Projeto do LABNutrir/UFRN, premiado pela ONU, desenvolve hortas pedagógicas em escolas do RN

Publicação: 2019-09-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Mariana Ceci
Repórter

Apesar de muitos alunos da Escola Municipal Pedro Costa, do município de Maxaranguape, 54 km distante de Natal, serem filhos de agricultores, comer o que era plantado em casa não era algo que fazia parte do dia a dia das crianças até um passado recente. Há cinco meses, no entanto, essa realidade mudou: graças a uma horta instalada na escola, cuidada pelos próprios alunos e professores, os alunos transformaram sua relação com a comida, a escola e o ambiente - e estão levando os novos hábitos para dentro de casa.

A Escola Pedro Costa é uma das sete que  foram atendida pelo LABNutrir, laboratório da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) premiado pela Organização das Nações Unidas (ONU), que está inserindo hortas pedagógicas nas escolas do Estado, e cujos resultados gerados nas escolas atendidas mostra que, em meio a discussões sobre o aumento do uso de agrotóxicos, uma alimentação mais saudável e sustentável é possível.
Escola Municipal Pedro Costa, em Maxaranguape, tem horta integrada à rotina dos estudantes
Escola Municipal Pedro Costa, em Maxaranguape, tem horta integrada à rotina dos estudantes

Em Maxaranguape, duas escolas participam do projeto: a Escola Municipal Pedro Costa, na zona rural, e a Creche Aprender em Boas Mãos. A nutricionista e coordenadora do Núcleo Ampliado a Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB) no município, Carla Daniela do Nascimento, conta que a horta foi integrada à rotina escolar, e os professores de diversas disciplinas passaram a integrar os conhecimentos adquiridos na horta às matérias.

"Têm alunos que já estão querendo reproduzir a horta em suas casas. Essa escola é na zona rural, mas eles mal comiam o que produziam. Eu via que muitos dos alimentos, quando não estavam aceitáveis para compra e venda, eram jogados para os animais, havia uma cultura de que o que vinha do mercado era melhor. Estamos tentando, com a horta, mostrar que podemos comer o que produzimos, e que isso pode ser bom para a saúde", afirma a nutricionista.

O trabalho, de acordo com ela, já mostra resultados: “Os pais começaram a mudar os hábitos por causa das crianças, e isso é muito gratificante para nós. Quando o grupo do LABNutrir foi lá pela primeira vez, na hora que fomos preparar o solo para a horta, achamos muito lixo no quintal da escola. Hoje, depois da horta, melhorou até mesmo a condição do quintal, o cuidado que se tem com a escola", diz Carla.

Outra escola beneficiada com a horta pedagógica foi a Escola Estadual Elia de Barros, no município de São Gonçalo do Amarante. A professora de geografia Hosana Silva conta que a escola conheceu o LABNutrir a partir de uma reportagem feita pela TRIBUNA DO NORTE, e entraram em contato para pedir ajuda para começar uma horta na escola. "Aquele espaço era ocioso, não tinha nenhuma utilidade. Hoje, ele se transformou em um local de aprendizagem, onde trocamos conhecimento com alegria", conta a professora.

Depois da criação da horta, a escola instalou também uma composteira e um banco de sementes. “É interessante porque essa história de adoção do espaço é pura geografia. Eles se apropriaram do espaço, consideram deles mesmo. Passaram a se enxergar como parte ativa da escola”, afirma.

O LABNutrir é coordenado pelos professores Thiago Perez e Michelle Jacob, do departamento de nutrição da Universidade. Além deles, participam também os professores Adriana Monteiro, do departamento de ecologia, Ermelinda Mota e Gualter Guenther, ambos da Escola Agrícola de Jundiaí, assim como também alunos voluntários.
Michelle Jacob, do Departamento de Nutrição da UFRN, é uma das coordenadoras do projeto
Michelle Jacob, do Departamento de Nutrição da UFRN, é uma das coordenadoras do projeto

Além de ajudar na implementação da horta das escolas, oferecendo a capacitação e o acompanhamento para os professores e alunos, incentiva o cultivo de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCS), abrindo um leque de possibilidades desconhecido por muitos brasileiros.

“As dietas sustentáveis têm que ser diversas, e ter como base produtos locais”, explica a professora Michelle Jacob. Alcançar a biodiversidade, no entanto, ainda é um desafio, principalmente diante da quantidade de plantas comestíveis que, por não estarem presentes em supermercados, não são conhecidas pela população.

“A nossa dieta não tem representatividade, por exemplo, das plantas que temos no bioma da Caatinga. A dieta de Natal pode ser muito parecida com a dieta de Uberlândia, e a dieta de uma grande metrópole, como São Paulo, pode ser muito similar a de Toronto, no Canadá. Uma dieta verdadeiramente biodiversa deveria refletir a paisagem do local”, diz Michelle.

De acordo com a professora Adriana Monteiro, um dos principais desafios do projeto é garantir que os alunos, professores e funcionários reconheçam como deles o espaço da horta, e realmente adotem os canteiros, que precisam de cuidados diários. “Nós vemos que uma das principais dificuldades é quando chegam as férias, por exemplo. A dinâmica de integração do espaço, assim como a sensação de pertencimento é algo fundamental para que o projeto dê certo”, explica.

Em Natal, escola municipal inicia o projeto de horta

Quando os alunos do 2º ano do ensino fundamental da Escola Municipal Tereza Satsqui se mobilizaram para reivindicar uma nova mangueira para que pudessem regar as plantas da escola, a reação inicial da professora Kelly Karinna Ramos foi de surpresa. "Não imaginávamos que iniciar uma horta fosse criar neles um senso tão grande de cuidado e respeito com o meio ambiente e a escola. Hoje, eles querem aguar até mesmo as plantas que não estão na horta", conta a professora.

A implementação da horta na escola foi uma iniciativa da turma, que deu início ao processo de forma independente, a partir da compostagem e da preparação do solo. “Nós começamos a observar a quantidade de resíduo orgânico que ficava da merenda e ia para o lixo. A partir dessa problemática, os meninos quiseram saber o que poderíamos fazer para que esse resíduo fosse distribuído na escola”, conta.

A escola, recém-inaugurada e reformada, tem uma área projetada para o plantio mas, antes da iniciativa, ela ainda não estava sendo utilizada. “Apesar do projeto ter sido implementado pelo 2º ano, toda a escola passou a se envolver. Os alunos das outras turmas, quando veem alguma casca de alimento, já sabem que podemos colocar na composteira. Mudou muito a relação dos alunos com o resíduo, com o espaço”, relata Rosimar Tereza, diretora da escola.

Enquanto plantam, os alunos aprendem sobre o processo de compostagem, como funciona e para que é feito. Além disso, passam a compreender as diferentes necessidades de cada tipo de planta. “A melancia a gente sabe que espalha rama muito rápido, então precisa de um espaço maior, sabe?”, explica Angelina Bezerra, de 8 anos.

Os alunos explicaram passo a passo, à equipe de reportagem, o processo de cultivo dos alimentos, desde o recolhimento do lixo ao processo de compostagem e diluição do chorume. “Tem que diluir com dez vezes a quantidade de água”, diz David Gonçalves, de 8 anos. Eles aguardam para experimentar os primeiros alimentos plantados por eles. “É claro que o gosto vai ser diferente. Além de a gente ter plantado, não tem veneno, faz bem”, diz Maria Cecília, de 8 anos.



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