Quando os 'malditos' voltam

Publicação: 2019-05-04 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Banda expoente do rock psicodélico nordestino, a Ave Sangria ressurge em vôo rasante com o seu mais novo disco, “Vendavais”, disponível desde final de abril em todas as plataformas digitais. O último trabalho de inéditas do cultuado grupo foi há 45 anos, justamente o disco homônimo de estreia da banda, que um mês após lançado foi censurado e recolhido das lojas pela Ditadura Militar sob alegação de ferir a moral e os bons costumes. Em “Vendavais” a banda aparece com a mesma identidade e pensamento de quando foi criada – as 11 canções inéditas do álbum foram compostas entre 1969 e 1974. Está lá o espírito libertário tropical psicodélico nordestino dos anos 70, mas revivido com frescor atual de novos integrantes.

Banda expoente do rock psicodélico nordestino, a Ave Sangria ressurge em vôo rasante com o seu mais novo disco, “Vendavais”. O disco traz a formação original do grupo, que teve disco censurado nos anos 70
Banda expoente do rock psicodélico nordestino, a Ave Sangria ressurge em vôo rasante com o seu mais novo disco, “Vendavais”. O disco traz a formação original do grupo, que teve disco censurado nos anos 70

Da formação original estão três remanescentes: Marco Polo (voz, composições), Almir de Oliveira (voz, guitarra base, composições) e Paulo Rafael (guitarra solo e viola). Eles reativaram a banda em 2014 depois de redescobertos na internet por uma nova geração de fãs. Fizeram alguns shows e logo foram instigados a voltar ao estúdio, o que aconteceu ao longo de 2018, já com a presença dos músicos Gilu Amaral (nas percussões), Júnior do Jarro (na bateria e vocais) e Juliano Holanda (no baixo e vocais), que também assina a produção do disco ao lado de Paulo Rafael.

“As músicas desse disco novo estão de acordo com o que a gente vivia nos anos 70. Tem a mesma essência, aquela liberdade de expressão. Continuamos com o mesmo pensamento, mas agora temos bem mais experiência”, diz ao VIVER em entrevista por telefone Almir de Oliveira. Ele lembra que embora a banda tenha parado em 1974, os integrantes nunca deixaram de se encontrar e compor juntos. “Quando paramos cada um foi cuidar da sua vida, eu fui terminar a faculdade de Engenharia, mas nunca deixamos de se encontrar para tocar juntos. O diferencial é que nesse disco estamos com a cozinha muito boa, novos arranjos. A troca com essa galera nova foi fundamental pra chegar a esse resultado final”.

O disco vai da balada rock de “Ser” ao sertão lisérgico de “Olho da noite”, passando pelo erotismo de “Carícias” e a crítica corrosiva em “O Poeta”, de versos como “A inocência corrompeu-se por um prato de feijão com arroz”. Mas os picos dos álbum são “Vendavais” e “Dia a dia”.

Pra quem foi censurado nos anos 70, Almir de Oliveira lamenta se estar vivendo no Brasil uma nova onda conservadora, de perseguição ao que é diferente. “Pra você vê que muito do que a gente escreveu naquele tempo ainda vale pra hoje”, reflete. “Existem umas 7 bilhões de pessoas no planeta. Todas elas são diferentes umas das outras. Precisamos entender isso. Aceitar que não somos iguais”.

Shows em Natal
Depois de lançado o disco, a banda agora vai bater asas pelo Brasil. O grupo ainda não confirma data em Natal, mas há o desejo de trazer o show para a cidade. Segundo Almir de Oliveira, o Ave Sangria já esteve em Natal em duas ocasiões. “A banda ainda se chamava Tamarineira Village. Fomos uma vez à convite de um amigo para participar da despedida de Mirabô (Dantas). Ele estava indo para o Rio. E a outra vez foi para participar do Festival do Sol, num Estádio de Futebol (Estádio Juvenal Lamartine). Lembro que o Novos Baianos também participou do festival.

