“Precisávamos de mais poderio para crescer”

Publicação: 2011-02-27 00:00:00
Renata Moura - Repórter de economia

Operações de fusão e aquisição no ensino superior privado começaram a ganhar força no Brasil a partir de 2005, mas só em 2007 movimentaram a primeira vez o  Rio Grande do Norte. Naquele ano, a Universidade Potiguar (UnP) anunciou que estava se associando com a rede internacional de universidades Laureate. Mais ou menos no mesmo período, a Faculdade de Natal (FAL), fundada pela mesma família, também entrou no radar de investidores. “Fomos sondados por vários grupos, mas não queríamos simplesmente vender a instituição, até porque ela não estava à venda”, diz o diretor geral da faculdade, Eduardo Holder, um dos que anunciaram esta semana que a instituição, que fatura R$ 11 milhões por ano, foi vendida por cerca de R$ 12,5 milhões. Nesta entrevista, ele fala sobre o negócio, fechado com a carioca Estácio Participações, e também detalha as mudanças e planos previstos, com a chegada dos novos controladores.

Eduardo Holder, diretor-geral da FALComo e quando começaram as conversas entre a FAL e a Estácio?
A negociação só iniciou há quatro meses, quando um representante do Grupo Estácio nos procurou com o intuito de conhecer melhor nossa instituição para uma possível parceria.

Essa foi a primeira oferta feita pela FAL ou a Faculdade já havia sido sondada por outros grupos?
Nós chegamos a ser sondados e recebemos várias propostas de venda de várias instituições de diversas partes do país, porém queríamos fechar um negócio que tivesse relação com a nossa identidade e que nos desse a possibilidade de prosseguir com a política de qualidade e respeito para com o aluno, implantada por nosso fundador, o professor Carlos de Paula.

Que grupos demonstraram interesse pela faculdade e por que, com eles, o negócio não vingou?
Fomos sondados por vários grupos, com os quais assinamos acordos de confidencialidade, por essa razão não posso citar os nomes. Começamos a receber propostas há mais ou menos três anos, mas não queríamos simplesmente vender a instituição, até porque ela não estava à venda. E sim, dar continuidade ao nosso projeto de ensino com mais capacidade de investimento, ao lado de um grupo forte que conhecesse o ensino no Brasil e não estivesse interessado em simplesmente ganhar dinheiro, mas tivesse o verdadeiro propósito de trabalhar a educação como forma de desenvolver o potencial do nosso Estado.

Com o fechamento do negócio, a família De Paula vende a última universidade que administrava (a UnP, também fundada por eles, foi adquirida pela norte-americana Laureate). Por que Carlos de Paula resolveu se desfazer do negócio?
Na verdade, ele vislumbrou a possibilidade de ver seu sonho de ter uma faculdade referência no ensino em nossa região se transformar em realidade, já que o estado vive um momento de grande oferta no ensino superior e o MEC cada dia cobra mais das instituições de ensino no Brasil, e isso leva as instituições a uma competição muito forte. Mas só os grandes do mercado podem encarar isso em igual patamar, com condições de investir em instalações confortáveis, melhores laboratórios e melhor material didático para nossos alunos.

Havia problemas financeiros na empresa ou, de repente, a necessidade de aumentar o grau de profissionalização?
Como falei anteriormente, é difícil concorrer em um mercado que tem sede por transformação e investimento com poucos recursos. Isso não quer dizer que tínhamos problemas financeiros, mas precisávamos de um maior poderio para estar entre as grandes, o que sempre foi nosso objetivo.

Qual é o cenário atual no setor de ensino superior privado no Rio Grande do Norte? A concorrência anda aquecida?
 A concorrência está super forte. As instituições estão oferecendo ao aluno um alto número de vagas e isso leva o mercado a ter uma grande necessidade de melhoria contínua na qualidade do ensino e na diferenciação dos seus serviços, para que os alunos possam escolher qual faculdade tem sua cara e ofereça o ensino que case com suas necessidades.

Fusões e aquisições devem se tornar, como está acontecendo nacionalmente, tendência no Estado?
Acredito que sim, pois cada vez mais veremos a necessidade de altos investimentos neste ramo, ficando difícil para as pequenas instituições sobreviverem. Tenho certeza que este é só o começo e que muitas notícias de aquisições e fusões aparecerão nos próximos meses.

Qual é o faturamento da FAL por ano e para quanto se espera que ele suba (em quanto tempo também) com a chegada dos novos controladores?
O nosso faturamento anual está na casa dos R$ 11 milhões ao ano e temos uma expectativa que este número possa crescer bastante com os novos investimentos que serão realizados e com a melhora na qualidade do nosso ensino. Mas seria precipitado fazer uma projeção agora, já que o planejamento ainda está sendo elaborado.

Qual é a estrutura hoje da faculdade e o que muda com a venda?
Hoje temos três unidades, sendo uma em Candelária, outra na Romualdo Galvão e a terceira na Zona Norte. Somos, portanto, a única instituição de ensino superior privada presente nesta região da cidade. Ainda estamos planejando como será feito este investimento, só posso antecipar que nossos alunos não serão afetados de forma negativa, muito pelo contrário terão ainda mais orgulho de estudar na FAL.

Há planos de expansão?
Sim, temos planos de expansão para os próximos cinco anos os quais devem começar a se concretizar em curto prazo. O gasto que teremos ainda não foi orçado, porém investiremos em qualidade do ensino como pedra fundamental do nosso projeto.

