Prejuízos com greve dos caminhoneiros ultrapassam R$ 100 bilhões

Publicação: 2018-06-03 00:00:00
Ricardo Araújo
Editor de Economia

Enquanto o Brasil tenta retomar a rotina após os 11 dias de greve dos caminhoneiros, entidades representativas dos segmentos que movem a economia nacional contabilizam perdas. Do pequeno ao grande produtor, da microempresa às multinacionais, os prejuízos acumulados deverão ultrapassar os R$ 100 bilhões. Os reflexos dos protestos que tomaram as rodovias do Brasil e paralisaram o escoamento da produção, serão vistos, segundo especialistas na redução do Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma de todas as riquezas do País, deste ano. Há, ainda, o risco de encarecimento de produtos e serviços.
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Greve dos caminhoneiros afetou desde os pequenos aos grandes empresários em todo o País; aéreas cancelaram quase 300 voos

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Somente no comércio nacional, de acordo com estimativa da  Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), entre os dias 21 e 28 de maio, os setores do comércio e serviços deixaram de faturar, aproximadamente, R$ 27 bilhões devido à interrupção do transporte de carga nas rodovias do país. Com isso, a CNDL e o SPC Brasil avaliam que o crescimento do PIB será menor do que o inicialmente esperado em 2018 e poderá ser revisto para algo perto de 2%, inclusive com resultado negativo no consolidado do segundo trimestre.

“Precisamos voltar a trabalhar. O setor de comércio, em especial, que gera 12,7% do PIB e movimentou R$ 715 bilhões por ano, é um dos motores do país. Estamos prontos para colaborar, pois entendemos que é urgente criar melhores condições para quem gera empregos e riqueza no país”, destacou a entidade em nota. Nos shopping centers espalhados pelo Brasil, a queda na movimentação de clientes foi de 15% entre os dias 21 e 27 de maio, conforme estudo da Associação Brasileira dos Shoppings Centers (Abrasce).

“Acompanhamos de perto a paralisação e o reflexo dos impactos no setor. De imediato, os empreendimentos seguiram com plano de contingência para garantia da segurança e bom funcionamento das operações", declarou Glauco Humai, presidente da Abrasce.

De acordo com o estudo, a região mais foi impactada foi a Nordeste, com 18%, seguida da Sul, com 14% e da Sudeste, com 13%. “Alguns clientes optaram por não sair de casa em razão da economia de combustível e essa escolha refletiu no fluxo dos shoppings", afirmou Walter Sabini Junior, sócio-fundador da FX Retail Analytics, colaborador do levantamento.

Nos supermercados de todo o País, o desabastecimento de itens perecíveis como frutas, verduras, legumes, laticínios e carnes in natura provocou perda nas vendas cujo prejuízo é projetado em R$ 1,32 bilhão, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras).  Segundo a Associação, serão necessários, pelo menos, 10 dias para que a situação de abastecimento de tais itens se regularize.

Com aproximadamente 300 voos cancelados ou alterados,  pelas companhias aéreas Avianca, Azul, Gol e Latam, o prejuízo da greve dos caminhoneiros provocado ao setor aéreo nacional é projetado em R$ 50 milhões por cada dia da paralisação no abastecimento dos aeroportos. Os dados são da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). “É estimado um prejuízo diário de mais de R$ 50 milhões, que envolve cancelamentos, pousos técnicos para reabastecimentos, no shows e atendimento a passageiros que deixaram de embarcar”, informou a Abear em nota.

Economia

A analista sênior da Bloomberg Intelligence, Julie Chariell, publicou uma análise sobre a greve dos caminhoneiros no Brasil, com foco para o varejo e consumo. No estudo, ela aponta que a baixa confiança dos consumidores no Brasil reflete o impacto do alto desemprego e dos preços do combustível sobre o sentimento, potencialmente paralisando a recuperação do consumidor e o crescimento da receita para fabricantes de produtos e varejistas.

Embora as vendas no varejo tenham sido um benefício para os varejistas do Brasil em março, no início da Páscoa, isso pode não continuar no segundo trimestre. A confiança do consumidor em maio ficou estável em relação a abril, mas caiu 1,2% em relação ao ano anterior, enquanto a taxa de desemprego de 12,9% registrou leve melhora em relação aos 13,1% de março, mas acima da média de 2017.

“O sentimento do consumidor provavelmente continuará enfraquecido, dada a incerteza política antes das eleições de outubro, as revelações de corrupção em andamento e os efeitos da greve dos caminhoneiros”, destacou Julie Chariell em nota.

Setores da economia
Veja abaixo a previsão de prejuízos em diversos setores decorrentes da greve dos caminhoneiros.

Comércio e serviços
R$ 27 bilhões deixaram de ser faturados durante a greve

Distribuidoras de combustíveis
R$ 11,5 bilhões em perdas no faturamento em todo o Brasil

Indústria química
R$ 9,5 bilhões em perda no faturamento

Carne bovina
R$ 8 bilhões deixaram de ser movimentados no setor

Construção civil
R$ 3,8 bilhões deixaram de ser gerados no período da greve por falta de insumos nos canteiros de obras

Indústria de frangos e porcos
R$ 3 bilhões em prejuízos com exportação e produção
70 milhões de aves mortas

Supermercados
R$ 2,7 bilhões em itens perecíveis deixaram de ser comercializados

Têxtil
R$ 1,8 bilhão de perda no faturamento

Cadeia leiteira
R$ 1 bilhão de prejuízo no País
300 milhões de litros de leite descartados

Aviação civil
R$ 450 milhões em prejuízos para as empresas aéreas

40 fábricas de automóveis pararam a produção durante a greve. Cerca de 51 mil veículos deixaram de ser fabricados.

Elaboração: Estadão Conteúdo