Por uma questão de vida

Publicação: 2017-09-10 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

Um ato trágico - ainda obscurecido por muitos que o vêem como tabu - passou a ser discutido de forma mais aberta no Brasil desde 2014, devido ao Setembro Amarelo, uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio. O movimento procura  tirar o véu de preconceito sobre o assunto, e discuti-lo como ele realmente é: uma questão de saúde pública. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o suicídio já mata mais jovens que o HIV em todo o mundo. O 10 de setembro é o dia oficial da campanha.

O Setembro Amarelo nasceu de uma ação conjunta entre o Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). Segundo o psicólogo Rodrigo Oliveira, conselheiro do CRP/RN – Conselho Regional de Psicologia -,  diversas organizações e entidades de saúde se preocupam com a questão do suicídio desde a década de 90, executando ações de prevenção e conscientização. A campanha de 2014 foi uma reação mais direta diante do aumento do problema. “A taxa de suicídios entre jovens cresceu 30% em 25 anos no Brasil”, diz. 
Segundo a Organização Mundial de Saúde, o suicídio já mata mais jovens que o HIV (Ilustração: Brum)
Segundo a Organização Mundial de Saúde, o suicídio já mata mais jovens que o HIV (Ilustração: Brum)

A compreensão mais ampla sobre o tema e suas complexidades fizeram com que velhos preconceitos atrapalhassem menos essa discussão. “Por razões religiosas, morais e culturais, criou-se medo e vergonha de falar abertamente sobre isso. A gente precisa estimular a ideia de que sempre haverá alguém com sensibilidade necessária para compreender o que está acontecendo, e ajudar a diminuir a pressão equivalente a de uma panela prestes a explodir”,  afirma.

Segundo a OMS é possível prevenir o suicídio, desde que os profissionais de saúde estejam aptos  a reconhecerem os fatores de risco presentes, a fim de determinarem medidas para reduzi-los. Rodrigo Oliveira aponta que os principais fatores são as existências de um quadro de doença mental e de uma tentativa prévia de suicídio. Mais de 90% dos casos de suicídio estão associados a distúrbios da mente. Já os transtornos de humor, entre os quais se destaca a depressão, está presente em 36% dos casos. Também entram na lista a dependência de álcool (23%), esquizofrenia (14%) e transtornos de personalidade (10%). 

Sem simplismo
O psicólogo ressalta que as supostas motivações não devem ser vistas de forma meramente causal e simplista. “O suicídio é um comportamento resultado de uma complexa interação biopsicossocial, cultural e socioambiental. É o desfecho trágico de uma série de fatores que se acumulam na história do indivíduo, não podendo ser atribuído a acontecimentos pontuais. É a consequência final de um processo. Manter nossa disponibilidade e empatia é fundamental para perceber o outro em suas angústias”, afirma.

Os sinais podem ser sutis ou explícitos, segundo o psicólogo Danilo Delgado Vieira. “Desde mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, negatividade e desesperança com a vida e o futuro, frases desesperançosas e pessimistas, até avisos mais claros, como falar diretamente da intenção ou chegar a tentar o ato”, explica. As motivações para ele também variam conforme um contexto histórico e cultural – assim como a existência ou não de doença mental.

Diante da ausência de alguma psicopatologia grave, as motivações costumam girar em torno de conflitos familiares, dificuldade em lidar com perdas e  ser resiliente às adversidades da vida, ausência de bons laços pessoais, a sensação de não pertencimento. “Mas reforço que as motivações são ainda mais complexas do que aquilo que é expressado pelo indivíduo, e demanda uma análise técnica e profissional para avaliar cada caso”, enfatiza.

A abordagem da situação por parte de leigos, claro, não é simples. Rodrigo Oliveira afirma que algumas regras devem ser observadas. “É importante saber ouvir a pessoa em risco de suicídio e entender suas motivações reais. Não é verdade que 'quem fala que vai se matar não se mata'. Por impulsividade ou por erro de cálculo da tentativa, a fatalidade acontece. O manejo se inicia durante a investigação do risco. A abordagem verbal pode ser tão ou mais importante que a medicação. Isso faz com que a pessoa se sinta aliviada, acolhida e valorizada, fortalecendo a aliança com a vida”, explica.

13 razões
O tema suicídio teve uma visibilidade surpreendente em 2017. A série da Netflix “13 Reasons Why”, na qual uma garota conta detalhadamente por quê e como cometeu o ato, levantou polêmicas. Os especialistas, no geral, não viram com bons olhos. “A série foi problemática ao manter o foco na motivação ritualística de um  suicídio, quase romantizando a questão, e pouco se atendo às formas de prevenir o ato”, analisa Rodrigo, ressaltando o potencial “Efeito Werther”, no qual se estimula o comportamento fatalista.

Danilo Delgado acha que a série possui elementos positivos e  negativos. “Ela acerta ao trazer para debate um assunto tão evitado, e ainda mais entre os jovens. Porém, acaba fazendo algo perigoso na forma como apresenta o tema, pois além de tratar o suicídio da protagonista como algo justificável, também mostra a cena do ato de uma forma muito gráfica e realista”, diz.

Pelo menos para a CVV, “13 Reasons” teve um efeito bombástico: os pedidos de ajuda para o centro subiram 445% em número de e-mails. Houve também alta em 170% na média diária de visitantes únicos no site. Mesmo assim, especialistas não recomendam a série para adolescentes que não entraram no ensino médio.

Outro fato que inflamou as discussões sobre suicídio em 2017 foi o jogo da Baleia Azul, um suposto fenômeno surgido numa rede social russa, ligado ao aumento de suicídios de adolescentes. O jogo propõe uma série de desafios que culminaria na morte do jogador. Houve fotos de feridas auto-infligidas compartilhadas em redes sociais, juntamente com as hashtags do jogo. A repressão das autoridades foi intensa, e a questão parece estar controlada.

Ajuda
Apesar de serviços voluntários como a CVV, que se mantém no ar para ouvir as pessoas durante 24 horas, Natal não possui entidades específicas para atender demandas de suicídio, lamenta Danilo Delgado. Ele recomenda serviços de psicologia e psiquiatria para avaliação e manejo dos casos, inclusive na orientação dos parentes e cuidadores. Rodrigo Oliveira sugere o Pronto Socorro de Saúde Mental, CAPS, e serviços  universitários que oferecem psicoterapia à população.

Debates na UFRN
A Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Proae) da UFRN inicia segunda (11) as atividades do Setembro Amarelo, sob a coordenação da psicóloga Cíntia Catão. Segunda, às 9h30, terá palestra “O suicídio e sua acolhida”, na Biblioteca Zila Mamede. No dia 13, às 14h30, na Escola de Ciência e Tecnologia, terá roda de conversa “Vamos romper o silêncio”. Dia 28, no Serviço de Psicologia Aplicada da UFRN (SEPA), será realizada a oficina tema em debate: “Suicídio entre os jovens”, às 8h30.

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