Natal
Preços de alguns produtos em cesta básica podem variar mais de 200%
Publicado: 08:23:00 - 21/11/2021 Atualizado: 08:29:40 - 21/11/2021
Se ao comprar em um atacarejo, onde os preços costumam ser um pouco menores, a inflação ainda é sentida fortemente, nos outros segmentos do setor de alimentos essa realidade é ainda mais evidente. “Cada dia os preços aumentam e a qualidade está piorando, principalmente as hortaliças. A carne deu uma subida de preço e é o produto mais caro da feira”, avaliou a aposentada Maria Alércia Freire, de 64 anos.
Bruno Vital
Consumidores preferem pesquisar mais para conseguir produtos mais em conta. Famílias também diminuem quantidade de produtos consumidos

Consumidores preferem pesquisar mais para conseguir produtos mais em conta. Famílias também diminuem quantidade de produtos consumidos

Ela disse que não busca pesquisar em diferentes lojas, já que se fidelizou a uma única rede e consegue observar como os preços aumentam semanalmente. “Não chego a pesquisar porque acho que nem tem muito para onde correr. Todo canto está assim. Sempre compro em hipermercados e não vejo muita diferença para outros estabelecimentos que meu marido pesquisa”, disse ela.

Mas se dona Maria Alércia decidisse pesquisar o preço dos produtos entre atacarejos, supermercados e hipermercados, poderia  economizar na hora de fazer a feira e até se surpreender com a diferença de preços de alguns produtos. A variação entre os segmentos de venda de alimentos pode passar de 200%, especialmente na seção de hortifruti, que ela apontou como sendo alimentos que mais encareceram.

Essa variação na seção de frutas, verduras e legumes não mudou muito de abril para cá e pode se justificar pelas promoções semanais voltadas a produtos do gênero. O quilo do tomate, por exemplo, sofre uma variação de 192,47% entre diferentes estabelecimentos (R$ 2,39 a R$ 6,99).

Porém, outros produtos têm se destacado nessa diferença de preços entre lojas. A água sanitária lidera com uma variação de 210,08% sendo encontrada entre  R$ 1,19 e R$ 3,69. Já o sabão em pó salta de  R$ 2,25 para  R$ 6,89 numa variação de R$ 206,22% e o preço do quilo da batata doce, que foi encontrado por valores entre R$ 2,29 e R$ 6,79, varia 196,51% entre os estabelecimentos.

Em abril passado foram registradas variações mais alarmantes, como a do quilo do sal refinado que pulava de R$ 0,79 para R$ 4,29  (443,04%) entre lojas diferentes e o quilo do tomate, com diferença de 220,88% (de R$ 2,49 a R$ 7,99).

Famílias mais pobres são mais impactadas

A inflação dos alimentos afeta todas as classes sociais, mas o impacto é maior no orçamento das mais pobres. Segundo pesquisa realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), quando o assunto são os alimentos, a inflação é quase 10% maior entre as classes com renda menor.

A informação é reforçada pelo administrador e especialista em mercado financeiro, Henrique Clementino de Souza. Ele ressaltou que a evolução nos preços dos alimentos resultantes da elevação contínua que tem sido verificada com as sucessivas altas verificadas na inflação dos últimos seis meses compromete a renda da população de diferentes formas, principalmente com relação aos extremos das classes sociais.
“Os impactos são diferenciados em razão de que, enquanto para as famílias com maior poder aquisitivo a inflação compromete mais a renda no que diz respeito ao consumo de combustível, vemos um cenário diferente para as famílias com menor poder aquisitivo que tem suas condições de vida e, conseqüentemente a pouca renda que possuem, sendo bastante desgastada por uma inflação que influencia na aquisição de alimentos”, analisou.
Alex Régis
Maria Alércia Freitas reclama que os preços das hortaliças aumentam, mas a qualidade dos produtos só piora atualmente

Maria Alércia Freitas reclama que os preços das hortaliças aumentam, mas a qualidade dos produtos só piora atualmente

No ítem “alimentação”, ele destaca que há uma grande desigualdade no país, já que cerca de 1/4 do orçamento dos mais pobres está comprometido com esses gastos. “Temos uma ideia aproximada de que, quem ganha até dois salários mínimos compromete algo em torno de 22% da renda com alimentação. Já quem recebe mais de dez salários mínimos, por exemplo, compromete cerca de 7,6% da renda familiar”, afirma o especialista.

Ele pontua ainda que, se ocorrer uma eventual demissão ou redução de renda, o trabalhador mais pobre acaba reduzindo o gasto com a alimentação, pois será obrigado a ajustar o orçamento cortando gastos. “Uma parcela que vem se tornando mais expressiva desses cortes que a população mais pobre está tendo que realizar é justamente na alimentação. Desta forma, analisando este cenário a curto a médio prazo, pode-se prever um horizonte de aperto mais severo no orçamento familiar, tendo em vista as altas sucessivas da inflação que estamos vivenciando nos últimos seis meses e as projeções de fechamento da inflação anual para 2021 em um dos patamares mais elevados dos últimos sete anos”, alerta Henrique Clementino.