Haverá mudanças em relação ao ensino, ao foco, à grade de cursos?
Vemos nosso ensino como uma força da nossa instituição. Nossos cursos são copiados pelas outras instituições e isso nos deixa muito orgulhosos do bom trabalho que fazemos. Claro que novos cursos devem ser criados, mas os atuais continuarão a existir sem que sofram nenhum tipo de modificação para nossos alunos. É possível que venhamos a implantar mudanças nas grades curriculares para novos ingressantes, mas os alunos que estão hoje na FAL não sofrerão qualquer tipo de mudança no ensino, pelo contrário só serão beneficiados com uma melhoria na estrutura já existente.

 Operações de fusão e aquisição normalmente geram insegurança no time da empresa alvo da operação. Levantam, por exemplo, o temor sobre demissões. Haverá demissões na FAL?
Essa é uma decisão que ainda não foi tomada. Naturalmente as pessoas estão em um processo contínuo de avaliação, mas temos um grande time na FAL e estou certo de que, continuando com o bom trabalho, as posições serão mantidas.

Quais são as vantagens desse negócio para os alunos e o quadro de colaboradores da empresa?
As vantagens são muitas. Com mais potencial de investimento, será possível melhorar as nossas instalações físicas para dar mais conforto a todos, investir em material didático de alto nível sem custo adicional para os alunos, entre outras coisas. Além disso, os nossos profissionais terão a possibilidade de crescimento profissional com um plano de cargos muito mais completo e bônus sobre metas, o que pode aumentar os salários indiretos. Com toda a certeza esta prática inovadora será implantada na FAL. Não só para os professores, mas para todos os gestores da instituição.

O ensino à distância, que é visto como uma boa tacada para reduzir custos do negócio, já é realidade na faculdade?
O ensino à distância já é uma realidade no Brasil e no mundo e nós não podemos ficar de fora desse mercado. Levar a educação para as áreas menos acessíveis e dar a possibilidade de desenvolvimento profissional às pessoas que não têm horário fixo é nosso objetivo e a educação à distância nos dá essa possibilidade. O grupo Estácio já trabalha muito forte nesse mercado e estaremos agregando mais esse serviço ao nosso portfólio, com alta qualidade e acessibilidade total.

Muito se fala sobre escassez de profissionais qualificados e também de profissionais que chegam mal qualificados ao mercado. Há uma parcela de culpa das faculdades e universidades em relação a isso?
Infelizmente não temos um ensino básico totalmente capaz de preparar os alunos para ingressar no ensino superior em nosso país. Recebemos alunos que, apesar de passar pelo processo seletivo do vestibular, precisam de um complemento de formação que é feito por meio de cursos de nivelamento, para que os mesmos tenham a possibilidade de agregar conhecimento e usar o mesmo em seu dia-a-dia. Nem todas as instituições de ensino superior trabalham desta forma e isso é notado ao final do curso, quando o aluno vai para o mercado de trabalho. Temos muito cuidado para que o aluno FAL seja bem visto profissionalmente e buscamos não só prepará-lo tecnicamente, mas dar uma formação humana de competências e habilidades que completam sua educação.

 O setor privado carrega o “estigma” de ser um berço de profissionais mal preparados. Criticam as “más línguas” que o setor prioriza o aspecto financeiro, o lucro, em detrimento da qualidade do ensino. Qual é sua opinião sobre isso?
Não posso concordar com esta afirmação, já que a melhor instituição de ensino superior no Brasil é privada, que é a Fundação Getúlio Vargas. O que acontece é que algumas empresas se aproveitam para tirar vantagem de situações em todos os ramos do mercado e, na educação, isso não é diferente. Porém, estas logo desaparecem, já que a sociedade facilmente separa o joio do trigo e ensino não é brincadeira e deve ser feito de forma profissional e bem intencionada.

Há quem critique o setor privado por considerar que há uma mercantilização da educação no Brasil. Como o senhor enxerga essa questão?
No nosso país o ensino superior chega a uma parcela muito pequena da população. No último levantamento feito pelo MEC, apenas 13% dos brasileiros entre 18 e 24 anos se encontram cursando ou já cursaram uma faculdade, número este que é ridículo quando comparado com outros países, como por exemplo os EUA que tem 75% e até nossos vizinhos, Chile e Argentina que detém mais de 50% de alunos nesta faixa etária no ensino superior. Por tudo isso, é necessário um investimento privado na nossa educação para fazer com que todos possam ter acesso a uma formação de bom nível, o que leva o país a se desenvolver.

Principalmente as faculdades particulares exploram nas campanhas de marketing que estar sentado num de seus bancos aumenta a perspectiva de empregabilidade. Quantos por cento dos alunos egressos da instituição conseguem uma vaga?
Nosso percentual de empregabilidade é de 83%, já que temos um programa de estágios e empregos que funciona bastante bem. Além disso, temos conhecimento de alunos nossos que galgaram postos em suas empresas e passaram a posições de destaque nacional. De um modo geral, os ex-alunos da FAL se encontram em posições de liderança nas empresas do estado e isso nos orgulha bastante.

Há preconceito no mercado contra os profissionais egressos de faculdade particular?
De forma alguma. O mercado está mais preocupado com o comportamento ético, as atitudes e a capacidade técnica - prática dos profissionais, coisa que é bastante trabalhada nas nossas salas de aula. Nunca ouvi um relato de algum aluno ou de alguma empresa que deixou de contratar o profissional por ele ser egresso de instituição privada.