Quando a ''15'' era o grande agito

Publicação: 2018-04-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Isaac Ribeiro
Repórter

Ele se considera um homem reservado, avesso a badalações e maiores exposições. Querido pelos clientes, aparenta ser uma pessoa humilde, sem cerimônias. Casado há 50 anos, é pai de três filhos, dois homens e uma mulher, que o ajuda no restaurante. O empresário Luiz Gonzaga dos Santos, 74, proprietário do Lula Restaurante, nasceu em Lajes, a 130 Km da capital, e veio para Natal aos 20 anos, servir ao Exército. Depois, não quis mais voltar para o interior pois sabia que a vida não era fácil por lá. Corria o ano de 1966. Decidiu então procurar um emprego em Natal e foi ser garçom no restaurante Nemesio's, onde passou 21 anos.

Luiz Gonzaga dos Santos, proprietário do Lula Restaurante
Luiz Gonzaga dos Santos, proprietário do Lula Restaurante

Em 1990, abriu uma lanchonete em Potilândia, um tanto limitada no cardápio. Foi quando os antigos clientes do Nemesio's começaram a procurá-lo e pedir para que incluísse pratos como peixe, galinha, camarão e filé. A solução foi ampliar o negócio e partir para um restaurante. Como todos só o conheciam como Lula, não foi difícil escolher o nome do novo negócio. Mudou para a av. Xavier da Silveira, no bairro de Morro Branco, onde está há 18 anos.

O pai de Lula sempre morou em Nova Descoberta, bairro que, juntamente ao Morro Branco, conhece há mais de 50 anos. São muitas as lembranças que guarda dessa região, do tempo que ainda não havia nem ruas calçadas, apenas caminhos de areia e muito mato.

Sítios e trilhas
“Daqui até onde hoje é a Faculdade de Odontologia era só sítios de coqueiros. Não tinha acesso. Era só areia, não tinha casa, não tinha nada. Tinha a casa do Padre Pio e a de uma freira que ainda hoje mora lá com outras. E o resto não existia. Era Nova Descoberta velha, como se diz, que era pequena e com casas populares, como ainda hoje é. Já melhorou muita coisa, mas ainda é um bairro como as Rocas, Brasília Teimosa. E em Morro Branco, o morro derreteu! E se espalhou da BR pra cá. Onde era o Hotel Residence hoje, era um sítio, com coqueiros. E tinha uma casinha de madeira de americanos do Maine. Aí, depois surgiu o Residence e o Hotel Maine. O acesso para cá era pela BR. Entrava em frente ao Castelão, ia até o Batalhão de Engenharia e de lá pra cá era só areia. Era na caminhada, mas tinhas umas 'bicudas', uns ônibus antigos  com o motor pra frente, como é o motor de um caminhão. Essas 'bicudas' vinham até onde hoje é o supermercado Rede Mais. E não descia porque ali só era areia.”

Botecos da “15”
Onde hoje fica o Midway, aquele centro se chamava 'a 15'. Ali tinha o Bar do Tetéu, o Expedicionário José Varela, que eram bares simples. O Tetéu era pesado porque era de quenga. A madrugada era das 'primas'. Fechavam os cabarés e ia todo mundo pro Tetéu, que não fechava, era dia e noite. Daqui pra lá, todo mundo ia a pé, porque não tinha acesso. Onde hoje é o IFRN já era um projeto da Escola Técnica, mas era só muros,  não funcionava nada. Aquilo veio nascer com João Faustino, que era da área de educação. Depois veio a Escola Industrial, a ETFRN. Tinha também o Bar do Expedicionário, perto do Tetéu. Lá tinha porta mas não fechava nunca. Era o pai e o filho. Um trabalhava de dia e o outro de noite. Hoje fechou mesmo. Aliás, estão quase todos fechados. Eu era garçom em Nemésio e quando saía de lá, meia-noite, uma hora,  a gente vinha pra 15. Tudo novo... Era um agito. Aí a 'quengarada' chegava, você bebia, namorava, raparigava, jogava sinuca, fazia de tudo um pouco. Muitas vezes amanhecia lá com os garçons do Xique-Xique, que naquela época era onde hoje é o posto São Luiz.”

Políticos e artistas no restaurante
“Aqui já passou muita gente importante por aqui até hoje. Aluízio Alves não passou, mas os filhos e os sobrinhos dele sim. Aluízio Filho, Henrique passou um pouco por aqui, Garibaldi vem sempre, José Agripino algumas vezes. Mas é que essa crise política agora mexeu com muita gente. Muitos pedem por telefone hoje em dia. O governador também Robinson vem sempre aqui. De políticos de fora famosos, nem lembro quantos vieram. Figuras como Joaquim Barbosa, Sepúlveda Pertence, que agora foi até advogado de Lula. Ele ficava no hotel e ligava pra mim perguntando se tinha macaxeira. Eu providenciava e ele vinha almoçar. Também vieram muitos artistas famosos. Zé Dias, que era promotor cultural do Teatro Alberto Maranhão, trazia muita gente — Joanna, Guilherme Arantes, Ed Motta, Trio Irakitan, Alcione, Zé Lezin e tantos outros. Sempre que esse pessoal vinha a Natal, ele trazia. Joanna era doida por galinha caipira. Aí, quando ela vinha a Natal, ele trazia ela pra almoçar aqui. Eu sempre que posso apoio a cultura. Já cedi várias vezes para fazer exposições e lançamentos de livros. Sou analfabeto, sou ignorante, mas vivo na cultura. Não faço questão de ceder os salões, porque traz pessoas. Vê a casa e de repente volta qualquer dia. Quem sempre vem muito aqui é Woden Madruga. E faz uma reportagem danada quando vem.”

Driblando a crise
“O meu movimento na semana é pequeno; só tem movimento interessante aqui sexta, sábado e domingo. De segunda a quinta está muito fraco. Essa crise mexeu muito. Há três anos que vem diminuindo o movimento. Luiz Eduardo Carneiro Costa tem uma confraria, e toda sexta-feira está aqui, há 16 anos, com pessoas amigas, políticos inclusive. Peron é um que frequenta e tem a mesa dele. Eu tenho pratos regionais; galinha caipira, carneiro, na sexta-feira tem um cozido, mas sai muito peixe. Mas o regional é o carro chefe. Tem picado, moela, tripa de porco, carneiro torrado, dobradinha, feijoada... tem umas coisinhas que ninguém tem. Eu sou do interior e gosto muito disso. Todo mundo que mora aqui na cidade, normalmente tem um pé no interior. É filho de um fazendeiro, você é filho de Santa Cruz, de Macau. Eu não me considero o dono da casa. Eu sou o responsável pelas broncas, mas trabalho de garçom quando é preciso, tiro pedido, limpo uma mesa. Comigo não tem esse negócio. Eu não trabalhava na casa dos outros? Por que hoje o meu cliente precisa de uma água mineral e eu não vou servir? Isso não existe. Tem gente que me diz que eu não preciso mais fazer isso. Não preciso mas eu gosto! Porque para fazer o que você gosta não tem idade”

Serviço:
Lula Restaurante. Av. Xavier da Silveira, 1047, Nova Descoberta.

Informações: 3206 3033.


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