Projeto em Saúde Mental promove socialização de pacientes

Publicação: 2019-12-03 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Michelle Ferret
repórter 

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), atualmente 23 milhões de brasileiros, ou seja, 12% da população tem algum tipo de transtorno mental. São cinco milhões de pessoas com transtornos mentais graves e persistentes e 75 a 85% não tem o tratamento adequado.

Grupo confraternizou na tarde desta segunda-feira na Praia do Meio, sendo uma forma de socialização dos pacientes do projeto com familiares e integrantes de apoio
Grupo confraternizou na tarde desta segunda-feira na Praia do Meio, sendo uma forma de socialização dos pacientes do projeto com familiares e integrantes de apoio

O movimento da Reforma Psiquiátrica com a aprovação da Lei 10.216/2001, nomeada “Lei Paulo Delgado”, foi um marco no tratamento de pessoas com transtornos mentais. Através da lei, é estabelecido ao Estado o desenvolvimento de políticas de saúde mental no Brasil, através do fechamento de hospitais psiquiátricos, novas propostas de tratamento, serviços comunitários, participação social e a garantia dos direitos das pessoas com transtornos mentais.

Mesmo com todo o movimento anti manicomial, este ano, o Ministério da Saúde elaborou uma nota técnica Nº 11/2019, em que esclarecia sobre a mudança na Política Nacional de Saúde Mental e nas Diretrizes da Política Nacional sobre Drogas, que incluía a compra de aparelho de Eletroconvulsoterapia, mais conhecido como aparelho de eletrochoque (que consiste na passagem de uma corrente elétrica de alta voltagem sobre a região temporal, a fim de provocar dessincronização traumática da atividade cerebral do paciente com contrações clônicas e perda da consciência. Era utilizado como terapia em casos de problemas mentais graves).

O projeto Viva segue na contramão do choque e da dor. Ele acolhe, faz viver.  Ao perceber o aumento do número de pessoas com transtornos mentais graves, a psicóloga Aparecida França criou o grupo em 2013, como projeto de extensão dentro do curso de psicologia da Universidade Potiguar. A proposta é unir psicoterapia individual e o acompanhamento terapêutico, às visitas domiciliares e aos passeios coletivos para socialização dos pacientes. Hoje são trinta pessoas, entre pacientes e familiares, além de uma equipe formada por professores de psicologia e estudantes estagiários. E o projeto foi além da sala de aula e das paredes de instituições. Ele atravessou o preconceito  e foi até as apresentações mensais da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte, aos museus, ruas, teatros e nas praias. Como ontem a tarde, quando houve o encerramento do ano com usuários, familiares e a equipe de psicólogos e estagiários.

O encontro aconteceu na Praia do Meio, na areia, com uma roda franca de conversa sobre a importância de um acolhimento humanizado para a doença mental.

“Minha vida mudou”
Katiane Cláudia sabe bem o que é isso aos 25 anos. Ela descobriu a doença aos 16, após um surto psicótico e foi internada no hospital Colônia João Machado. “Foi um sofrimento muito grande. A crise demorou muito a passar e lembro dos momentos de ficar presa num hospital sem entender direito o que estava acontecendo”, lembra Katiane. Desse tempo ela só guarda o aprendizado. Há oito anos no grupo Viva, sua história se transformou e ela se tornou Youtuber e é responsável pelo canal “Katplayer”, que fala sobre sua transformação. “Quis falar sobre o que acontecia comigo, sobre o transtorno e principalmente sobre o que eu sinto. É fundamental para destravar a mente, conectar com as pessoas e aliviar a cabeça”, diz a youtuber.

Katiane Claudia, 25, há oito no grupo, atualmente é Youtuber e fala sobre sua condição: É fundamental para destravar a mente
Katiane Claudia, 25, há oito no grupo, atualmente é Youtuber e fala sobre sua condição: 'É fundamental para destravar a mente'

Com pouca representação na internet, Katiane gosta de assistir Felipe Neto e o Rato Borrachudo e acredita na socialização como forma de cura. Sua mãe, Cleonie Cláudia, 49 anos, lembra que no início foi muito difícil porque se sentia sozinha para enfrentar a descoberta da doença na filha. “Hoje somos outras pessoas. Pude perceber que minha filha é como qualquer outra menina que tem sonhos, que pode viver normalmente e feliz. Existe um estigma da doença mental que a pessoa deve ser trancada em casa”, acredita.

Prova disso é a prova do Enem que Katiane prestou com o desejo de entrar para o curso de administração. “O grupo é tão acolhedor, que a partir das conversas e da socialização, percebemos que era possível até entrar em uma universidade. O que era impensável antes”, lembra a mãe de Katiane.

Ao ouvir os depoimentos, a psicóloga Aparecida França se emociona e reafirma a importância de um tratamento humanizado e acolhedor para pacientes com transtorno mental grave. “A mudança é visível e acontece gradativamente. A maior parte dos pacientes que temos apresentam quadro de esquizofrenia. O fundamental é associar o uso de medicamentos com a socialização dos pacientes”, afirma a psicóloga.

Mudança
Uma das propostas do grupo é evitar a hospitalização dos pacientes. Para a concluinte em psicologia Fabiana Cunha que se despede do grupo neste semestre, a luta manicomial acontece no dia-a-dia, no encontro da família, da terapia e da socialização dos pacientes. “Somos um espaço de escuta, de acompanhamento psicológico e principalmente da criação de um laço social. Temos o suporte para evitar uma hospitalização prolongada, para que o paciente viva de maneira mais saudável possível”, disse a futura psicóloga.

O aposentado Eduardo Pinheiro, pai de Edjane de 48 anos,  lembra da mudança de vida de sua filha desde que conheceu o projeto. Aos 13 anos, ela sofreu sua primeira crise psicótica, quando foi descoberta a esquizofrenia. “Ela estava sempre hospitalizada. Chegava a passar um ano inteiro internada e isso mexia demais com a família. Uma dor sem fim. Depois de conhecer o projeto nossa vida mudou”, disse Eduardo. Faz três anos que Edjane não entra em um hospital psiquiátrico e hoje ela consegue interagir com as pessoas, passear e ter uma estabilidade emocional. Assim como ele, Jussara Leandro, 42 anos nunca teve apoio de ninguém para cuidar do seu filho Cícero Augusto de 21 anos. Faz pouco tempo que eles freqüentam o Viva e já notam a diferença em sua vida e o convívio do filho com as pessoas. “Ele tem autismo desde muito pequeno e hoje vinte anos depois consigo entender o processo que vivemos e não me sinto sozinha”.

A artista plástica Katiane Galvão, 41 anos, acredita na arte como transformação. Tendo como referência a psiquiatra Nise da Silveira, ela consegue compreender seu processo mental se sentir acolhida. “Já fiquei internada por muito tempo em hospitais psiquiátricos. A arte terapia me salvou e hoje minha preocupação é com as pessoas que continuam amarradas nas camas de hospitais sem ter como sair e ver o mundo com eu vejo agora”, reflete Katiane e retorna para o circulo de conversa na praia, quando é possível olhar no olho do outro e compreender que a loucura pode ser apenas um ponto de vista.

continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários