Protesto pela educação leva milhares de pessoas às ruas de Natal

Publicação: 2019-05-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

As manifestações contra o corte de verba destinada à educação, anunciado pelo Governo Federal no fim de abril, levaram milhares de pessoas à principal avenida de Natal na tarde desta quarta-feira, 15. A participação massiva foi de estudantes e professores de instituições públicas e entidades ligadas à educação. O ex-presidenciável Guilherme Boulos, do PSOL, estava na cidade e também participou. Considerado pelos organizadores um dos maiores atos desde junho de 2013, a manifestação começou às 16h30 no cruzamento das avenidas Bernardo Vieira e Salgado Filho e seguiu até o Natal Shopping, em Candelária, onde se encerrou às 19h30.

Em manifestação pacífica, estudantes levaram em cartazes mensagens contra os cortes na verba da educação no país
Em manifestação pacífica, estudantes levaram em cartazes mensagens contra os cortes na verba da educação no país

As motivações da maioria das pessoas, manifestadas através de cartazes, músicas, palavras de ordem e intervenções nos carros de som, foram o contingenciamento dos repasses destinados às universidades federais e programas de pesquisa e as declarações polêmicas do presidente Jair Bolsonaro e do ministro da educação Abraham Weintraub, que primeiro associou o corte a atos de “balbúrdia” em três universidades e depois estendeu às demais. Em menor escala, a reforma da previdência, o movimento “Lula Livre” e críticas às mudanças no armamento também estiveram em pauta.

“Vim ao ato porque esses cortes, que foram anunciados contra universidades que faziam “balbúrdia” e estendido a todos os níveis de educação, prejudicam o futuro de todos nós, inclusive do meu filho. Ele logo vai entrar na escola e, com esses cortes, vai ter a vida afetada”, afirmou Caio Souza, presente no ato junto com o filho, de apenas um ano, e da namorada.

Durante a manifestação, os dois sentidos da BR-101 ficaram ocupados. Segundo os organizadores, aproximadamente 70 mil pessoas compareceram. A Polícia Militar e a Polícia Rodoviária Federal (PRF), que acompanharam todo trajeto, não divulgaram estimativa. Foi a primeira mobilização de massa contra o governo de Jair Bolsonaro, registrada em mais de 140 cidades do país. Mais cedo, o presidente afirmou em Dallas, no Estados Unidos, que os protestos eram feitos por “idiotas úteis”, classificados como “militantes” e “massa de manobra”. Cartazes rebateram a declaração do presidente, afirmando que estavam na rua para defender a educação.

Anderson Bezerra, mestrando em filosofia e professor secundarista, esteve presente no ato por considerar que o corte “atinge gerações” e não é justificável porque “o orçamento deste ano já estava aprovado”. “Isso me afeta, mas afeta também a sociedade porque mexe com a educação pública inteira. O impacto social que isso pode causar é um impacto de gerações. Se fosse só por mim, eu não viria, mas isso afeta a sociedade”, disse.

A maior parte do protesto foi pacífico, exceto por um acontecimento envolvendo dois jovens, um deles menor de idade, em frente à sede do PSL, partido do presidente. A sede fica localizada na avenida Salgado Filho, onde o ato aconteceu. Eles picharam o local próximo aos policiais militares e foram levados à delegacia. A mãe do adolescente estava no local e o acompanhou. A detenção dos dois dividiu o público do ato porque parte estava mais adiantado na avenida, enquanto outros decidiram esperar a situação ser resolvida.

A defesa da pesquisa nas instituições federais foi um dos pontos fortes da voz dos manifestantes
A defesa da pesquisa nas instituições federais foi um dos pontos fortes da voz dos manifestantes

A Secretaria de Segurança Pública do Estado (Sesed) considerou que a manifestação não saiu do controle e foi dentro do esperado. “O objetivo foi alcançado. Conseguimos garantir a manifestação e também a ordem pública”, resumiu o secretário de segurança, o coronel Francisco Araújo. “A única ocorrência foi os dois jovens pichando, mas a situação foi resolvida inclusive com a presença da mãe de um deles, que era de menor”.

Segundo os relatos de pessoas presentes na manifestação, a detenção dos dois jovens também iniciou um desentendimento entre membros do Movimento Brasil Livre (MBL), ligado à direita, e militantes de esquerda. Eles começaram a filmar a ação, o que foi visto como provocação por alguns. Pessoas que estavam próximas intervieram na discussão para evitar que se iniciasse uma briga entre os dois grupos. A Polícia Militar não registrou o episódio. Mais cedo, os mesmos membros, vestidos com camisas do MBL, filmaram a “aula pública” de Guilherme Boulos no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e causaram um desentendimento semelhante.

Outras mobilizações
A manifestação no final da tarde não foi isolada. Durante a manhã, estudantes do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) fecharam a avenida João Medeiros Filho, no bairro Potengi, zona Norte de Natal, para panfletar e conversar com motoristas. A movimentação foi encerrada às 11h. Outras 11 cidades do interior do estado também tiveram atos.

Aula pública teve grande participação
Longe de São Paulo, principal cidade da sua militância, o ex-presidenciável Guilherme Boulos esteve em Natal durante as manifestações desta quarta-feira, 15. Boulos participou de uma “aula pública” no campus Central do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), próximo à concentração dos protestos contra os cortes na Educação, e respondeu a declaração de Bolsonaro que chamou os manifestantes de “idiotas úteis”. “Se ele nos chama de idiotas úteis, eu digo que na presidência tem um idiota inútil”, disse.

Milhares de estudantes estiveram presentes no ginásio da instituição, onde ocorreu o evento. Ao longo de meia hora, Boulos fez críticas ao governo de Jair Bolsonaro, pediu a unificação da oposição e a criação de “um novo projeto político, que olhe para frente, que possa derrotar o atual governo”. “Nossas diferenças são menores que as diferenças com ele [Bolsonaro]. Precisamos nos unir para olhar para frente e derrotar esse governo”, afirmou.

Com ginásio do IFRN central lotado de ouvintes, Guilherme Boulos falou em união da oposição
Com ginásio do IFRN central lotado de ouvintes, Guilherme Boulos falou em união da oposição

A presença de Boulos em Natal faz parte de uma agenda de visitas às cidades nordestinas, iniciada há um mês e meio. “O nordeste é um polo de resistência. Não por acaso Bolsonaro já foi duas vezes para o Estados Unidos como presidente, mas não pisou em terras nordestinas”, afirmou. “Eu acho que a gente tem que estar aqui, é a partir do nordeste que esse governo vai ser derrotado”.

Após o encontro com os estudantes, Boulos se encontrou com o diretor da instituição, sindicalistas e imprensa. Seguiu para a manifestação ainda durante a concentração no cruzamento das avenidas Bernardo Vieira e Salgado Filho e fez referências à Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada em março do ano passado, e a Lula, o qual considera um preso político.

Ainda no IFRN, depois do discurso do ex-presidenciável, militantes do Movimento Brasil Livre (MBL) entraram em discussão com militantes de esquerda porque estavam gravando o evento. Numa das redes sociais do MBL, eles consideraram a ida de Boulos no IFRN uma “doutrinação” e o chamaram de “invasor”, em referência à militância política de Boulos no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Os organizadores do evento afirmaram que a presença do MBL “é parte da democracia” e que por isso os estudantes contrários às gravações não deveriam “cair na provocação”. A reportagem tentou entrar em contato com os membros do movimento, mas não conseguiu até a conclusão do texto.














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