Quando a lenda alcança o fato

Publicação: 2019-10-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Valério Mesquita
Escritor

01) Em 1981, o ex-secretário do interior e justiça Manoel de Brito foi a Brasília para uma audiência com o ministro da Justiça. Levou consigo o diretor dos estabelecimentos penais do estado. dr. Célio de Figueiredo Maia. A audiência marcada para as 15 horas, permitiu a ambos almoçarem no restaurante do Hotel Bristol, regado a caipirinha para se lembrarem do velho Nasi de guerra. Encerrados os trabalhos gastronômicos seguiram impávidos ao cumprimento do dever. Mas o nosso Célio havia se excedido nas caipirinhas e estava eufórico e falastrão. A chegarem ao hall do Ministério da Justiça, Célio não conteve o seu comentário irônico ao avistar um grupo de militares graduadíssimos, apontando: “Brito, esse pessoal aí nunca deu um tiro num preá”. A voz sonora de Célio e os olhares furtivos dos militares de que haviam escutado algo, fizeram as pernas de Manoel de Brito tremerem até o encontro com o Ministro.

02) Brasília, 1985, explodia a disputa convencional entre Paulo Maluf x Andreazza, ambos do PDS, para a indicação de candidato a Presidência da República pela via indireta. Do Rio Grande do Norte seguiram os convencionais José Agripino, Radir Pereira, Geraldo Gomes (Bebé), ex-prefeito de Currais Novos, entre outros. Logo na chegada ao aeroporto da capital, todos os convencionais eram envolvidos no clima das mordomias malufistas. Na noite que antecedia a votação, o presidenciável “botou pra quebrar”. Uma mansão no Lago Sul foi alugada para “acolher” os convencionais num jantar supimpa. Belíssimas recepcionistas davam aos convidados as boas vindas. Bebida a vontade e a confraternização geral com os entusiasmados malufistas de outros estados eram a tônica daquela noite deslumbrante para qualquer mortal nordestino. As três da manhã, Radir Pereira resolveu se retirar e levar consigo o conterrâneo Geraldo Bebé, a essa altura, cheíssimo de uísque. Impressionado com a recepção, Geraldo fez questão de se despedir da dona da casa. Radir tentou dissuadi-lo sem resultado. Mas, veio uma senhora, chefe da agência de recepcionistas para atender a exigência do eleitor malufista, que, numa hora pré-eleitoral tem santos privilégios. “Minha senhora”, disse Bebé com aquele característico sotaque seridoense, “foi o melhor cabaré que frequentei em toda a minha vida”. Radir, ao lado, ficou paralisado de espanto.

03) José Dantas, ex-prefeito de Janduis é outra figura folclórica potiguar. Rude, franco, dizia o que lhe convinha. Após deixar a prefeitura, recebeu uma intimação do Tribunal de Contas. Chegou no prédio da Avenida Presidente Getúlio Vargas com o habitual mau humor. Ao vê-lo dra. Domicina avisou logo: “Zé Maria, seu José Dantas chegou”. Era o único funcionário do T.C. que sabia tratar com jeito o irreverente político. Mostrando-se apressado, José Dantas foi logo disparando: “O ônibus sai às três “hora”. “Aveche” logo que num tô pra perder tempo”. Ao entrar numa sala, deu de cara com o conselheiro Manoel de Brito. Paletó, gravata borboleta, que estava sentado com o jornal escancarado, e na boca um imenso charuto cubano. A visão perturbou o matuto e, para criticar, resmungou para o funcionário Zé Maria: “Eu não sei por que vim. Porque no “papé” tinha o nome de Mané Dantas. Eu sou Zé Dantas. Vocês tão “trabaiando” errado. Preste atenção no serviço”. Brito ouviu e soltou uma grossa baforada.

04) Turistas existem para todos os gostos. Conta-se que o major Theodorico Bezerra, grande viajor dos cinco continentes, quando retornou da Europa após percorrê-la inteirinha, ofereceu a um jornalista que o entrevistava, a seguinte impressão de viagem, com aquele sotaque inconfundível: “Estive na Inglaterra no Palácio da Rainha e vi aqueles soldados com os seus cavalos bonitos e a coisa que mais me impressionou foi quando alisei o focinho do animal, todo lisinho...”.




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