Projeto leva música à UTI Neonatal e alívio para a dor de bebês prematuros

Publicação: 2020-01-19 00:00:00
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Mariana Ceci
Repórter

Os sons de uma UTI Neonatal são metálicos e ritmados. Apesar das placas que pedem “silêncio” espalhadas pelas paredes, são dezenas de aparelhos que, ao lado de cada um dos leitos, medem os batimentos cardíacos e informam aos médicos e enfermeiros a cada instante sobre o estado de saúde dos bebês, em sua maioria prematuros ou aguardando procedimentos cirúrgicos. Na última sexta-feira (17), no entanto, os sons da UTI Neonatal da Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC), em Natal, foram substituídos, ao menos por alguns minutos, por outro tipo de som: a música. E essa não é a primeira vez.
Créditos: Alex RégisProjeto Música por um sorriso já fez quatro apresentações na Maternidade, aliviando o estresse, principalmente, para bebês e suas mãesProjeto Música por um sorriso já fez quatro apresentações na Maternidade, aliviando o estresse, principalmente, para bebês e suas mães
Projeto Música por um sorriso já fez quatro apresentações na Maternidade, aliviando o estresse, principalmente, para bebês e suas mães

Há cerca de um ano, alunos da  escola de música Jaime Lourenço Academia de Belas Artes, que se reuniam semanalmente para os ensaios coletivos complementares às aulas individuais, decidiram levar às lições para além da sala de aula. “Nós fazíamos pequenas simulações, em grupo, como se fosse uma pequena orquestra de câmara”, explica o professor de violino e diretor da escola, Jaime Lourenço. O termo, originado no período barroco, faz referência a um pequeno grupo de músicos que se reúne para fazer música em locais pequenos, as "câmaras".

Vendo que os filhos ensaiavam semanalmente, a provocação de levar as apresentações para locais além da sala de aula veio dos próprios pais. Assim, a escola começou a organizar apresentações em clínicas de apoio para dependentes químicos, hospitais e centros de atendimento para pacientes renais. Foi dessa forma que surgiu o projeto “Música por um sorriso”, que já realizou quatro apresentações na Maternidade.

Se, para as crianças, o projeto deu uma oportunidade de se apresentar para diversos públicos e praticar as habilidades, para os pacientes, especialmente os bebês, a música representa uma pausa nos bipes incessantes e, principalmente, um alívio para a dor.

Pelo fato da audição ser uma das primeiras funções a se desenvolverem em um bebê dentro do útero, a sonoridade é um motivo de estresse para a maior parte dos bebês prematuros. Estudos apontam que um dos principais problemas da UTI Neonatal é o fato do ambiente ser superestimulante, com altos níveis sonoros que acabam comprometendo o desenvolvimento e a recuperação dos recém-nascidos.

É aí que entra a música que, quando tocada com suavidade, acalma os batimentos cardíacos dos bebês e os distrai da dor. “A musicoterapia ajuda no neurodesenvolvimento dessas crianças, e também a amenizar a dor. Há estudos que comprovam que, muitas vezes, deixar o ambiente mais escuro e com uma música suave ajuda a relaxar as crianças”, afirma a médica neonatal Fernanda Araújo.
Créditos: Alex RégisClara Bezerra, 11 anos, estuda violino há quatro anos e diz que a MEJC é o lugar favorito para tocarClara Bezerra, 11 anos, estuda violino há quatro anos e diz que a MEJC é o lugar favorito para tocar
Clara Bezerra, 11 anos, estuda violino há quatro anos e diz que a MEJC é o lugar favorito para tocar

O alívio vem principalmente a partir da liberação da endorfina, hormônio do "bem estar", que aumenta a resistência, melhora a disposição física e mental e funciona como um analgésico natural. “Esses bebês passaram por inúmeros procedimentos cirúrgicos e invasivos, como acessos. A música ajuda a melhorar isso”, completa a médica.

Mudança de humor

A mudança no humor dos bebês ao ouvirem as músicas é visível. No espaço onde está localizado o projeto Mãe Canguru, onde os recém-nascidos de baixo peso ficam internados junto com suas mães até ganharem o peso necessário, nenhum dos bebês, que horas antes choravam agitados, gritou ou chorou durante a apresentação feita pelo professor Jaime Lourenço e sua aluna Clara Bezerra, de 11 anos.

A melhora não é sentida apenas pelos pacientes, mas também pelos familiares e profissionais que, diariamente, se deparam com casos delicados. “É um ambiente muito estressante. Muitas vezes ficamos aqui com pacientes que estão entre a vida e a morte. A música relaxa, ajuda a desestressar”, relata a enfermeira obstétrica Érica Freire.

De acordo com ela, quando o recém-nascido ainda precisa ganhar muito peso para poder receber alta, a estadia dos pacientes acaba se estendendo e, consequentemente, muitas das mães acabam passando um longo período no hospital.

Em casos de bebês que nascem com 600 gramas, por exemplo, o tempo de permanência costuma ser de dois a três meses. “Elas acabam se sentindo um pouco enclausuradas aqui dentro, dia e noite nessa batalha com o filho. É muito pesado para elas, tanto física como psicologicamente, e nós sabemos que o tratamento não se resume a medicamentos”, completa Érica. 

Néli Miguel da Silva, de 35 anos, conta que sentiu um alívio instantâneo ao ver que, durante a apresentação musical, a filha se acalmou. “Quando a alimentação veio, ela estava muito agitada, chorando muito, porque ainda é difícil para ela se alimentar. Mas ela passou a apresentação toda em silêncio, respirando calma”, relata. Sua filha, Maria Victória, nasceu aos 7 meses de gestação, e precisa ganhar peso para receber alta da Maternidade.

Para Clara, que há quatro anos estuda o violino, as apresentações se tornaram mais importantes do que os concertos de fim de ano. “Eu não sei dizer exatamente o porquê, mas eu sinto que é algo importante, algo que precisamos fazer”, diz Clara. De acordo com ela, a Maternidade se tornou o seu lugar favorito de se apresentar. “Acho que por ser um dos primeiros em que viemos. Os bebês ficam tão calmos quando tocamos, que a gente esquece o nervosismo”, completa.

Desde que nasceu, há um ano e dois meses, a vida de João Hélio se resume às quatro paredes da UTI Neonatal 2 da Maternidade Januário Cicco. Ele nasceu com apenas cinco meses de gestação, e ainda depende de ganho de peso e oxigênio para se desenvolver plenamente.

Deitado em sua cama com o seu “polvo”, outro projeto do hospital que distribui pequenos polvos de crochê nos leitos dos bebês para distraí-los, impedindo que arranquem acessos e tubos, o olhar da criança procurava por todos os lados de onde vinha o som diferente que escutou quando Clara e Jaime entraram na sala com seus violinos.

O som que João Hélio ouviu  com mais frequência desde o dia em que nasceu foi o do bipe das máquinas que medem seus batimentos cardíacos, assim como as dos demais bebês com quem divide a sala de UTI. Por isso, ao ouvir a melodia diferente, seus olhos procuravam por todos os lados sua origem.

Com a ajuda da médica, Hélio, como é conhecido na UTI, ficou sentado. Seu olhar ia de um violino para o outro e, quando a dupla chegou ao seu leito, nem mesmo os tubos e fios impediram que ele começasse a balançar discretamente a cabeça e os braços, em seu próprio ritmo: estava dançando.