diferente sob certas condições. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos ela atinge um público mais velho, na maioria, aqui no Brasil os pacientes são mais jovens, de crianças a pessoas abaixo dos 40 anos de idade”, relata. 

Uma das hipóteses para isso é o subdesenvolvimento sanitário. As crianças e jovens estão mais propensas a ter contato com águas e alimentos contaminados, e assim aumentar a chance de ter a doença. Nos países tropicais, em geral, a população está mais exposta a infecções, viroses e diarreias o ano todo. Nos países de clima temperado e frio, os casos estão mais concentrados no inverno. 

Mário Emílio acredita que o ponto mais interessante da pesquisa sobre a síndrome é o estudo do fato epidemiológico. “Saber o número de casos é importante para a saúde público, reflete nela. A partir disso a gente pode saber o que está havendo de errado para consertar. Por exemplo, houve uma época em que algumas pessoas estavam desenvolvendo a SGB devido a uma vacina. É possível que houvesse algo errado com ela, e essa análise serviu para monitorar os casos”, afirma. 

A recuperação do paciente, em pelo menos 80% dos casos é completa. Já os 20% podem ficar com alguma sequela, como não recuperar todos os movimentos de um membro, ou desenvolver um tipo de fadiga. 

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