Prévia da inflação medida pelo IBGE mostra alta de 0,45%

Publicação: 2020-09-24 00:00:00
Os preços dos alimentos continuaram subindo na primeira quinzena de setembro e, ao lado da gasolina mais cara, puxaram a aceleração do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) deste mês, uma prévia do indicador oficial de inflação, medido pelo IBGE. O índice avançou 0,45% em setembro, ante 0,23% em agosto. Foi a maior alta para meses de setembro desde 2012, e a segunda maior de 2020, atrás apenas do 0,71% de janeiro, quando o choque de preços de carnes na virada do ano puxou a inflação.

Créditos: taba benedictoGupo alimentos respondeu por quase dois terços da variaçãoGupo alimentos respondeu por quase dois terços da variação

Com alta de 1,48%, o grupo Alimentação e Bebidas respondeu por dois terços da variação total do indicador, o maior impacto de alta entre os nove grupos de produtos cujos preços são pesquisados pelo IBGE. A continuidade da pressão dos alimentos já era esperada por economistas, mas o movimento ainda é considerado temporário e, embora tenha grande efeito sobre a percepção da inflação e afete mais o orçamento dos mais pobres, não sinaliza para uma elevação generalizada de preços na economia.

"As projeções para o IPCA de 2020 permanecem baixas e abaixo da meta, apesar de termos visto um processo de revisão altista. É um choque temporário, não é combatível por política monetária. A dinâmica de inflação continua benigna", disse o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez.

A "revisão altista" a que se referiu o economista ocorre de um mês para cá, por causa da inflação de alimentos. Os preços dos alimentos subiram no início da pandemia, com as famílias ficando mais em casa por causa do isolamento social, e voltaram a acelerar em agosto, turbinados tanto por maior demanda interna quanto por uma oferta interna menor, já que o dólar alto e a demanda da China impulsionaram as exportações.

Só que as revisões para cima elevaram as projeções do IPCA em 2020 de em torno de 2,0% para cerca de 2,5%, diante de uma meta de 4,0%, com tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo.

De acordo com a economista Julia Passabom, do Itaú Unibanco, as leituras recentes dos Índices Gerais de Preços (IGPs, calculados pela Fundação Getulio Vargas, que incluem preços no atacado) indicam que não vai haver alívio relevante na alimentação até pelo menos o fim do ano. A alta do dólar, combinada ao aumento da cotação internacional de matérias-primas, como soja e milho, pode levar a um repique de curto prazo em produtos industrializados, que pressionaria os preços.

Mais caros
Itens que já vinham ficando mais caros nos últimos meses seguiram em alta, como o de soja (20,33%), o arroz (9,96%) e o leite longa vida (5,59%). Esses produtos acumulam no ano altas de, respectivamente, 34,94%, 28,05% e 27,33%. Mesmo assim, a maior alta no IPCA-15 de setembro ficou com o tomate (22,53%), cujos preços haviam caído 4,20% em agosto. E alguns alimentos ficaram mais baratos no IPCA-15 de setembro. Foram os casos da cebola (-19,09%), do alho (-11,90%) e da batata-inglesa (-8,20%).

Na alimentação fora do domicílio, a alta de 0,36% foi composta pelos preços da refeição, 0,09% mais caras no IPCA-15 de setembro, e do lanche, com alta de 0,89%. Em agosto, esses preços estavam mais comportados - a refeição tinha ficado 0,52% mais barata, enquanto os preços dos lanches tinham avançado apenas 0,06%. Sobre os preços da alimentação fora de casa ainda pesam os efeitos da pandemia, com menos pessoas frequentando bares, restaurantes e lanchonetes e algumas cidades ainda adotando medidas de restrição ao funcionamento.
Apesar da pressão dos alimentos, isoladamente, a gasolina foi a grande vilã da inflação na primeira metade de setembro. O combustível ficou 3,19% mais cara em setembro, contribuindo com 0,15 p.p. da alta total.