Poucas e boas de Macaíba – I

Publicação: 2020-07-14 00:00:00
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Valério Mesquita
Escritor

Macaíba tem um repertório inesgotável de “estórias” protagonizadas por personagens inesquecíveis. Por mais que se explore esses assuntos, menos se esgota o seu manancial. Novamente chega um “causo” do nosso conhecido Pedro Luiz de Araújo, o nosso Mestre Pedro, ex-vereador, ator de “peças” antológicas, já narradas aqui. Mestre Pedro carteava no Natal Clube ao lado de figuras como Djalma Marinho, Romildo Gurgel, Leonel Mesquita, Firmino Moura entre tantos outros. Certa vez, viveu uma densa e intensa “parada” de ficar frente à frente numa disputa com o explosivo Dr. Romildo Gurgel. Como todo jogador de baralho tinha manias e tiques nervosos, Romildo e Mestre Pedro não fugiam à regra. Romildo jogava com o revólver à cintura, pois achava que ele dava sorte. Por outro lado, Mestre Pedro deslizava na boca, de um lado para outro, um gasto palito, numa manobra acrobática que incomodava Romildo. “Mestre Pedro, tire esse palito da boca!!!”, esbravejou Romildo irritado. “Tire o revólver”, contestou Mestre Pedro calmamente. Romildo se desarma e Mestre Pedro entrega o palito. Com os “amuletos” desfeitos, o jogo continua tenso. Atinge o ápice. Os curiosos acercam-se da mesa. Romildo troveja para o garçom: “Traga-me o revólver!!”. Mestre Pedro, sem pestanejar dispara: “Traga o palito!!” O riso foi geral, e nessa “parada”, o palito foi mais arma que o revólver.

02) Esta me foi narrada, há alguns anos, pelo tabelião Raimundo Barros Cavalcante. No início dos anos 50, a prefeitura possuía o mais moderno (para o seu tempo) e bem equipado serviço de som externo, denominado “Amplificadora Municipal, a Voz de Macaíba”. O seu estúdio funcionava numa dependência do Mercado Público, no Centro, que irradiava para dez alto-falantes instalados em pontos diferentes da cidade. E lá estava o nosso herói, Zé Pirififiu, no estúdio, protegido por uma imensa parece de vidro, fazendo o seu duplo trabalho de locução e técnica de som, às voltas com pilhas de discos 78 rotações. Como todo artista provinciano, Zé tinha o seu fã-clube. A mais “atacada” fã ultrapassou a barreira do som, para todas as noites poder paquerar com o seu “Sérgio Chapelin”. No entanto, alguém resolveu colocar pimenta no prato do Pirififiu, contando tudo a sua mulher. Certa noite, quando o locutor apresentava o “musical variado” e ligava o microfone para dar o prefixo, de repente, surgem no estúdio, as duas mulheres aos gritos, trocando seletos e sonoros palavrões. 

Neutralizado pelo impacto da cena, Pirififiu esquecendo de desligar o microfone, jogou-se entre as duas rogando calma, mas apanhando ao mesmo tempo. Ao cabo de três minutos, quase toda a cidade estava postada de frente so recinto, a tudo ouvindo e assistindo pela parede de vidro. O nosso sofrido personagem, ao perceber a multidão, correu para o microfone e sentenciou: “E assim, acabamos de ouvir, em cadeia com a Rádio Poti de Natal, mais um eletrizante capítulo da novela “O Direito de Nascer”. Boa noite!”.

03) O padre Alcides Pereira foi um dos mais atuantes párocos que já passou por Macaíba. Certa vez, ele iria realizar o batizado do filho do macaibense e fanático aluizista João Curador. Corriam os anos sessentas. Aluízio Alves era governador a quem o padre Alcides não via com bons olhos. O batizado foi marcado para às 17 horas. Igreja cheia. Aluízio no auge. A família de João Curador toda vestida de verde. O menino, que se chamava Aluízio, vestia enxoval verde, toca verde, bubu verde, sapatinhos verdes, tudo verde. Aluízio deu uma maçada de duas horas, para desagrado e irritação do padre Alcides. Quando o governador chegou, de repente, todos se reuniram em volta da pia batismal e aí o padre Alcides, possesso, se referindo à criança, soltou aquele seu vozeirão: “Tragam o gafanhoto".

04) Essa vai para homenagear o grande amigo e irmão que partiu essa semana passada, jornalista Paulo Macedo. Era noite de posse de Paulo na Academia Norte-Riograndense de Letras. Expectativa geral e obstinação do novo imortal em lotar o auditório da Academia, à altura do prestígio que desfruta na sociedade. Eu era o presidente da Fundação José Augusto e havia me deslocado a Macaíba a fim de preparar-me para o evento. Dezenove e quarenta e cinco, Paulo, tenso e aflito, percorria as salas e salões da Academia preocupado com a frequência. Nisso surge a figura do ex-vereador José Alves Machado, funcionário da Fundação José Augusto que, interrogado por Paulo sobre o meu atraso, recebeu a seguinte resposta de forma pausada e conciliadora: “Calma , Dr. Paulo, só de Macaíba, Dr. Valério vem aí de ônibus com mais de 40 intelectuais conterrâneos”.