“Precisamos de um choque de investimentos”

Publicação: 2010-08-29 00:00:00
Renata Moura - repórter de economia

Ozires Silva, ex-ministro e ex-presidente da PetrobrasO Brasil precisa investir em infraestrutura de portos, aeroportos e rodovias, apostar na área de educação e reduzir burocracias governamentais, se quiser alçar voos socioeconômicos mais altos. A opinião é do ex-ministro da Infraestrutura e ex-presidente da Petrobras, da Varig e da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), Ozires Silva. O empresário, também oficial aviador e piloto Militar da Força Aérea Brasileira, será um dos palestrantes do Fórum Internacional de Gestão, Estratégia e Inovação, que será realizado no dia 21 de setembro no Centro de Convenções de Natal, e, em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, fala sobre desafios e tendências atuais e que estão por vir para o país. Silva também defende o capital privado como solução para gargalos que emperram o desenvolvimento do setor produtivo. Atualmente, ele exerce, entre outras funções, as de presidente do Conselho Consultivo do WTC - World Trade Center de São Paulo, de presidente do Conselho de Administração da PELE NOVA Biotecnologia S.A e de reitor da UNISA – Universidade de Santo Amaro S. Paulo. Na palestra em Natal, o empresário falará sobre oportunidades de negócio, sobre olhar estratégico, sobre trabalho em equipe e sobre como as empresas podem inovar e criar produtos e serviços de qualidade. Confira os principais trechos da entrevista.

Do que o Brasil precisa para decolar no campo da infraestrutura?

O Progresso das nações hoje depende claramente das infraestruturas Material e Humana. Na área Humana me refiro diretamente à educação que, sem dúvida nenhuma, precisa sofrer um incremento extraordinário para colocar o Brasil em compasso com o que está acontecendo no mundo. Na área Material, as contas governamentais indicam que os volumes dos recursos financeiros dos Governos Federal, Estadual e Municipal não são suficientes para atender a enorme demanda representada e mais o que está pela frente. A solução para resolver os gargalos deixados para trás não há como deixar ou mesmo estimular é a participação do capital privado.

O problema, na área material,  é maior nas rodovias, nos portos ou nos aeroportos?

Todos os setores - rodovias, portos ou aeroportos - estão com problemas a resolver. Precisamos de um choque de investimentos e parece que as autoridades estão se mostrando incapazes de resolver. Novamente insisto que a eficiência e os capitais privados poderiam fazer parte das soluções.

Longas filas de espera e voos atrasados voltaram a atormentar usuários do transporte aéreo. Foi o recomeço do apagão ou o Brasil está imune, conseguiu resolver de vez esse problema?

O chamado apagão aéreo foi resolvido aparentemente por restrições dos aeroportos ou ao trafego aéreo. A conseqüência é visível, pois o Brasil com o seu território Continental tem uma aviação menor do que a que necessita. A iniciativa privada precisa voar para produzir resultados, mas o estoque de restrições está presente abrindo espaço para um necessário choque de liberdade e de menos regulamentação.

Em artigo publicado em 2007, sobre o apagão, o senhor diz que “muitos debates foram realizados e que claramente mostraram que o monopólio estatal instituído para a prestação do serviço deu mostras de fadiga”. Por que essa fadiga? A administração da Infraero é ruim? Em que aspectos e qual o reflexo disso na prática?

A dinâmica do mundo moderno obriga às soluções igualmente dinâmicas. Os Governos, de um modo geral, presos a burocracias ultrapassadas, são ineficientes para responder às necessidades do país. Talvez não se possa culpar a administração da Infraero, mas, sem dúvida, os métodos e processos sempre lentos das decisões governamentais são obstáculos à eficiência essencial para o desenvolvimento do país.

Possivelmente em 2011 o Aeroporto de São Gonçalo do Amarante - que está sendo construído no Rio Grande do Norte - será concedido a investidores privados. Será a primeira privatização de um  aeroporto no Brasil. Como o senhor avalia o ingresso do capital privado nesse mercado? É positivo? É realmente necessário?

Já existem, além de São Gonçalo do Amarante, outros aeroportos previstos para operação privada e abertos para um comercial. Entretanto, recentemente o Ministério da Defesa divulgou que alterações do Marco regulatório que possa abrir os aeroportos para Gestão Empresarial serão deixadas para o próximo governo, a partir de 2011. Esse tópico precisa ser discutido o mais rapidamente possível, pois o Brasil já depende muito do tráfego aéreo e vai depender muito mais.

