Potiguares lançam por editoras nacionais

Publicação: 2017-12-23 00:18:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Num mês dezembro aquecido de lançamentos literários de autores potiguares, dois mossoroenses lançaram seus novos trabalhos estreando em editoras nacionais. Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2017 com o romance “Última Hora”, José Almeida Júnior teve seu livro publicado pela editora Record. Já o ilustrador Aureliano Medeiros reuniu diversas tirinhas do seu projeto “Oi, Aure” numa edição caprichada da Lote 42, cujo título é “Mercúrio Cromo”.

Edição caprichada de Mercúrio Cromo, pela Lote 42, reúne textos e ilustrações da série Oi Aure, de Aureliano Medeiros
Edição caprichada de ''Mercúrio Cromo'', pela Lote 42, reúne textos e ilustrações da série ''Oi Aure'', de Aureliano Medeiros

Radicado há dez anos em Brasília, onde exerce o cargo de Defensor Público no Distrito Federal, José Almeida Júnior revisita em “Última Hora” um dos períodos mais importantes da história do Brasil: a Era Vargas (1951-1954). Em primeiro plano está a saga de um jornalista atormentado entre a militância comunista e o trabalho no jornal que apoia Getúlio Vargas. É por meio de sua história que o leitor é levado aos últimos meses do presidente antes do suicídio, onde Samuel Wainer, diretor do jornal Ultima Hora, vive uma acirrada briga com Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa, veículo de oposição ao governo.

O autor explica que a ideia do livro partiu de sua pesquisa para compreender o comportamento dos comunistas durante o governo Vargas, quando eleito democraticamente. “Porque o trabalhismo de Vargas inspirou a esquerda brasileira por muitos anos, deixando herdeiros políticos como Jango, Brizola e até mesmo Lula”, conta Almeida Júnior. “Durante a pesquisa, descobri que o jornal 'Última Hora', criado para apoiar Getúlio Vargas em 1951, foi composto em grande parte por comunistas. Então, resolvi criar um personagem de ficção, chamado Marcos, que foi perseguido e torturado pela ditadura Vargas nos anos 30 e foi trabalhar no jornal 'Última Hora', tendo que lidar com os conflitos de ter que atuar em um jornal declaradamente getulista”.

Lançada em São Paulo, Brasília, Belém e Mossoró, a obra já está disponível nas livrarias de Natal. Segundo o autor, a repercussão em torno do livro tem sido bem diversificada entre os leitores. “Grande parte tenta fazer um paralelo entre a crise passada nos últimos dias do governo de Getúlio Vargas em agosto de 1954 e o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff”, comenta. “Cada leitor faz uma interpretação diferente, o que mostra o poder da literatura. Por retratar um pouco a história da imprensa nos anos 50, alguns professores do curso de Comunicação também estão indicando o livro para seus alunos”.

Após o prêmio, Almeida Júnior fez alguns ajustes para a publicação. Segundo o autor, o escritor só para de tentar melhorar o texto quando o livro vai para a gráfica. “Reli os originais algumas vezes, que também passaram por revisões na editora. Mas foram poucas alterações, sempre para deixar o texto mais fluido. Esse é sempre meu principal objetivo no texto. Tentar fazer uma leitura fácil, rápida e acessível para alcançar pessoas que não costumam consumir literatura com frequência”, explica.

Para 2018, o Almeida Júnior deve circular pelo país em eventos promovidos pelo Sesc. Ele também tem trabalhado em novos livros. “Tenho um livro quase pronto, que tentaremos publicar em 2019. Também estou em fase de pesquisa de uma nova ficção histórica passada entre 1961 e 1964”, diz o mossoroense.

Quadrinhos
O ilustrador mossoroense Aureliano Medeiros ganhou notoriedade dividindo seu cotidiano na forma de quadrinhos nas redes sociais. Sob a alcunha “Oi, Aure”, sua página no Facebook ultrapassou os 200 mil seguidores e no Instagram ele conta com 30 mil fãs, em três anos de projeto. Para o livro “Mercúrio Cromo”, ele fez uma coletânea de algumas de suas melhores postagens. A publicação saiu pela editora paulista Lote 42, que faz sucesso com projetos gráficos não convencionais. No livro de Aureliano não foi diferente.

O contato do autor com a Lote 42 existe desde 2015, mas a proposta de publicarem um livro juntos surgiu em 2016. “Joguei a proposta do livro para o João Varella (editor), que abraçou de pronto. Passamos mais ou menos um ano trabalhando no livro”, diz Aureliano, que chegou a fazer um pré-lançamento da obra na Comic Con Experience, em São Paulo, no início de dezembro. “Ano que vem tenho planos de fazer o lançamento em Recife, ainda em janeiro e Belo Horizonte em Maio, durante o Festival Internacional de Quadrinhos”.

Segundo o autor, a seleção do material ficou a cargo da editora. “Eu queria um pouco me eximir desse processo de escolha. O livro se encerra com uma história de 24 páginas sobre autossabotagem, compulsão de compras e procrastinação, que dá um fecho legal não só na coletânea, como em toda essa etapa do meu trabalho”, explica.

Sobre o projeto “Oi, Aure”, o ilustrador conta que a ideia surgiu de um período conturbado em sua vida. Eu não gostava muito de quem eu era, questão de corpo, cabeça, quase tudo. Isso me levou a fazer algo pra gostar um pouco mais de mim. Comecei a fazer os quadrinhos autobiográficos, dessa forma mesmo, pelado, porque eu queria enfrentar no papel e mostrar pro mundo aquela mesma pessoa que eu tinha que encarar todo dia no espelho. Assim eu comecei a lutar contra minhas ansiedades e monstros. Não existe um personagem. O personagem sou eu”, comenta.

Falando de si, Aureliano acabou expressando questões comuns a muitas pessoas. Muitas de suas publicações ganharam enorme repercussão nas redes. “Já recebi fotos de diversos lugares do Brasil onde as pessoas encontravam quadrinhos meus colados na parede de escolas, hospitais, banheiros e diversos outros lugares. Pra mim foi muito massa ver onde esse trabalho conseguiu chegar e saber que, de alguma forma, eu podia ajudar as pessoas”.


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