Por um vatapá

Publicação: 2021-02-23 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Primeiro, li por gosto e saudade - o vatapá da casa de Rejane, na velha Afonso Pena, 755, era para ser tombado pelo patrimônio histórico. Depois, e além do gosto, foi instigante o título na capa da Ilustríssima, da Folha de S. Paulo: “O vatapá de Machado”. Ora, se dele, de Machado de Assis, os olhos logo foram fisgados pelo anzol da curiosidade. Tudo por conta de Anselmo, um personagem de ‘Luís Soares’, uma das histórias dos seus ‘Contos Fluminenses’.

O texto é do professor Edson Lopes Cardoso, doutor em educação, diretor do Centro de Documentação e Memória Afro-brasileira, ilustrado com as cores tropicais de um belo panelão de vatapá. A tese é só para realçar o sentido simbólico desse prato que é solicitado por Anselmo, numa carta ao Major Vilela, anunciando sua chegada. Está na abertura do quarto capítulo do conto: “Creio que não me hás de receber como qualquer indivíduo. Não esqueças o vatapá”. 

A negritude, não sei se no resto do mundo é assim, tem levado nosso olhar acadêmico, no Brasil, à busca de detalhes que durante muito tempo foram imperceptíveis. Imagine, Senhor Redator, se varrido pelos melhores leitores e estudiosos, ao longo de um século, seria possível notar a carga simbólica de um vatapá desejado por Anselmo e que o major Vilela pede a Antônia com um declarado gosto em servir ao amigo: “Prima Antônia, mande fazer um bom vatapá”.

Na opinião do professor - ele confessa ter lido o conto de Machado por desfastio para vencer o confinamento da pandemia - quando o rico fazendeiro Anselmo, amigo do Major, faz o pedido do vatapá, neste caso é mais do que um prato comum na casa senhorial do major. É um símbolo. Como tal, chamou atenção, posto que “os negros são quase invisíveis, mas o vatapá de algum modo parece romper o equilíbrio e sugerir, talvez, que algo está fora de controle”. 

Para o professor, “o mundo que obedecerá na cozinha às ordens da prima Antônia não será alcançado pelos leitores, que saberão inferir, no entanto, quem são os seres tornados invisíveis na narrativa e responsáveis pela realização do prato especial demandado pelo visitante”. Ao citar a frase de Anselmo, o fazendeiro amigo - “Não esqueças o vatapá” - mostra que esse prato já foi degustado antes na casa do Major, “mas o conto não autoriza especular”. 

Na douta interpretação do professor, “o vatapá é exigido com ênfase por quem tem propriedade, renda e escravos”. E conclui: “Nessas circunstâncias, é expressão da dominação”. A conclusão é que naqueles anos antes da abolição, brancos escravocratas compartilhavam, nas casas grandes, valores culinários com os seus escravos. Veja, Senhor Redator, o que um simples vatapá, digerido por um doutor em letras, não é capaz de provocar nos estômagos acadêmicos.

VACINA - O Instituto Atena de Pesquisa Clínica abriu chamada para quem desejar participar de protocolo de pesquisa de vacinas contra o Covid-19, fase 3, aqui no Rio Grande do Norte.

COMO - Os interessados podem participar sem restrições de saúde, idade e histórico de Covid, com a segurança de padrões científicos e éticos. Mais informações aqui: https://atena.institute/ 

ESPANTO - A perplexidade é reação muito íntima para ser contestada. Como é espantoso não ficar perplexo com a peste em um país com mais de 240 mil mortes e 200 milhões sem vacina. 

PAPEL - Por mais duro e desafiador que possa ser, as instituições precisam ficar solidárias à sociedade. Os interesses de classes e de categorias jamais estão acima dos interesses coletivos. 

ÍCIONE - A Av. Afonso Pena perde um ícone da sua cozinha, com o fechamento do restaurante ‘Talher’, de Ivone Freire. Mas sua boa qualidade continuará na mesa do natalense, via delivery. 

MUDA - Seu serviço, e sempre sob o controle de qualidade de Ivone Freire, passa a funcionar em Lagoa Nova, hoje o centro geográfico de Natal. Com garantia de entrega em qualquer ponto.

SAFRA - Ney Marinho Jr, que já mantém sua tradição dos melhores peixes e frutos do mar na sua Casa do Peixe, curte a safra de jabuticabas nas suas terras vizinhas a Natal. Grandes e doces. 

FALHO - Deu nas redes sociais: o senador Jean-Paul Prates elogiou a intervenção do presidente Jair Bolsonaro na Petrobras. Deve ter sido por um ato falho. Defendeu o trabalho e não o capital.    

CASCUDO - Impressos, em São Paulo, na editora ‘Universo de Livros’, os 39.200 exemplares da tiragem nacional de ‘Câmara Cascudo, um brasileiro feliz’, de Diógenes da Cunha Lima. O patrocínio é do Ministério da Educação para as bibliotecas de escolas públicas de todo o país.

POTENGI - Serão retomadas, com o apoio técnico de especialistas da UFRN, as pesquisas de controle das águas do Potengi. Foram mantidas durante alguns anos e depois suspensas. A ideia é tentar acompanhar os níveis de poluição. Nada mais urgente do que preservar o rio da cidade.

DESAFIO - O prefeito Álvaro Dias tem três desafios nos quatro anos do seu novo mandato: o hospital municipal, a engorda de Ponta Negra - devolvendo a praia aos natalenses e turistas; e o Terminal Turístico da Redinha. Obras que serão a grande marca da gestão. O resto é só rotina.  











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