Economia
'Precisamos investir em formação para as mulheres', diz Sâmela Gomes
Publicado: 00:00:00 - 28/11/2021 Atualizado: 14:42:13 - 28/11/2021
Entrevista
Sâmela Gomes, diretora regional do Sesc/RN e empresária


Margareth Grilo

Editora Executiva

“Precisamos investir em formação para as mulheres, que precisam estudar. Por outro lado, é preciso mais coragem também das mulheres em empreender e seguir em destaque, acreditando que o lugar dela é onde ela quiser”. Quem afirma é a empresária potiguar Sâmela Gomes. Após 13 anos como executiva sênior de multinacional, agora, ela ingressa no universo do empreendedorismo. Está à frente de uma rede de negócios que engloba três empresas – Instituto Personalli de psicologia e saúde mental, Harmony Harris Estética Avançada e Doutor Hérnia, juntamente com as três filhas, uma psicóloga, uma dentista e uma publicitária em formação. Ao falar sobre empreendedorismo, a executiva afirma que “ainda há muito a ser trilhado” para a mulher. “Acredito que desenvolvemos [a mulher] historicamente mais capacidade empática, visão mais ampla e maior resiliência frente a adversidades. As mulheres começam a se sentir mais seguras. E maior formação e maior representatividade estão fazendo nosso cenário mudar”, afirma nessa entrevista. Confira.

Divulgação
Diretora regional do Sesc e empresária, Sâmela Gomes

Diretora regional do Sesc e empresária, Sâmela Gomes


Você saiu de uma carreira executiva para iniciar negócios na área de saúde. Como foi essa transição?
Essa é uma transição difícil na grande maioria dos casos para qualquer executivo. O mundo corporativo, embora seja considerado um dos ambientes mais estressantes que exista, passa a falsa sensação de “segurança”, em função dos altos salários, bonificações e possibilidades de altos ganhos materiais em consequência dos resultados. A maioria dos executivos possui essa “amarra", pois conhece de perto a dificuldade de tomar decisões e alcançar resultados em um país tão complicado como o Brasil e exatamente por isso, prefere trabalhar para o investidor. No meu caso, após 13 anos como executiva sênior de multinacional, um dia olhei dentro de casa e vi que tinha uma filha super procurada como cirurgiã dentista na área estética e funcional; uma filha psicóloga super competente que foi laureada da turma e muito dedicada, uma filha terminando publicidade e propaganda e sendo super elogiada. Pensei, como assim temos tudo isso aqui, um celeiro de talentos e não vamos aproveitar esta força em conjunto? Vi que seria um desperdício imenso se não fosse eu a investir e colocar a serviço da sociedade a nossa capacidade de fazer surgir novos serviços, inovadores em Natal, nossa cidade.  

Já era algo que estava no seu horizonte?
Na verdade, eu sempre pensei em empreender, mas imaginava que seria mais à frente. Eu sabia que tinha acumulado muito conhecimento na minha jornada como executiva – aprendi o que fazer e principalmente o que não fazer! Ainda assim, entendia que isso se desse ainda daqui a uma década. Esses eram meus planos desde que me formei na maior escola de negócios da América Latina, segundo todos os rankings sérios, e ela fica no Brasil, na Fundação Dom Cabral. Lá, eu entendi que eu poderia empreender. Hoje, vejo que a sincronicidade dos eventos me permitiu antecipar esta decisão, com a venda da divisão da empresa no Brasil. Conversei muito com as minhas filhas e elas lembraram dos nossos sonhos antigos, juntas. Ali, entendi que era chegada a hora.

