Psicóloga que defende "cura gay" faz palestra em Natal

Publicação: 2017-12-07 16:26:00 | Comentários: 0
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Yuno Silva
Repórter

O 1º Ciclo de Estudos sobre Corpo Humano, Filosofia e Sociedade realiza nesta quinta-feira (7), logo mais às 19h no Hotel Maine em Natal, a conferência “O corpo humano e a identidade de gênero” com presença da psicóloga paulista Marisa Lobo e da médica especialista em bioética Janet Melo de Saboia Alves. Marisa ganhou notoriedade nacional em 2011 ao defender o tratamento de “reversão sexual” para homossexuais – método que ganhou destaque na mídia como “cura gay”. O assunto voltou à tona em setembro deste ano após o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara Federal no Distrito Federal, conceder liminar que autoriza psicólogos a oferecerem terapia de "reversão sexual" sem que sejam punidos pelo Conselho Federal de Psicologia.

A entidade já recorreu da decisão com base na resolução 01/1999 do CFP cuja norma determina que a homossexualidade “não é patologia, que não representa distúrbio ou desvio psicológico e, portanto, não cabe reorientação”.
Palestra vai acontecer no Hotel Maine
Palestra vai acontecer no Hotel Maine

“Vou palestrar sobre gênero e não sobre orientação sexual. Não fui chamada para falar de gays, o assunto é ideologia de gênero”, assegurou Marisa Lobo em entrevista à TRIBUNA DO NORTE. A psicóloga afirma ser vítima de perseguição do “ativismo ideológico político LGBT” e acrescenta que irá palestrar para “jovens inteligentes e de mentes abertas, pessoas que são a esperança do Brasil. O resto não me interessa”.

Autointitulada “psicóloga cristã”, também escritora e pesquisadora de gênero, Marisa Lobo chegou a ter sua licença profissional cassada em 2013 pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná por, segundo o próprio CRP-PR, fazer proselitismo religioso e oferecer um tipo de atendimento vedado pelas normas do Conselho Federal de Psicologia. A cassação foi suspensa por decisão judicial.

O Ciclo de Estudos é promovido pelo Instituto Filipe Camarão. Além da psicóloga, outros nomes foram cogitados pela organização do evento como o do senador Magno Malta. Eleito pelo Espírito Santo e integrante da chamada bancada evangélica, Malta figurou na lista dos possíveis convidados de “notório saber que poderiam explanar como o tema vai influir no cotidiano da sociedade”.

No entendimento dos coordenadores do Instituto, “existem visões diferentes dentro da universidade, mas só o lado com visões e teorias mais progressistas está sendo alimentado. Por isso o Ciclo vem para equilibrar o que está desequilibrado”.

Caráter engessado


O professor de Anatomia Bento Abreu, do Departamento de Morfologia do Centro de Biociências da UFRN, coordenador do projeto de extensão que chancela o 1º Ciclo de Estudos sobre Corpo Humano, Filosofia e Sociedade, informa que a proposição do evento vai de encontro a uma “demanda geral. Sempre falamos de situações que abordam o corpo humano nas aulas, situações que os alunos trazem a partir da televisão, da cultura de forma geral, e não temos nenhum tipo de conhecimento sobre isso na área. O intuito do projeto é abordar os temas de uma forma multiprofissional com conhecimento técnico científico, sem interferência de um caráter engessado ideológico”.

O professor Abreu ressalta que o “caráter engessado ideológico” trata o assunto de forma monotemática que “certas vezes desconsideram o caráter biológico para colocar somente questões culturais e de comportamento. É uma busca pela verdade e pelo entendimento, e garante a liberdade de pensamento dentro da universidade – seja para A ou para B”.

Cura contra o preconceito


A “psicóloga cristã” Marisa Lobo, que participa de palestra sobre “O corpo humano e a identidade de gênero” nesta quinta-feira (7) em Natal, dentro do 1º Ciclo de Estudos sobre Corpo Humano, Filosofia e Sociedade, disse não ter entendido a pergunta quando o repórter questionou se “debater esse tipo de assunto (ideologia de gênero) de forma messiânica, em meio ao contexto social atual polarizado e de crescente intolerância, não poderia acarretar um aumento da discriminação e da violência (física e emocional) contra homossexuais". 
Ian RassariPara o professor Alípio de Sousa, ideologia de gênero é uma expressão reacionária utilizada para estigmatizar a luta e as conquistas LGBTPara o professor Alípio de Sousa, ideologia de gênero é uma expressão reacionária utilizada para estigmatizar a luta e as conquistas LGBT

“Gênero é o que diferencia homens e mulheres, e hoje é usado como substituto do sexo. Por isso a ideologia de gênero, da qual critico, não considera o sexo de nascimento e sim que o ser humano é apenas um ser cultural, construído pelo discurso do outro. Não acredito nessa falácia”, ponderou a psicóloga.

O professor Alípio de Sousa, professor de Teoria Sociológica do Departamento de Ciências Sociais da UFRN e coordenador do Núcleo de Estudos Críticos em Subjetividades Contemporâneas e Direitos Humanos, dispara: “Ideologia de gênero é uma expressão dos reacionários e religiosos para estigmatizar a crítica dos estudos de gênero e sexo que fazemos nas universidades. Ocorre que ideologia é o que impõe a sociedade à todas as crianças e jovens, obrigando-os a seguir padrões culturais, morais e crenças religiosas como se fossem leis escritas em pedra”.

Para Alípio promover a “ideia reacionária de ‘cura de gays’ é uma tentativa de (re)patologização da homossexualidade. O século 19 não se reinstalará nas nossas sociedades, já avançamos e vamos avançar mais ainda na promoção e reconhecimento dos direitos de gays, lésbicas e trans”, sentencia. “Esse tipo de abordagem representa um atraso em conhecimento teórico-científico, e um desrespeito à dignidade LGBT. O que vemos são ecos de velhas ideias do imaginário intelectual europeu, que baseiam suas visões em concepções puramente morais”, critica o professor.

Apesar de hoje a ideia de considerar a homossexualidade uma doença soar absurda, a Organização Mundial da Saúde (OMS) só retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças em 1990. “A psicóloga fala de ‘reversão sexual’ por que parte do pressuposto que ser homossexual é algo não admissível. Pressuposto do preconceituoso. Se há homossexuais que se sentem oprimidos, não é por nada intrínseco à própria homossexualidade, mas sim pela violência do preconceito e da discriminação. Aqueles que precisam de cura são os preconceituosos”, conclui.

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