Economia
Procura por pescado reduz 80% no Mercado do Peixe e Canto do Mangue
Publicado: 00:00:00 - 08/04/2020 Atualizado: 12:05:40 - 08/04/2020
Mariana Ceci
Repórter

Ainda em recuperação após a crise provocada pelas manchas de óleo que chegaram às praias do Nordeste brasileiro no segundo semestre de 2019, o setor pesqueiro agora enfrenta queda na demanda interna e na exportação, provocadas pelo Coronavírus. De acordo com relatos de pescadores do Canto do Mangue e do Mercado do Peixe de Natal, a queda na procura pelo produto, muito procurado normalmente durante o período de páscoa, chega à 80%. A crise atinge desde às grandes empresas exportadoras de produtos como o atum, que estão com às exportações integralmente paralisadas, aos pescadores artesanais, muitos dos quais ainda não receberam o seguro-defeso de 2020, e estão se mantendo com ajuda de familiares.

  

Magnus Nascimento
Pescadores temem vendas abaixo do esperado na Semana Santa

Pescadores temem vendas abaixo do esperado na Semana Santa


No Canto do Mangue, em Natal, ponto de venda para muitos pescadores artesanais da cidade, os efeitos da queda nas vendas já são sentidos no dia-a-dia das famílias de pescadores e, também, nos preços dos pescados, que caíram em até 28% desde o ano passado. “Aqui trabalhamos a família inteira: neto, avô, pai, primos, tios”, conta Callini Venâncio, de 26 anos. De acordo com ela, que há cinco anos trabalha com os familiares em uma banca montada em frente ao Mercado do Peixe, no bairro das Rocas, no período da páscoa, costuma-se vender em média 500 kg de peixe por dia. Este ano, no entanto, a média diária não ultrapassa os 100 kg.


“O movimento está muito fraco e, do jeito que está, não vai durar muito. Os peixes já estão bem mais baratos do que no ano passado, mas mesmo assim falta gente para comprar”, diz Callini. A cioba, por exemplo, que na páscoa de 2019 era vendida à R$ 35 o quilo, hoje pode ser encontrada por valores que variam entre R$ 25 e R$ 20 entre os pescadores. Dentro do Mercado do Peixe, a situação não é melhor: o local, que costuma receber uma grande quantidade de clientes na semana anterior à Sexta-Feira da Paixão, onde tradicionalmente os cristãos consomem peixe, estava ocupado principalmente pelos próprios funcionários na manhã da quarta-feira.


Há cinco anos, Wedipo Teixeira, de 29 anos, é contratado para reforçar a mão-de-obra de um dos quiosques de pesca do Mercado apenas durante o período da Semana Santa, e conta que nunca viu o local tão vazio de clientes. “As vendas caíram na faixa dos 70%. Todos os preços estão mais baixos, o pessoal entra mais cedo e sai mais tarde na esperança de vender algo”, diz ele.


Magnus Nascimento
Wedipo Teixeira afirma que nunca viu o Mercado do Peixe tão vazio de clientes

Wedipo Teixeira afirma que nunca viu o Mercado do Peixe tão vazio de clientes


Alternativas

Na tarde da última quarta-feira (7), uma reunião extraordinária da Câmara de Comércio de Pescados aconteceu no Ministério da Agricultura, reunindo empresários do setor e representantes do Governo Federal a fim de discutir possíveis saídas para a crise. De acordo com Gabriel Calzavara, diretor do Sindicato da Indústria da Pesca do RN (Sindipesca-RN), o principal objetivo a curto-prazo é garantir o custeio do setor para que as empresas, em sua maioria de pequeno porte, não fechem as portas definitivamente nos próximos meses.


“Nós precisamos de um crédito específico para o setor pesqueiro, porque a cadeia produtiva inteira está rompida diante dessa crise. A maior parte dessas empresas são pequenas, e não possuem capital de giro para manterem as portas abertas por dois meses, por exemplo”, diz Calzavara. O diretor afirma que há duas principais dificuldades para o setor pesqueiro: a primeira, está relacionada à própria ausência de mercado consumidor para os produtos e, a segunda, à dificuldade logística imposta pelas restrições de voos e demais políticas de isolamento social.


