Programa do IMD caça alunos 'prodígios'

Publicação: 2019-06-23 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Yuno Silva
Repórter

Potencializar o aprendizado, estimular a busca pelo conhecimento e oferecer meios para promover o desenvolvimento intelectual faz parte da lista dos principais deveres de qualquer escola. Contudo, nem todas as instituições estão preparadas para atender as expectativas e oferecer um projeto pedagógico capaz de revelar o talento de seus alunos – sobretudo se eles apresentarem altas capacidades cognitivas: os conhecidos superdotados. No Rio Grande do Norte a única iniciativa educacional preparada para revelar (e lapidar) o talento de estudantes prodígios é o Programa Talento Metrópole, desenvolvido há cinco anos pelo Instituto Metrópole Digital (IMD) da Universidade Federal do RN.

Inscrições para projeto estão abertas até o próximo dia 27 de junho
Inscrições para projeto estão abertas até o próximo dia 27 de junho

O objetivo do Programa, que enfatiza a formação em Tecnologia da Informação (TI), é identificar estudantes com até 19 anos – que estejam cursando o Ensino Médio ou os três últimos anos do Ensino Fundamental 2 (7º, 8º e 9º anos) – aqueles com “inteligência, criatividade e engajamento acima da média”. 

As inscrições para se candidatar a uma vaga no Talento Metrópole estão abertas até o próximo dia 27 de junho: o processo de seleção se dá em duas etapas, e qualquer um pode concorrer. A primeira fase consiste em um teste (de avaliação de habilidades em TI, de inteligência e de criatividade), de onde saem 45 aprovados – habilitados para a etapa seguinte composta por oficinas entre outras atividades. 

A seleção é criteriosa, e não há um número mínimo definido de vagas a serem preenchidas. Mais detalhes sobre o processo de seleção podem ser obtidos no site do Instituto Metrópole Digital  (imd.ufrn.br).

As inscrições e todo o curso em si são gratuitos. O aluno que ingressar no Programa, além de contar com a assistência de uma equipe especializada e de ter acesso aos laboratórios, também poderá cursar componentes curriculares de diferentes níveis de formação, inclusive de graduação e pós-graduação.

“O Brasil é um país que desperdiça seus talentos. Apesar de haver leis para garantir a oferta de programas especializados, as instituições de ensino – na maioria das vezes – não estão preparadas e se tornam desinteressantes para esse público que requer necessidades educacionais especiais. O ensino tradicional ignora o papel ativo do aluno no processo de aprendizagem, homogeniza interesses e percursos ao cercear a criatividade e as rotas alternativas de construção de conhecimento”, avaliou a professora Izabel Hazin, da área de Psicologia, que coordena o Programa e está envolvida com o IMD/UFRN desde o início em 2009. O Programa, de acordo com Izabel, “contempla os interesses do aluno considerando seu potencial e talento, rompendo com a hierarquia e rigidez do ensino tradicional”. A professora concedeu a seguinte entrevista à TRIBUNA DO NORTE:

Como surgiu o Programa Talento Metrópole?
A partir da constatação dessa lacuna que existe na rede de ensino (público e privada) para atender estudantes que apresentam inteligência, criatividade e engajamento acima da média. A proposta do Instituto Metrópole Digital/UFRN é oferecer formação de qualidade para esse público. Na verdade, o IMD foi pensado, em sua origem, para (também) contemplar as altas habilidades – sou da Psicologia, tenho pesquisa nessa área, por isso fui convidada para assumir a coordenação.

A senhora disse que a iniciativa cumpre duas funções: quais são elas?
O Talento Metrópole surgiu para dar contas de duas coisas: tirar do papel a lei (que garante a oferta de programas especializados) e oferecer um programa educacional voltado para esse público; e a segunda questão é contribuir para o objetivo maior do IMD, que é transformar o RN em um pólo de tecnologia. A formação dessas turmas foi a maneira que encontramos para ampliar o viés de inclusão social do Programa a iniciativa. Estamos indo para a quinta turma, e não há um número fechado de aprovados: já admitimos novas turmas com cinco, três e até dois selecionados.

