Portal da esperança

Publicação: 2019-05-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

O mundo está permeado e confuso por vozes que se entrechocam. Muitas são convergentes e similares, outras tantas são divergentes e até sectárias. Há, entretanto, um clamor, que André Malraux chamou de vozes silenciosas. Vozes que brotam do coração dos homens, reivindicando paz, harmonia, compreensão, tolerância, justiça e sossego. As relações humanas, tanto entre conhecidos, quanto entre estranhos, pressupõem civilidade, respeito mútuo, distinção. A humanidade, em sua grande maioria, quer exorcizar o mundo das vozes odiosas, irritantes, raivosas, hipócritas, falsas, irracionais e mentirosas, as quais ignoram ou contestam o sentido maior da vida humana: o amor como elo infinito, vínculo eterno entre Deus e o homem. A caridade, hoje tão esquecida nessa conjuntura planetária de consumo em massa e materialismo, sem ética nem moral, não é apenas de natureza material. Expressa o gesto, a atitude, o ânimo e a postura de quem não discrimina ninguém, a todos tratando da mesma maneira simplesmente por serem seres humanos. Assim a comunicação, individual e social, será uma espécie de arvore centenária, como o carvalho, assombreando a todos. As recordações compõem também vozes do coração. Manifestações que varrem o tempo.

Num entardecer chuvoso neste alentador "inverno nordestino",  acorreram-me vozes que não morrem, pois são o próprio tempo falando, sussurrando, ciciando e dialogando. Cheguei à tardinha em casa e submeti-me às percepções, sensações e lembranças que devassam o passado e dão substância ao presente. Assim tudo gerava uma simbiose entre o passado e o presente. As vozes do tempo me murmuravam evocações nostálgicas, que emergiam, principalmente, das páginas sempre vivas da literatura. Regressei à infância e me encantei de novo com a paisagem de um dia chuvoso em "Reinações de Narizinho" de Monteiro Lobato. Partilhei a amargura da cigarra de La Fontaine, molhada, com frio e sem abrigo, enquanto a laboriosa formiga se acomodara prudentemente em sua "casa" com alimentos suficientes para enfrentar uma longa estação. Subitamente me transportei às "Cartas do meu Moinho" de Alphonse Daudet. Seria um domingo chuvoso de verão em Paris. Rua do Faubourg-Montmartre. O escritor fora visitar o poeta Frédéric Mistral (Nobel da literatura) na aldeia de Maillane, distante poucos quilômetros da cidade. Desfrutaram as maravilhas da vida campestre e seu cenário humano, inimitáveis e inesgotáveis. O tempo parou enquanto conversavam. O deslumbramento com a natureza se misturou com as divagações sobre os homens e a vida. Sua visão existencial nada excluía.

O pensamento coletivo enfeixa as esperanças que dão substância à alma nacional. É a personalidade de um povo. Características, valores, objetivos, ideais e compromissos, que se afirmam e se renovam no fluir do tempo. A concepção do mundo e da vida predominante em cada sociedade, desde as mais primitivas aos países dessa "aldeia global", é, em síntese,  a esperança manifesta no universo sentimental de cada povo. Anatole France proclamou não existir espírito nacional sem a esperança. Aquela vontade que transcende à espera e ao desejo. Determinação e fé em alcançar, concreta e coletivamente, uma aspiração. É a utopia real, ou seja, a conversão do sonho em realidade. Tornar viável e visível, disse John Locke, a felicidade antes sonhada. Transformar busca em achado, incerteza em descoberta, mudança em conquista. Eugène Delacroix (pintor francês), chefe da escola romântica, em seu painel "A liberdade guiando o seu povo" (1831), captou o sentido e o peso da esperança na alma popular. Em sua arte ninguém o superou ao traduzir essa percepção intemporal.

A efervescência cultural antecipa um processo de mudança. De avanços sociais, políticos, éticos e morais. Honoré de Balzac, o criador do romance moderno, em sua "Comédia Humana", com dezoito volumes de romances e contos, deu vida a quase treze mil personagens. Legou o mais completo mosaico cultural e psicológico do seu tempo. Os sentimentos da condição humana, também desvendados genialmente por William Shakespeare, têm no amor e na esperança sua síntese eterna e renovada. Ressaltaram Otto Maria Carpeaux e Paulo Rónai (seus tradutores no Brasil).

Ronald de Carvalho e Oliveira Vianna, hoje esquecidos, estudaram a questão na vertente de nossa evolução social, política, econômica e moral. A Semana de Arte Moderna (1922) preconizou novos rumos amplificados a partir de 1930. A busca de uma crescente identidade entre as criações artísticas e culturais, o pensar, o querer, o sonhar e o existir do nosso povo. Mas o regionalismo impregnou a sociologia, a etnografia, a literatura (romance e poesia), o memorialismo, a música e a pintura desse amálgama entre o universal e o regional. Esse é o espírito de obras como as de Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Gilberto Amado, Manuel Bandeira, Euclides da Cunha, Jorge Amado e outros. O mestre Cascudo, na introdução de "Civilização e Cultura", resumiu o horizonte regionalista: "será sempre o universal dentro do regional". Graciliano, Rachel, Lins do Rego, Euclides e Jorge Amado amalgamaram nosso contexto regional numa amplitude planetária. Enfim, em todos os tempos e lugares, o homem assume atitudes universais, fonte primária de cultura.

Os governantes não podem ignorar o estado de espírito do povo. Os intelectuais apenas o interpretam. Exemplo indiscutível foi o período do governo de Kubitschek (1956/61). Surgiu a "bossa nova". As letras e as artes passaram por fase fecunda e inovadora. Em todos os sentidos. O "cinema novo" foi desdobramento desse renovar-se de esperanças. Eis o desafio das novas gerações. Preservar e revigorar a esperança nacional. Fonte de renascimento do que somos, sonhamos e queremos.














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