Portugal dá adeus a Mário Soares

Publicação: 2017-01-10 00:00:00 | Comentários: 0
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Os portugueses trazem flores, cartazes e bandeiras de Portugal para homenagear Soares, que presidiu Portugal de 1986 a 1996 e também foi primeiro-ministro do país (1976-1978 e de 1983-1985). Alunos do Colégio Moderno, fundado pelo pai de Soares, também compareceram ao Mosteiro dos Jerônimos, onde o corpo está sendo velado em público.
marieta cazarré/agência brasilMilhares de portugueses fizeram fila no Mosteiro dos Jerônimos, onde o corpo ex-primeiro ministrop Mario Soares teve velório públicoMilhares de portugueses fizeram fila no Mosteiro dos Jerônimos, onde o corpo ex-primeiro ministrop Mario Soares teve velório público

"Ele lutou pelas liberdades individuais e pelos direitos individuais e quisemos vir prestar essa homenagem, porque talvez não tivéssemos uma democracia se não fosse por ele. Ele faz parte da democracia desse país. Trouxemos as camisolas [o uniforme] para mostrar o orgulho que temos de pertencer a este colégio", disse um dos estudantes.

Soares é considerado um dos grandes nomes da democracia portuguesa. Lutou contra a ditadura na década de 70, foi preso e exilou-se na França. Voltou a Portugal, onde construiu uma respeitável trajetória política, tendo sido ministro dos Negócios Estrangeiros, presidente da República e primeiro-ministro. Soares também é lembrado por ter encabeçado o processo de adesão de Portugal à União Europeia.

O corpo de Soares chegou ao Mosteiro dos Jerónimos às 13h (horário de Portugal) de ontem, em cortejo fúnebre que partiu da casa onde o ex-presidente vivia, no bairro de Campo Grande. O velório público durante todo o dia.

Dezenas de equipes de profissionais da imprensa fazem a cobertura do velório. A PSP (Polícia de Segurança Pública) não divulgou informações sobre a quantidade de pessoas que já passaram pelo mosteiro. O presidente do Brasil, Michel Temer, embarcou ontem  para Lisboa e participará do encerramento das cerimônias fúnebres, nesta terça-feira (10). O governo de Portugal decretou 3 dias de luto oficial.

Estadista do novo
Mário Soares morreu na tarde de sábado, aos 92 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, onde estava internado desde o dia 13 de dezembro. Um sobrinho do ex-presidente, Eduardo Barroso, disse que Soares foi hospitalizado em 2013 com encefalite aguda, uma inflamação do cérebro, e que a sua saúde havia se deteriorado ainda mais desde a morte de sua esposa, em julho de 2015.

Soares, socialista, era admirado por sua tenacidade e otimismo exuberante. Como primeiro-ministro, ele apostou sua carreira na conquista da adesão de Portugal à UE, considerando-a um caminho para fortalecer a jovem democracia do país, modernizar sua economia e acabar com o isolamento internacional.

Muitos portugueses eram céticos, mas Soares persistiu. "Portugal será um país diferente e certamente muito melhor para todos os portugueses", declarou em 1985, depois de ter concluído oito anos de negociações para aderir ao bloco, então conhecido como Comunidade Econômica Europeia.

A adesão plena e o acesso ao mercado comum do bloco, iniciado em 1986, traduziram-se numa melhoria significativa dos padrões de vida portugueses. O comércio e o investimento estrangeiro expandiram-se, e Portugal abraçou a moeda do euro. Hoje, o país está ligeiramente abaixo da média europeia em termos de rendimento per capita, mas a diferença com os seus pares mais ricos diminuiu.

Trajetória política
Filho de um político muitas vezes preso por se opor à ditadura de direita, Soares tornou-se politicamente engajado na Universidade de Lisboa, sendo graduado em filosofia e direito nos anos 50.Sua própria atividade de oposição o colocou na prisão 12 vezes. Em 1970, foi forçado a pedir exílio na França. Três anos mais tarde, participou, na Alemanha, da fundação do Partido Socialista de Portugal. Em 25 de abril de 1974, uma revolta militar conhecida como Revolução dos Cravos terminou com 48 anos de ditadura e 13 anos de guerra contra os movimentos de independência nas colônias africanas de Portugal. Soares voltou a Lisboa e nomeado ministro das Relações Exteriores no governo recém-instalado, controlado por militares, que estava comprometido com o estabelecimento de um regime democrático. Ele supervisionou a concessão de independência a Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Em 1975, renunciou, depois que uma facção pró-soviética comunista ganhou influência no governo. Eventualmente, uma facção militar moderada apoiada por Soares prevaleceu, bloqueou uma tentativa de golpe apoiada pelo Partido Comunista e convocou eleições em 1976.

Soares venceu, tornando-se o primeiro chefe de governo constitucionalmente eleito de Portugal depois da revolução. Ele liderou dois governos até 1979 e um terceiro de 1983 a 1985. Sua aceitação das prescrições de austeridade do FMI - aumentos de impostos e cortes salariais acentuados, e principalmente o cancelamento de um bônus de Natal para funcionários públicos, em 1983 - o desgastaram politicamente. A coligação governamental de Soares desmoronou logo após o parlamento ratificar o tratado para entrar na Comunidade Econômica Europeia, mas sua imagem de estadista respeitado permaneceu. Ele foi eleito presidente, um cargo em grande parte cerimonial, em 1986, e cumpriu dois mandatos de cinco anos.


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