Quando um estudante é considerado superdotado?
Essa é uma questão delicada. Primeiro temos de compreender que a área das altas habilidades é bem plural no tocante às descrições e caracterizações: não existe uma unanimidade, temos diversas nomenclaturas e muitos mitos – um desses mitos diz que aluno superdotado é aquele vai bem na escola. Isso não é verdade! O ensino tradicional não combina com o perfil de funcionamento cognitivo dos adolescentes desse grupo, que muitas vezes se sente desmotivado diante da inadequação da metodologia. Muitas vezes esses estudantes são diagnosticados com déficit de atenção, e quando vamos ver é alguém superdotado.

Mas não basta ser acima da média, tem de ter talento?
Nossa avaliação segue critérios bem definidos, embasados nos três anéis que caracterizam uma pessoa com altas habilidades: inteligência e criatividade acima da média, e um envolvimento com a tarefa (motivação) muito acima da média. Isso é o perfil. Talento é o desenvolvimento desse perfil para alguma área específica, e aqui buscamos trabalhar essas altas habilidades direcionada para TI.

Alunos com 12, 13 anos que participam do Programa assistem aulas em turmas de graduação e até de pós-graduação. Como isso funciona?
Nossos alunos têm bastante flexibilidade dentro do Programa, são matriculados na UFRN como qualquer outra pessoa, e se o tutor que faz o acompanhamento dos projetos individuais achar interessante determinada disciplina há essa indicação. Mas antes do aluno começar a frequentar as aulas, temos que preparar o terreno: conversamos com a turma e com os professores, explicamos o que é o Programa, como funciona e o perfil do público. Essas experiências são boas por desenvolverem habilidades sociais, área que possui certa fragilidade dentro das altas habilidades. Também promovemos oficinas na Escola de Música, em Design, no Instituto do Cérebro, fazemos viagens de campo para visitas técnicas. A proposta é expandir, por isso no currículo temos contato com literatura, música, cinema.

E quais as áreas e/ou núcleos desenvolvidos pelo Programa?
Temos dois núcleos estruturados de atuação: inteligência artificial e pensamento computacional; e realidade virtual. Mas em breve teremos também núcleos de bioinformática, e de internet das coisas. Para cada núcleo temos tutores, e atualmente temos entre 10 e 12 alunos participando assiduamente – cada um tem seu tempo, outros já estão levantando novos vôos. Não há um período definido para a participação no Programa, trabalhamos com projetos e muitos alunos acabam ingressando na graduação aqui mesmo no IMD/UFRN e se tornando tutores dos novos selecionados.

Que projetos estão sendo desenvolvidos atualmente?
Já desenvolvemos uma bateria eletrônica virtual para ajudar na reabilitação de pacientes que sofreram AVC; já fizemos projetos para o Museu Câmara Cascudo utilizando hologramas; e outras coisas menores. Mas o projeto de realidade virtual no tratamento oncológico infantil é o maior deles, já estamos trabalhando nele há dois anos. O projeto consiste em criar um ambiente virtual, um jogo, para ajudar crianças a superarem a ansiedade em períodos pré-operatórios, como a punção (introdução) do cateter de quimioterapia por exemplo.

Quem são os parceiros do Talento Metrópole?
O IFRN de Pau dos Ferros, que possui o curso técnico integrado em Informática e tem se destacado com projetos na área de robótica – estamos indo para a terceira turma por lá. Nossa oferta maior vem dos IFs, onde já há um filtro e um direcionamento que casa com o perfil do Programa. Este ano também fechamos parceria com a Campus Party (CP), que irá proporcionar a admissão de alunos de baixa renda que já participam de iniciativas da CP – daqui para o final do ano vamos fazer a primeira seleção fora do RN, em Lauro de Freitas (BA), e os alunos ficarão alojados na Escola Agrícola da UFRN em Jundiaí.