E no campo das empresas de aviação, como o senhor avalia a fusão entre a LAN e a TAM?

A fusão entre a LAN e a TAM caminha na direção do mercado mundial. Todas as empresas de transporte aéreo buscam atingir o maior volume possível de tráfego para diluição dos custos operacionais, em particular dos combustíveis e do pessoal. Entretanto, em que pese a Legislação Chilena muito mais simplificada, obstáculos existirão no Marco Regulatório Brasileiro.

É uma tendência do mercado de aviação as empresas deixarem de ser exclusivamente nacionais e terem investimento cada vez mais forte de fora?

Ainda há uma tendência no mundo de se considerar as empresas de transporte aéreo como exclusivamente Nacionais. Entretanto, a IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo) tem batido forte na linha de argumentação de que as empresas precisam ser capitalizadas uma vez que o volume de prejuízo nacional está extremamente elevado. Ainda não sabemos se os governos acabarão aceitando a necessária pulverização dos capitais e dos Acionistas.

Como o senhor enxerga o surgimento de companhias áreas regionais, como a Noar e a Azul? Esse é um nicho de mercado (o regional) a ser explorado ou a tendência é que essas empresas sejam engolidas pelas gigantes?

O mercado de transporte aéreo regional é um segmento que no Brasil precisa crescer. Pode não deixar de causar surpresa de se constatar que somente cerca de 130 cidades Brasileiras dispõem do serviço de transporte aéreo, num universo de 5.500 Municípios. Portanto, o transporte aéreo regional desde que o setor aéreo seja desregulamentado como os Estados Unidos fizeram em 1995, não há razão para pensar que as companhias regionais possam ser engolidas pelas gigantes.

Qual foi o seu maior desafio? Varig, Petrobras ou Embraer?

Cada uma das empresas representa um desafio particular e todas elas precisam atender as necessidades do mercado, caso contrário, poderão ser expelidas uma vez que no mundo global demandas não atendidas rapidamente serão atendidas pelos concorrentes.

Qual será o maior desafio, no campo econômico, para o próximo presidente da República?

Essa pergunta tem sido debatida entre os diferentes Colégios Eleitorais. Do meu ponto de vista, precisamos resolver os problemas das duas infraestruturas (material e humana), enfrentar as reformas estruturais há muito pedidas pelos setores geradores de riqueza e de redução do nível burocrático no qual vivemos, pois num mundo cuja competição é global precisamos construir uma parceria eficaz de governo e setor produtivo capaz de aumentar a competitividade dos produtos e serviços nacionais.

O que o senhor poderia antecipar sobre sua palestra em Natal?

Na minha palestra em Natal pretendo projetar o mundo no qual viveremos tentando identificar os atributos e comportamentos essenciais para que cada Brasileiro e o próprio Brasil possam ser vencedores no mundo global no qual vivemos. Vi, em um folder do evento, que um dos pontos que o senhor vai abordar é “como inovar num mercado em que tudo parece igual”. Então, seguindo essa linha, gostaria de saber como é possível inovar, de maneira geral, e no setor da aviação, especificamente. Embora na pergunta seja afirmado que no mercado tudo possa parecer igual na realidade não é. Todos aqueles que têm se orientado no sentido de inovar permanentemente buscando atender as aspirações dos consumidores tem se dado melhor em relação ao desempenho de seus empreendimentos.

E em relação ao Pré-Sal, de que tipo de inovações as empresas vão precisar para explorar essa camada? para aproveitar as oportunidades que virão a partir de sua exploração?

O Pré-Sal representa grandes desafios como qualquer área nova com a exploração de Petróleo. A experiência mostra que não existem bacias produtoras que sejam exatamente iguais. Toda uma base tecnológica precisa ser implantada para vencer as características geológicas e geofísicas da grande diversidade das formações que podem bloquear o acesso do óleo muitas vezes situado a grandes profundidades.

Haverá uma fatia dessas oportunidades para as pequenas empresas (em que setores) ou o pré-sal é negocio de gigante?

A indústria do Petróleo é, em geral, concentradora, exigente  de capital e, por consequência, de recursos financeiros. Assim, a atividade fim é um negócio para gigantes. O que não significa que essas sejam auto-suficientes assim, sob o grande guarda chuva das produtoras uma miríade de pequenas empresas especializadas seja necessária para subcontratações nas mais variadas atividades.