Quais as perspectivas de mercado para empresas que focam na saúde?
O segmento de saúde é dos que mais cresce no Brasil e no mundo. Tal cenário se mostra ainda mais impressionante se levarmos em conta que os mesmos setores já apresentavam números em franco crescimento antes mesmo da pandemia. Basta vermos alguns dados. De acordo com pesquisa encomendada pela Federação dos Hospitais do Estado de São Paulo em 2019, o setor de Saúde Humana movimentava R$ 161,9 bilhões — com aumento de 47% no faturamento entre 2016 e 2019, pré-pandemia. Esse mercado possuía 184 mil e empregava mais de 2 milhões de profissionais. Essa tendência de crescimento continuou mesmo na pandemia – saúde, beleza e bem-estar foram segmentos que, quando inovaram, conseguiram ter excelentes resultados. O principal fenômeno foram as healthtechs, as startups de saúde. Veja que segundo o estudo da HealthTech Report 2020, realizado pela consultoria Distrito, o número de startups no setor da saúde cresceu 118% no Brasil entre 2018 e 2020. Isso se deu porque o mercado mudou e as pessoas e seus hábitos também mudaram. O setor percebeu a duras penas que, se não inovar, não pensar diferente e usar somente a perspectiva tradicional, não consegue se manter com perenidade.  Dados também mostram que no início da pandemia, o setor de saúde e beleza recebeu a maior variação positiva em relação aos outros setores, atingindo um crescimento de 111% em faturamento. Saúde é relevante e tem potência – mas sempre com inovação e tecnologia.

Atualmente, segundo levantamento do Sebrae, no Rio Grande do Norte, 32% das empresas são comandadas por mulheres. Isso é um avanço, mas para a mulher ainda há muito a conquistar?
Nossa, demais. É só a gente pensar que o nosso Estado tem um histórico em protagonismo feminino – na política, nas artes, na educação, na saúde. E por que estamos reduzidas ainda a 1/3 deste universo? Porque precisamos investir em formação para as mulheres, que precisam estudar. Por outro lado, mais coragem também das mulheres em empreender e seguir em destaque, acreditando que o lugar dela é onde ela quiser. A representatividade é um fenômeno comprovado inspiracional que faz com que esta coragem surja mais facilmente. Ainda há muito a ser trilhado. E não tem jeito – boa educação e formação e oportunidades dadas igualmente a homens e mulheres.

Por que as mulheres brasileiras estão empreendendo cada vez mais?
Primeiro, eu diria, que uma parte, infelizmente, por necessidade e não por terem a vocação e formação para isso. Temos muitas mulheres empreendendo pela falta de emprego e renda, oportunidades escassas em meio a crise que já se arrastava e se agravou com a pandemia. Os últimos dados do IBGE mostram que a participação das mulheres no mercado de trabalho aumentou pelo 5º ano seguido, mas elas continuam ganhando menos que os homens e ocupam cada vez menos, cargos de liderança. As Estatísticas de Gênero divulgadas pelo IBGE mostram que em 2019 a taxa de participação feminina na força de trabalho era de 54,5%, enquanto a masculina era de 73,7%. Ela aumenta, mas ainda está aquém. Por outro lado, muitas mulheres empreendem por vocação. E existem dados interessantes, e sem querem ser sexista, mas em um estudo feito pela Organização Internacional do Trabalho foi observado que negócios que possuem mulheres em postos de liderança têm melhor desempenho, e isso também acontece no Brasil. Há inclusive um relatório “Mulheres na gestão empresarial”, que ouviu mais de 13 mil empresas de mais de 70 países. De acordo com esse estudo, instituições que passaram a ser lideradas por mulheres obtiveram aumento nos lucros, mais facilidade para atrair e reter talentos, melhora na criatividade e inovação e progresso em relação à reputação das empresas. Acredito que desenvolvemos historicamente mais capacidade empática, visão mais ampla e maior resiliência frente a adversidades.  Imagina na nossa empresa, com quatro mulheres tão fortes! De toda forma, as mulheres começam a se sentir mais seguras. Como eu disse antes, maior formação e maior representatividade estão fazendo nosso cenário mudar.

