Professor de hidroginástica dá aulas na Praia do Forte há 22 anos

Publicação: 2020-01-25 00:00:00
Luiz Henrique Gomes
Repórter

-Olá, Milton. Tudo bem?  Me falaram que o senhor foi um dos voluntários em Natal na limpeza do vazamento de óleo. Aceita ser entrevistado para a série de reportagens que estou escrevendo?

- Boa noite. Tenho algo muito mais inusitado. Sou o idealizador e executor do programa de ensino e orientação de hidroginástica no mar, que é o mais longevo e regular no mundo.

Foi dessa forma que Milton França, professor de educação física da rede municipal de Natal, me mostrou o entusiasmo e a crença que coloca em seus projetos. Com 54 anos de idade, Milton é um homem de estatura alta, cabelos grisalhos e com uma aparência típica de praianos: pele bronzeada, tatuagens (tem três tartarugas em estilo tribal nas pernas) e bermuda de poliéster até os joelhos. É um visionário, que olha para as praias de Natal como espaços com potencial de serem acolhidos pela vida da cidade muito além do fim de semana.

Créditos: Magnus NascimentoMilton dá aulas de hidroginástica na praia e cuida da áreaMilton dá aulas de hidroginástica na praia e cuida da área
Milton dá aulas de hidroginástica na praia e cuida da área

Em 1998, Milton criou um programa regular (sim, o mesmo citado por ele no diálogo acima) de hidroginástica no mar da Praia do Forte, zona Leste de Natal. O projeto é um marco da mudança da relação dele com a praia. Desde então, Milton passou a dedicar a vida para a preservação do ecossistema da área e melhoria do uso por parte dos frequentadores. Se tornou um ativista ambiental e decidiu virar professor municipal, tudo por um projeto originado em um 'insight'.

“Em 1996, eu era estagiário de Educação Física no [Hospital Universitário] Onofre Lopes, trabalhando com atenção à saúde através da atividade física. Quando acabou o estágio, meus pacientes lamentaram o fim e pediram para eu continuar. Eu estava na balaustrada da avenida Getúlio Vargas e de repente vi as piscinas da Praia do Forte. Foi então que eu tive a ideia”, relembra Milton, então estudante de educação física.

As primeiras turmas formadas tinham entre 20 e 30 alunos e o projeto começou a se popularizar, com convites feitos pelo próprio idealizador aos moradores do bairro de Santos Reis. Dois anos depois, contava com cerca de seis turmas, com as aulas sempre no mesmo local. Um dia, no ano de 2000, Milton percebeu que o então vice-prefeito de Natal, Carlos Eduardo, frequentemente caminhava na orla e observava o projeto.

Em 2003, quando assumiu a prefeitura, Carlos o recebeu e escutou a proposta de transformar o projeto em programa municipal para se tornar acessível a toda população. “Ele gostou da ideia, mas disse que eu precisava ter algum vínculo público. Então, fiz concurso e me tornei professor municipal e estadual em educação física”, conta Milton.

Mas os cargos públicos geraram demandas que forçaram o professor a diminuir o projeto. As turmas da hidroginástica se tornaram mais enxutas enquanto ele começava a dar aula, assumir cargos de gestão e se desdobrar no tempo disponível. Uma hora decidiu se desligar do Estado e ficar somente com o cargo de professor municipal para se dedicar mais ao projeto.

A rotina na Praia do Forte aumentou o seu respeito pela área. Com o tempo criou o hábito de fotografar arrecifes (que formam as piscinas seguras para a hidroginástica) e outros elementos ambientais e um dia percebeu a semelhança de uma rocha com as tartarugas. Deu o nome de Pedra da Tartazul à rocha e Enseada da Tartazul ao local em que dá aulas. Agora luta pelo reconhecimento da geoforma para que se torne uma atração a mais. Todas as escolas e instituições que vão ao seu projeto de hidroginástica são levadas até a pedra para tirarem fotos com ela ao fundo.

O professor também passou a estudar questões ambientais relacionadas com a área, como degradação de mangues, políticas das zonas de proteção ambiental (pertencentes ao Plano Diretor), e a fazer a limpeza voluntária de lixos que encontra na praia. No aparecimento de óleo, que atinge o litoral do Nordeste e de parte do Sudeste desde setembro do ano passado, na Praia do Forte, atuou de “sentinela” e ajudou na limpeza do material.

Enquanto caminho pela Praia do Forte com Milton na manhã desta sexta-feira (24), enxergo centenas de pequenos buracos espalhados pela areia da praia e pergunto a Milton do que se trata. São tocas de chama-maré, uma espécie de pequenos caranguejos. Também enxergo pássaros caminhando entre os buracos a procura de alimento e plásticos espalhados em algumas áreas, principalmente próximo ao mangue. Esse é o momento em que sinto de forma mais sólida que muitas vidas dependem desse ambiente para sobreviver, mas estão vulneráveis à ameaça do lixo. Sensação que Milton teve anos atrás e o levou à ação.

Créditos: Magnus NascimentoProjeto idealizado pelo professor completa 22 anos ininterruptos em 2020Projeto idealizado pelo professor completa 22 anos ininterruptos em 2020
Projeto idealizado pelo professor completa 22 anos ininterruptos em 2020

 Há alguns anos, o professor planta sementes de espécies dos mangues com o objetivo de recuperar áreas degradadas para evitar o assoreamento dos canais e criar barreiras naturais contra o lixo, que às vezes é arrastado pela maré na areia lisa até áreas mais inacessíveis. Ele também sonha com a transformação da área, que é uma Zona de Proteção Ambiental, em um parque onde moradores e turistas possam conviver em harmonia com a área, que inclui o Forte dos Reis Magos, ao mesmo tempo em que criam consciência ambiental para preservar o espaço.

“Parece que a pessoa quando abre os olhos e a mente para certas áreas, você enxerga coisas que poucas pessoas enxergam no mesmo espaço. Eu me reconheci com o tempo sendo um visionário com a alma de agente público. Eu sempre penso: como a gente pensa a área melhor com baixo custo e inclusão social e proteção ambiental?”, indaga. “O programa hidro na praia foi um elemento base que me deu a chance de crescer enquanto ser humano para realizar outros papéis e outras funções sociais.”

Com o amadurecimento do projeto de hidroginástica no mar, que este ano completa 22 anos ininterruptos, e o ativismo na área, aos poucos Milton consegue vitórias. Há dois anos e meio, conseguiu incluir práticas aquáticas na grade curricular do município e sempre é reconhecido pelos alunos, que o nomearam de “Duque da Praia do Forte”. Incansável, o professor continuará na praia enquanto puder sonhar.

O que
A TRIBUNA DO NORTE realiza  uma série de reportagens para contar a vida de pessoas que, de algum modo, estão ligados à praia – sejam trabalhadores, moradores, turistas que utilizam a praia como lazer, atletas, pesquisadores. A cada reportagem, uma história vai ser relatada, até o fim de janeiro. As publicações são feitas na edições de terça, quinta e sábado.