Poucas e boas da política potiguar

Publicação: 2020-09-15 00:00:00
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Valério Mesquita
Escritor

01) Mário Paulino era candidato a prefeito de Pendências e para chegar lá exercia de corpo e alma o santo ofício político. Participava de todos os eventos festivos, fúnebres, com tanta dedicação que pegou uma estafa. E dai, surgiu uma briga feia com a mulher. Padre Zé Luiz, pároco local e amigo da família, procurou Mário para um papo conciliatório. “O que é que está havendo entre vocês, Mário?”. “Padre, o problema é que estou um pouco estereofônico”. Espantado com a resposta, Zé Luiz retruca: “O que diabo é isso, Mário?” Pesaroso, descarta Mário Paulino: “Tenho alta fidelidade e pouca freqüência”.

02) Eleitor cinco estrelas é aquele que quer ser reconhecido, de imediato, pelo candidato. Às vezes, exige até que o político decline o número do CPF. O deputado Nelson Freire deparou-se com um. “Tá me conhecendo, deputado?”. Ele olhou preocupadamente a fisionomia do exigente eleitor, sem largar a sua mão. O sujeito com um olhar penetrante e pedante fuzilava impiedosamente Nelson, que foi, aos poucos, desbotando o sorriso, porque não se lembrava mesmo. Para sair da situação vexatória, só o cabo eleitoral de plantão poderia salvar. Depois dessa, Nelson caiu noutra. Pelo mesmo cabo eleitoral é apresentado a uma senhora. Lembrando-se do que acontecera antes, Freire precaveu-se: “Como vai a senhora? Um prazer enorme revê-la!”. “Mas, deputado, estou conhecendo o senhor agora! Onde o senhor me viu antes?” A verdade é que não era o dia de Nelson. Pelo calendário era dia 13 de agosto e o cabo eleitoral o grande azaradão.

03) Aqueles que acompanharam os fatos políticos dos anos sessenta e setenta, jamais deixarão de reconhecer a combatividade e a ousadia do ex-deputado Erivan França além da inteligência e da oratória do ex-deputado Moacyr Duarte. Os dois se digladiaram bastante em plenário. Certa vez, Erivan liderava os seus pares, da tribuna da Assembléia, numa implacável orquestração de denúncias contra o governo. Do outro lado, Moacyr sustentava a defesa com equilíbrio e desfaçatez, sem o ruído da estrepitosa e jovem bancada do MDB. Em dado momento do discurso, Moacyr, com extrema malícia, denomina o deputado Erivan de cornaca. O tempo fechou no plenário. Achando-se ofendido na reputação, Erivan protestou veementemente com o apoio dos colegas. Entenderam que Moacyr fora deselegante e que ferira o Regimento Interno da Casa. Calmo, como sempre se portava nessas ocasiões, Duarte explicou que o vocábulo empregado não tinha o sentido que Erivan e os colegas interpretavam. A sessão foi suspensa para uma consulta ao Aurélio. Suspense. Expectativa. Cheiro de pólvora no ar. A sessão é reiniciada com  a explicação mais do que conveniente. Cornaca, segundo o Dicionário Aurélio, “é aquele que guia elefantes e deles cuida”. Risos no plenário. Ficara adiado o tiroteio.

04) Sabe-se que os vereadores são os políticos mais próximos ao povo. Funcionam como veículos dos anseios populares. Agarrado às raízes, o vereador é tema permanente para o folclore político. Conta Caboré que o fazendeiro Nelson Canuto, do velho PSD, certo dia apresentou uma emenda ao orçamento municipal. Na hora da votação o presidente da câmara, como de praxe, indaga ao plenário: “Os que concordarem com a matéria, permaneçam sentados!”. Canuto levantou-se para o espanto dos seus pares. Curioso, o presidente perguntou: “Nobre vereador, V. Exa é a favor ou contra a emenda?”. O indecifrável Canuto, sem entender o que estava ocorrendo, disparou a inquietante interrogação: “Qui inmenda??”.

05) Nos tempos em que vereador não recebia salário, a Câmara Municipal mossoroense contava em seus quadros com o abnegado edil Zadock Xavante. Sem ambições, Zadock dizia: “Eu me espelho muito em Vingt-Rosado. O sonho de Vingt é ser deputado sempre. O meu, é ser vereador a vida toda. Pra mim, tá bom! São sonhos iguais. Aliás, minha avó já dizia: pra quem é, já basta. A verdade é que eu fui ficando, ficando e gostando dessa bosta e vou morrer atolado nela”. Dito e feito.







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