Por um Nobel

Publicação: 2020-09-25 00:00:00
Vicente Serejo 
serejo@terra.com.br

A maior injustiça que o Prêmio Nobel comete, até hoje, quando se reúne, na Suécia, para distinguir os melhores, é não distinguir a burocracia brasileira que tem dado ao mundo os mais belos exemplos de criatividade. Com nível técnico invejável e em dois segmentos: a burocracia, o baixo clero que abriga os aprendizes-marinheiros; e os tecnocratas, o almirantado e suas estrelas com o brilho dos que prometem milagres e só assim se tornam essenciais na circunspecta nulidade.   

O nascedouro dos tecnocratas foi durante o governo militar. Os bravos generais, ou mesmo no nível menos elevado da oficialidade, não foram treinados para gerir com segurança um país inteiro e convocaram, como seria natural, os economistas, administradores, consultores, e que tais. Muito sabidos, se comparados aos militares, criaram um modelo de acesso a tudo, chamado projeto, algo inteiramente abstrato, e cuidaram de fundar uma linguagem cifrada que só eles decifrassem.

Assim foi feito. Tudo só podia ser realizado via projetos e esses projetos tinham um jeito próprio: volumosos, com tabelas misteriosas e gráficos, organogramas e fluxogramas. Levaram a vida assim durante mais de duas décadas. A tecnocracia foi o grande útero dos liberais, pior modelo de político que uma sociedade pode ter, treinado para conviver com as maiores atrocidades, como censura, tortura, exílio e morte dos que discordam, lavando a tudo com as amabilidades cretinas.

Quando o general Golbery do Couto e Silva, finalmente, reconheceu que ter criado o SNI foi gerar um monstro, e desceu as escadas do Palácio do Planalto, os tecnocratas já haviam tomado o espaço de planejamento nas esferas federal e estadual. Uns viraram prestadores de serviço e outros lobistas, ambos muito bem treinados. O projeto abria as portas dos ministérios e graduados tecnocratas analisavam tudo, apresentavam dificuldades e vendiam as indispensáveis facilidades. 

O tecnocrata foi o único produto tecnicamente perfeito que a ditadura militar conseguiu produzir como herança. O militar continuou militar - nunca muda - e os políticos também, mas os tecnocratas desenvolveram em laboratório uma grande capacidade de mimetismo e mutação criando a colônia camaleônica que muda a cada novo poderoso. Daí, ocuparem as esferas público e privada, dando aos chefes e patrões a sensação de que eles são líderes. Daí pra frente, só Deus. 

Eis a tragédia, Senhor Redator. Nem os gregos foram tão longe em perfeição. Muito menos os franceses, mesmo a genialidade de Molière ao conceber ‘As Preciosas Ridículas’, e os palácios, sempre tão fartos em menestréis e rapsodos. Mas, nenhuma civilização foi tão esmerada, quanto a nossa, para engendrar os tecnocratas. São geniais como supridores de talento. Sabem manter o espaço e simulam bem a falsa humildade do anonimato com rara resignação. Estocolmo é injusta. 

VENENO - De um deputado tucano em alusão ao secretário Fernando Mineiro nos corredores da AL defendendo a redução dos isentos, antes até seis salários mínimos: “O poder amansa rapidamente”.  

RAZÃO -  Para esse tucano, o mérito da resistência é todo da oposição. Os defensores do governo petista são piores do que os de antes: “Fazem nos bastidores o que condenam nas suas entrevistas”.  

PETARDO - Foi certeiro e contundente o petardo do deputado José Dias quando acusou de frente a governadora de prometer uma coisa na sua campanha eleitoral até se eleger e depois fazer outra.  

AVISO - O erro político do governo só será percebido quando descobrir que o episódio da reforma galvanizou o bloco de oposição. O teste pode ser quando da discussão da Lei Orçamentária, LDO.    

EDIÇÕES - Muito bem cuidadas, pela Câmara Federal, as edições dos dois livros de Diógenes da Cunha Lima sobre Djalma Marinho. A Homenagem que se justifica por si só. Era um democrata.

DIÁRIO - O livro do jornalista Antônio Melo - Diário das Folhas Mortas - está desde ontem na Banca do Tota e nas Livrarias Manimbu (Rua Assú, 666) e do Campus, UFRN. Custa R$ 60 reais.

LIVRO - Amanhã, sábado, das 9h ao meio-dia, no Sebo Vermelho, lançamento da edição especial de 100 exemplares do ensaio ‘Caetano Dantas Correia’, um livro de Dom José Adelino Dantas.  

TUDO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, provocado sobre os tecnocratas e o poder: “No começo, com Cabral, em se plantando tudo dava. Agora, em se pagando, tudo pode”. 

BALANÇO - Não haverá desfecho político na discussão da proposta de reforma previdenciária que tenha o condão de legitimar a governadora Fátima Bezerra. Esse mérito é da oposição ao cumprir o papel, renegado pelo PT, de debater a reforma com as forças sindicais, origem de Fátima.  

PERDA - De raízes legitimamente plantadas nas lutas sindicais, desde o primeiro mandato até o de governadora, a sindicalista Fátima Bezerra deixou-se levar pelos tecnocratas petistas que hoje desmentem o próprio passado. Ficam sempre do outro lado da cortina vermelha no gozo sombrio.   

FIM - No final dessa ópera caricata, semana que vem, perderá a governadora. Aprova sua reforma, mas sai da luta sem o mérito de fazê-la diferente dos governos que ela contestou. E deixa gravada na própria pele, como uma tatuagem de rara feiura, a marca do estilo cabreiro. Um erro lamentável.  









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