O professor de economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Secretário de Pesca e Agricultura de Macau, Antonio-Alberto Cortez, conta que a crise provocada pelo Coronavírus teve proporções maiores à das manchas de óleo, pois o mercado ainda não estava plenamente recuperado. "Mesmo antes de uma recuperação plena, veio essa questão do Coronavírus. Isso impactou de forma extraordinariamente maior do que a própria época do derramamento do óleo". De acordo com o professor, apenas no segmento da pesca de atum, cerca de 1,6 mil pessoas que trabalham diretamente na atividade podem ser afetadas, sem contar os trabalhadores de terra dos estaleiros, frigoríficos e outros elos da cadeia produtiva.


“A situação dos pescadores é muito complicada. Primeiro porque você não tem pescadores ricos. Você pode até ter um atravessador rico, mas o pescador, em si, não. Muitos se encontram em uma encruzilhada: se obedece às recomendações para ficar em casa, não pesca e, consequentemente, não tem renda. Se ele desobedece a recomendação e vai pescar, não tem para quem vender, ou seja, o setor encontra-se em uma situação muito difícil”, diz Cortez.


Na reunião extraordinária da Câmara do Comércio de Pescados, os empresários apresentaram algumas demandas ao Governo Federal. De acordo com o diretor do Sindipesca-RN, o primeiro pedido do setor à União foi para abertura de um crédito específico para os setor pesqueiro, que possa custear ao menos o abastecimento dos barcos durante três meses - para passar 20 dias no mar, um pesqueiro de atum com 10 tripulantes tem custo médio de R$ 220 mil para operar.


Hoje, os pescadores têm dificuldade na obtenção de crédito junto aos bancos, por não poderem utilizar os barcos como garantia. "O nosso pedido foi para que haja um fundo que assegure esses créditos e que possa utilizar a produção e as embarcações como garantia", diz o diretor. Os representantes dos estados pedem, ainda, o pagamento da compensação do Governo Federal do Programa de Equalização de Óleo Diesel para a Pesca, o adiamento da temporada de pesca da lagosta, programada para abril, para o dia 1 de maio e a reativação das negociações com a União Europeia para que os embargos impostos ao setor pesqueiro brasileiro sejam finalizados. Desde 2018, a União Europeia deixou de importar pescados brasileiros, com base em auditorias que analisaram principalmente questões relacionadas ao transporte dos produtos.


De acordo com o diretor do Sindipesca, o mais urgente é que às medidas tomadas pelo Governo Federal sejam rápidas. “Precisamos de ferramentas que não tenham burocracia e venham direto para nós, caso contrário, temos uma cadeia produtiva enorme em risco, e milhares de pessoas podem ser afetadas”, afirma Calzavara.


Seguro-defeso

Mais de 1.500 trabalhadores aguardam na fila do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) para receber o seguro-defeso, benefício que tem o objetivo de garantir o sustento dos pescadores artesanais durante os períodos nos quais eles ficam impedidos de pescar para preservar as espécies de peixes.


Em resposta à uma solicitação feita pela TRIBUNA DO NORTE, a gerência do INSS Natal informou que, este ano, foram recebidas 3.171 solicitações de seguro-defeso, das quais 1.509 encontram-se pendentes de deferimento e 1.662 foram deferidas. De acordo com o órgão, das 1,5 mil análises pendentes, 542 carecem de algum documento para serem concluídas. “Os pescadores artesanais constituem um estato social muito frágil.


Em contato com a representante legal da Colônia de Pescadores de Natal, há solicitações que foram feitas ainda em dezembro de 2019, e que deveriam ter começado a ser pagas em janeiro, mas que sequer chegaram a ser analisadas. A situação reforça o cenário de dificuldades que muitos dos pescadores têm enfrentado para se manter no Rio Grande do Norte. De acordo com o INSS, o Instituto, “por meio do Serviço de Benefício do INSS/Natal, vai organizar Grupo de Trabalho, para concluir os processos pendentes, o mais rapidamente possível”.








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