Prelúdio e fuga para o oeste

Publicação: 2017-11-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Valério Mesquita
Mesquita.valerio@gmail.com

Vou embora para Água Nova. Quero, apenas, uma casa pequena de uma porta e uma janela. Lá vou ser eleitor ainda do padre Motta. Desejo contemplar da janelinha aberta o vendedor de cuscuz e de manguzá. A simplicidade das coisas, da chuva caindo – quando o milagre acontecer – com goteiras pingando na sala sem móveis. Para trás as notícias de parentes e aderentes que morrem nos corredores do Walfredo Gurgel. Nem ouvir falar em governo, funcionalismo atrasado, juros, taxas bancárias, cheque especial e cartão de crédito. Ser desconhecido, anônimo, fulano de um mundo novo, distante, coletivo, mas não globalizado. Nem ouvir falar mais em eleições e muito menos na reforma previdenciária. Nem de quando vai chegar a transposição das águas do São Francisco (?).

Sonho com as madrugadas feitas de silêncio. Com a calma da pracinha de Água Nova povoada de alegrias simples de viver. De viajar no ônibus da linha pra Mossoró para ouvir a última gargalhada histriônica de Carlos Augusto e nela descobrir os mistérios do país dos Rosados. Incógnito, caminharei pelas ruas antigas a redescobrir casas centenárias. Mossoró é como mulher. Tem que ser tocada, invadida, sentida. Não vale o que se propaga pela televisão e revistas. Mossoró é história, é passado e futuro. Saber como vai Antônio Capistrano, relembrando aquele seu jeito de ser na Assembleia Legislativa: suave patativa vespertina da palavra facultada. Depois de tudo, voltar a Água Nova, ao mundo encantado da solidão consentida. De saber notícias de Lucrécia, Venha-Ver, onde Alcimar Torquato um dia deixou de ser prefeito. Nada através dos meios de comunicação. Tudo pelo “jornal bocório”, português errado, sotaque carregado para esquecer o chato whatsapp do natalense e do falso portal da transparência.

Não há refúgio melhor para escapar do Carnatal que vem aí. De lá não escutarei os folguedos dos que teimam enriquecer, cada vez mais, um grupo de felizardos “empresários do turismo”. Em Água Nova tem o “boi tátá” de João Bofão. Tem o pagode do cabaré de Joana Ganchão. Sem abadás, sem camisinhas porque o lema é o da banana: não se come com casca.

Vou embora para Água Nova. Lá eu tenho o SUS. Me alistarei no Bolsa Família e, quem sabe, no MST quando me sentir entediado. Quando volto? Ah! Vou esperar a vinda de Lula ao Rio Grande do Norte pela terceira vez como presidente e colocar na sua cabeça o boné do Forró do Dagô.

Não quero ouvir falar no desmonte da “Lava a Jato”, peça por peça. O velho Proudhon, o rabugento e radical filósofo francês doutrinava naquele tempo que a “propriedade privada é um roubo”. Mas, roubo mesmo meu caro “Proudha”, é a cobrança compulsória e compulsiva dos juros dos cartões de crédito e do cheque especial. Pensei falar com o Procon, uma entidade fundada por Robin Hood para defender os fracos e oprimidos. Mas não há para quem apelar. Todos estão comprometidos. Lá em Água Nova, o silêncio diz mais que um longo discurso. Além de ser um argumento difícil de refutar.

Lá em Água Nova não existe feriado. Não dá para aceitar a ociosidade por decreto. O povo entende que a catraca funcional é uma geringonça burocrática e estatística que contabiliza os pontos facultativos e os feriados, conforme a liturgia oficial para não dá aumento e nem pagar em dia.

No mais, é a pretensa modernidade parlamentar de terceira mão. Na qual, é forçoso permanecer medíocre para ser popular. Conforta que toda nudez de caráter será castigada. Por isso, Água Nova é refúgio, prelúdio e fuga, para o oeste.


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