Qual o maior desafio para quem quer empreender, principalmente, a mulher?
Talvez seja a credibilidade, já que de uma maneira geral ainda há o preconceito de que as mulheres não sabem fazer matemática financeira, ou tomam decisões baseadas somente na emoção, ou que não “aguentam o tranco” do mundo dos negócios. Bom, no meu caso, eu tenho menos problemas em relação a isso, muitos me conhecem e sabem que posso ter muitas características, mas frágil não é uma delas, definitivamente. E minhas filhas, Raissa, Thaisa e Anna Carolina desde que nasceram foram criadas para sentirem-se protagonistas de suas vidas e não delegar o rumo de suas vidas a ninguém – nem mesmo a mim.  Hoje, as vejo em reuniões, e se posicionando, trabalhando até tarde em suas tarefas para a empresa e me encho de orgulho – acho que fiz um bom trabalho. Espero que o meu caçula, de 2 anos e meio, seja um grande homem, inspirado nessas mulheres.

Que habilidades da carreira executiva você entende que foram essenciais para que você avançasse no desafio empresarial?
Estava conversando sobre isto essa semana com um alto executivo no ramo de comunicação aqui do Estado e concordamos em um ponto: o executivo que possui experiência de lidar com os múltiplos interesses que envolvem seu trabalho e resultados consegue ter muito mais assertividade na tomada de decisão no seu próprio negócio. Anos intermediando as muitas faces,  mercado, acionistas, clientes e sociedade, não há como não ter mais cabeça fria para antever coisas que as pessoas que apenas amam o que fazem, não possuem. A união de amar aquilo que é o objeto central de seu produto ou serviço e ainda conseguir ter essa visão mais executiva me parece que é uma das maiores fontes de sucesso que se pode ter. Porque é igual a filho, você ama infinitamente, mas precisa agir de forma assertiva para que ele viva mais e melhor. Com a empresa é a mesma coisa. Há exceções, como em tudo na vida, mas é algo bastante eficaz no mundo dos negócios.

Quais as lições que ficaram?
Não somente as lições – do que fazer, do que não fazer, quais são os processos críticos de um negócio, como estabelecer uma cultura, etc. Essas e inúmeras outras foram lições aprendidas na prática e não somente na teoria. Mas mais que isso – ficam as pessoas. Quando eu e minhas filhas decidimos empreender juntas, eu sabia que precisávamos de mais gente conosco, complementando os nossos saberes. Elas concordaram e eu chamei executivos brilhantes que já tinham trabalhado comigo em algum momento e eu sabia do poder incrível que tinham para somar e agregar. Chamei para comporem o quadro societário das três empresas – Instituto Personalli de psicologia e saúde mental, Harmony Harris Estética Avançada e Doutor Hérnia. No nosso modelo de negócios, eu chamei pelo trabalho e não por algum capital. Lá na frente, na execução do projeto de expansão que já está desenhado, eles poderão fazer aporte de capital, se desejarem, para aumentar a participação na empresa. Então ficam as lições, mas ficam principalmente as pessoas.

A economia vem tendo uma recuperação gradual, à medida que a vacinação avança. Você acredita em plena retomada dos negócios nos próximos seis meses?
Claro que sim. Eu e minhas filhas estamos investindo muito – não somente dinheiro, mas energia e trabalho porque confiamos demais. Agora, a confiança é algo que também precisa ser subsidiada por elementos concretos – fizemos inúmeras pesquisas, contratamos empresas especializadas para nos ajudar a ver na lupa o mercado. Tomamos decisões baseadas em dados. Selecionamos uma equipe de altíssima performance e expertise. Temos muita ciência e tecnologia aplicada em nossos serviços. E temos ainda o propósito das nossas empresas que fará qualquer um dos que delas participam ter orgulho de fazer o que fazem junto conosco. Além de tudo isso, temos uma mãe e suas filhas, que cuidarão de um negócio que as reflete. Não tem como deixar a peteca cair.

Que desafios, você vislumbra nesse momento de retomada da economia e dos negócios?
Principalmente a confiança da população. Estamos saindo desta pandemia precisando voltar a acreditar em nós mesmos e no futuro. Mas as nossas empresas ajudam inclusive a sedimentar este fenômeno – cuidando da saúde das pessoas.

Que mensagem você deixa para mulheres que sonham em tirar um negócio do papel?
Acreditem, estudem e jamais deixem ninguém dizer que você não consegue. Seja autora da sua vida. Transformem-se para transformar o mundo.

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