Segundo conta, no início do ano, o comprometimento da renda do trabalhador com alimentação estava em cerca de 30,8%, enquanto que em projeções referentes ao mês de outubro teve-se um crescimento de 9,6% resultando numa proporção de 40,4% da renda do trabalhador destinada exclusivamente para fins alimentícios. “Neste ambiente de alta inflacionária constantemente medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), sabemos que o carro-chefe são os alimentos, além de que o cenário econômico brasileiro ainda é de uma tímida recuperação, pois resultados melhores ainda não são atingidos devido a uma conjunção de fatores negativos como oscilações da cotação do dólar, geralmente para valores mais elevados; inflação em níveis crescentes nos últimos meses; mais uma recente alta atribuída a taxa Selic com seus atuais 7,75% ao ano; e estimativa de elevações dos preços com a projeção de reajuste do salário mínimo que passará a ser de R$ 1.210 para 2022”, aponta o especialista em mercado financeiro.

Consumo das famílias aumenta apesar da inflação

O consumo das famílias aumentou 4% no primeiro semestre do ano em comparação com o período de janeiro a junho de 2020, segundo levantamento divulgado hoje (12) pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Em junho, o Índice Nacional de Consumo (INC) nos Lares Brasileiros recuou 5,12% em relação a maio.

Em junho, no entanto, o Índice Nacional de Consumo nos Lares Brasileiros teve queda de 0,68% na comparação com o mesmo mês do ano passado. Segundo o vice-presidente Administrativo e Institucional da Abras, Marcio Milan, o resultado é o primeiro recuo nas vendas registrado neste ano. “Isso mostra um ponto de atenção”, enfatizou.

De acordo com Milan, a alta no semestre foi puxada por fatores como a prorrogação do auxílio emergencial, o pagamento da segunda parcela do 13º para os aposentados e pensionistas e o pagamento do segundo lote da restituição do Imposto de Renda.

As perspectivas para o ano ainda são de crescimento de 4,5% no consumo das famílias em 2020. O cenário positivo deve ser possível, na avaliação de Milan, pela melhora da situação econômica possibilitada pelo avanço da imunização contra a covid-19. “O Brasil vem avançando na vacinação. Em São Paulo e outros estados a gente já vai ter uma cobertura de todas as pessoas adultas [nos próximos dias]”, destacou.

Ainda devem contribuir para a expansão do consumo as novas rodadas do auxílio emergencial e de restituição do Imposto de Renda, acrescentou o vice-presidente da Abras.

Milan disse ainda que as empresas do setor de supermercados estão otimistas e ampliando os investimentos. Segundo ele, no primeiro semestre do ano, os supermercados e hipermercados abriram 60 novas lojas no país.
Inflação

O custo da cesta com os 35 produtos mais vendidos em supermercados pesquisada pela Abras aumentou 22,1% em junho na comparação com o mesmo mês do ano passado, estando atualmente estimada em R$ 662,12. Estão incluídos nessa lista alimentos, cerveja e produtos de higiene.
O aumento dos preços tem levado muitos consumidores a buscar alternativas mais baratas dos produtos de preferência. “O consumidor acaba optando por outras marcas para poder exatamente olhar o seu bolso”, disse Milan.

Há ainda a possibilidade de substituir um produto por outro mais barato. É o caso de famílias que passam, por exemplo, a consumir menos carne bovina e optam pelo frango, carne suína ou ovos.

Números
Veja mais detalhes sobre os preços dos produtos da cesta básica
Cesta básica outubro (preço médio)
Menor preço: R$ 328,93 (atacadão zona Sul)
Maior preço: R$ 399,91 no Carrefour ZN

Hipermercados: R$  381,53 
Supermercados: R$ 367,60
Atacarejos: R$ 343,45

Preço médio da cesta básica
Abril: R$ 322,62
Outubro: R$ 367,40 

Maiores variações entre estabelecimentos (outubro):

Água sanitária: R$ 1,19 a R$ 3,69 (210,08%)
Sabão em pó: R$ 2,25a R$ 6,89 (206,22%) 
Batata doce: De  2,29 a R$ 6,79 (196,51%) 
Tomate: De R$ 2,39 a R$ 6,99 (192,47%) 
Cebola: De R$ 1,29 a R$ 3,49 (170,54%) 

Variação do preço médio do alimentos
(abril a outubro)
arroz R$ 5,11 – 4,89
feijão R$7,55 – 7,80
açúcar R$ 3,13 – 3,92
sal R$1,00 – R$ 1,16
flocão de milho R$1,41 – 1,94
farinha R$ 4,20 – R$ 4,93
macarrão R$ 2,83 – 3,67
pão francês R$9,25 – 10,82
café R$ 4,59 – 5,60
leite R$ 4,01 – R$ 4,50
óleo R$ 8,12 – R$ 8,80
margarina 250 g R$ 2,74 – 3,76
carne bovina 1ª R$ 40,12 – 44,46
carne bovina 2ª R$ 31,33 – 35,11
frango R$ 8,98 – 11,83
carne de sol R$ 40,46 – 43,73
pescado do mar R$ 36,20 – 37,04
ovos R$ 12.12 – R$ 16,12
queijo coalho R$ 32,96 – 41,67

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