O contingenciamento imposto pelo Ministério da Educação pode afetar o Programa?
Todo corte ou contingenciamento influencia no funcionamento da universidade como um todo, e uma das grandes críticas feitas a esse corte é a linearidade: não há nenhum critério. Cerca de 30% das pesquisas serão inviabilizadas, mas os impactos se dão de formas diferentes. A UFRN foi eleita a terceira instituição federal de ensino superior do Brasil com a melhor governança; estamos sem fazer missões científicas há um tempo, não conseguimos oferecer as oficinas de robótica como antes, não temos mais os materiais utilizados pela primeiras turmas, mas estamos aqui resistindo, reinventando novas estratégias para o programa não parar.

Educação é a única maneira de proporcionar a transformação social?
Não diria a única, mas certamente é a melhor. A educação é capaz de gerar transformações profundas, de geração para geração, e não estou falando só em questões econômicas imediatistas e sim de transformação da cultura de um país. Temos vários exemplos no mundo de países que se reinventaram, sempre através da educação, e acredito que essa mudança só é feita com educação. Por isso defendo a interiorização da universidade pública e dos institutos técnicos federais para superar a falta de perspectiva.

Personagens
Eduardo Sarmento, 19 anos
Eduardo Sarmento, 19 anos
Eduardo participa do Programa Talento Metrópole desde 2017. Ele estava concluindo o curso de Informática no IFRN de Pau dos Ferros, e atualmente é aluno do curso de bacharelado em Tecnologia da Informação (BTI). “Quando fecharam parceria com o IF de Pau dos Ferros, nunca tinha ouvido falar no Programa. Mas vi que era na área de tecnologia, que tenho muito interesse, fiz a inscrição e fui selecionado. Como estava no fim do Ensino Médio, só comecei a me envolver de fato quando já estava cursando o BTI”, lembrou. Eduardo participa do núcleo de realidade virtual, que desenvolve o jogo para pacientes oncológicos infantis, e seu projeto individual é criar um sistema para auxiliar na preparação de atores. “Acredito que a imersão proporcionada pela realidade virtual possa ajudar em alguma coisa. Sinto que aqui estou participando de algo realmente importante”.

Deborah Dantas, 17 anos
Deborah Dantas, 17 anos
“Ainda sou meio um camaleão da tecnologia”, arriscou Deborah ao ser questionada sobre a área que mais se identifica. Ela terminou o Ensino Médio em escola da rede privada de ensino, e no Programa desenvolve projeto individual na área de holografia: “Estou trabalhando em parceria com o Instituto de Neurociências da UFRN em um projeto de holografia que ajuda pássaros a cantar”. Membro do Programa Talento Metrópole há três anos, e ela também está cursando o bacharelado em TI no IMD/UFRN. “A diferença da metodologia entre o Talento Metrópole e uma escola comum, é que aqui trabalhamos o potencial no que temos maior aptidão e interesse. Manter o estímulo em alta é um dos fatores mais importantes para alunos com altas habilidades”, acredita.

João Pedro Estevam, 18 anos
João Pedro Estevam, 18 anos
Ingressou no Programa Talento Metrópole no início de 2019, mas contou que já estava engajado com a proposta no IFRN de Pau dos Ferros. “Este ano entrei em BTI, e comecei a trabalhar com os projetos como esse de realidade virtual em oncologia. Ainda não estou em nenhum projeto individual. Me identifico com as áreas de inteligência artificial e de ciência de dados, mas quando comecei a trabalhar com jogos, criando personagens e ambientações, gostei bastante. A ideia de proporcionar sensações e estímulos nas pessoas talvez é bem interessante e é possível que migre para essa área. Para mim, a palavra que resume o Programa é 'engajamento': aqui encontrei engajamento e estímulo para criar e aprender a lidar com ferramentas novas”.






continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários