Protesto em altar russo

Publicação: 2012-09-05 00:00:00 | Comentários: 0
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É bom saber - SARA VASCONCELOS - sara@tribunadonorte.com.br

Um vídeo postado no YouTube, de apenas 1m53s, foi o suficiente  para que três feministas se tornassem o pivô de uma nova crise política na Rússia. Tudo começou quando quatro jovens resolveram entrar na Catedral do Cristo Salvador, em Moscou, em 21 de fevereiro deste ano e fazer uma performance. Elas fazem parte do Pussy Riot, uma banda russa de punk rock feminista.

Vestindo balaclavas (tipo de gorros usados pela Ku klux klan) coloridas, as meninas debocham do ritual religioso e dançam no altar ao som da música "Mother of God, Put Putin Away" ("Mãe de Deus, mande Putin embora"). Segundos depois, os seguranças do prédio expulsam o grupo.

O que deveria ser apenas mais uma das muitas manifestação contra o então premiê russo Vladimir Putin, reeleito presidente em 4 de março, acabou tendo outro desdobramento devido o local escolhido.

A catedral do Cristo Salvador, em Moscou, é palco das principais solenidades religiosas do país. Em 1933, a igreja foi dinamitada pelos comunistas, contrários à fé religiosa. Nos anos 1990, após o fim do regime soviético, o prédio foi reconstruído. Desde então, tornou-se um marco do renascimento da ortodoxia russa, doutrina seguida por 70% da população.

Atualmente, a Igreja Ortodoxa é um dos mais importantes setores da sociedade russa que apoiam Putin, tendo alguns de seus membros no alto escalão do Estado. Por isso, o governo reagiu com rapidez e, segundo os críticos, autoritarismo.

Maria Alyokhina, 24 anos, e Nadezhda Tolokonnikova, 22 anos, duas integrantes da banda, foram presas sem direito à fiança, após o vídeo ser divulgado no YouTube, no dia 3 de março. Em 16 de março, uma terceira acusada, Yekaterina Samutsevich, 30 anos, também foi detida.

Pesou contra as três participantes da Pussy Riot a acusação de vandalismo motivado por ódio religioso o que na Rússia é considerado crime com condenação de até sete anos de prisão. Em defesa das jovens, alegaram que o protesto foi político, uma vez que buscava criticar o suporte dado pela Igreja ao presidente e, desta forma, não havia fundamentação religiosa. Contudo, a alegação não surtiu efeito.

O julgamento das jovens do Pussy Riot chamou a atenção da imprensa ocidental, que se colocou favorável às rés. O caso foi comparado com os julgamentos sumários da era soviética, em que o governo perseguia opositores. Para ONGs de direitos humanos como a Anistia Internacional, as três são presas políticas.

Até a Igreja Ortodoxa, que considerou o ato uma blasfêmia, pediu clemência às autoridades russas.

Contudo, o apelo e pressão imposto por estas entidades não surtiu qualquer efeito. No último 17 de agosto, as mulheres foram condenadas a sentenças de dois anos de prisão em regime fechado. O anúncio provocou uma onda de reações contrárias ao governo russo que envolveu desde líderes mundiais até ídolos pop como Madonna, Sting e Paul McCartney.

Ministros da Alemanha e Suécia e autoridades da União Europeia e dos Estados Unidos consideraram a sentença desproporcional ao delito cometido e uma ameaça à liberdade de expressão. De acordo com especialistas, por atentar contra a ordem pública as acusadas deveriam receber, no máximo, multas.

Saiba mais

- Três russas da banda punk Pussy Riot foram condenadas a dois anos de prisão por crimes de vandalismo e ódio religioso. O julgamento gerou manifestações no mundo contra o autoritarismo do presidente Vladimir Putin, acusado de perseguir opositores políticos.

- Em 21 de fevereiro, a banda fez uma performance na Catedral do Cristo Salvador, em Moscou, em protesto contra o apoio da Igreja Ortodoxa ao governo. Após o vídeo ser divulgado no YouTube, no dia 3 de março, três integrantes do grupo foram presas: Maria Alyokhina, 24 anos, Nadezhda Tolokonnikova, 22 anos e Yekaterina Samutsevitch, 30 anos.

- ONGs de direitos humanos como a Anistia Internacional consideraram as garotas como presas políticas. O caso abalou também a credibilidade da Justiça na Rússia.

- No poder há 12 anos, Putin enfrentou protestos no final de 2011 e, mesmo assim, conseguiu se reeleger. Uma recente pesquisa apontou que 44% dos russos se sentiram ofendidos com a invasão da catedral e apoiavam o julgamento, contra 17% que discordavam.

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