Odair na Casa das Moças
“Hibernar na Casa das Moças ouvindo rádio” é o 37º disco de inéditas do cantor e compositor Odair José. O novo trabalho foi lançado no final de abril, evocando baladas rocks, momentos despretensiosos e de bom humor. Caminhando em paralelo há também um olhar atento para o momento atual do país.

Hibernar na Casa das Moças ouvindo rádio é o 37º disco de inéditas do cantor e compositor Odair José. O novo trabalho foi lançado no final de abril, evocando baladas rocks, momentos despretensiose de bom humor
“Hibernar na Casa das Moças ouvindo rádio” é o 37º disco de inéditas do cantor e compositor Odair José. O novo trabalho foi lançado no final de abril, evocando baladas rocks, momentos despretensiose de bom humor

Odair volta seu olhar poético para o cotidiano, para os costumes, preconceitos, a onda conservadora, a política e sobra até mesmo para os babacas de pensamento armamentista que seguem a onda Bolsonaro. “Incrível liquidação de armas de fogo. Você pediu, agora chupa!”, anuncia a vinheta de “Chumbo Grosso”. Dentre as parcerias, estão Assucena Assucena, Raquel Virginia, Jorge Du Peixe, Toca Ogan e Luiz Thunderbird.

Em “Hibernar na Casa das Moças” é como se tudo rodasse em torno da Casa das Moças. É de lá que o cantor sai e retorna no fim do dia. E é de lá que ele esperará o fim do mundo, ouvindo rádio.

Mautner é o Brasil atual
O cantor e compositor Jorge Mautner lançou na primeira metade de abril o disco “Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba". O trabalho surge 13 anos após seu último álbum de inéditas, “Revirão”. As letras e melodias do novo trabalho conduzem o ouvinte por caminhos que oscilam entre a desolação e a esperança, sempre com vista pra frente mas sem tirar os olhos do retrovisor. E isso em se tratando do Brasil – o compositor presta homenagem a vereadora assassinada Marielle Franco em faixa homônima.

O cantor e compositor Jorge Mautner lançou na primeira metade de abril o disco Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba. O trabalho surge 13 anos após seu último álbum de inéditas, Revirão
O cantor e compositor Jorge Mautner lançou na primeira metade de abril o disco “Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba". O trabalho surge 13 anos após seu último álbum de inéditas, “Revirão”

Sem dúvida Mautner é daqueles artistas sem par na música brasileira. E no trabalho novo ele reafirma isso. A produção é em parceria com a banda Tono, que acompanha Mautner nos palcos desde 2013.

O samba torto de Macalé
Jards Macalé está com disco novo na praça desde fevereiro. “Besta Fera”, o nome do álbum, surge 20 anos depois do último trabalho de inéditas do artista, “O Q Faço é Música”. O novo disco mostra um Macalé em essência. Estão lá arranjos que alternam entre cavaquinho e guitarra, metais de jazz, percussão de mambo, momentos de voz e violão. O jeito de cantar eclético, rouco, às vezes sussurro, às vezes declamação, também está presente dando vida aos versos de de delírios, melancolia, doce lirismo e crítica mordaz das letras.

Jards Macalé está com disco novo na praça desde fevereiro. Besta Fera, o nome do álbum, surge 20 anos depois do último trabalho de inéditas do artista, O Q Faço é Música
Jards Macalé está com disco novo na praça desde fevereiro. “Besta Fera”, o nome do álbum, surge 20 anos depois do último trabalho de inéditas do artista, “O Q Faço é Música”

No álbum Macalé está muito bem acompanhado de uma nova geração de músicos e compositores de São Paulo, alguns inclusive que participaram dos sucessos recentes de Elza Soares, como Rômulo Fróes, Rodrigo Campos e Kiko Dinucci. Com Dinucci, por sinal, está um dos pontos altos do disco, a faixa de abertura “Vampiro de Copacabana”, um samba torto de ar soturno. Das participações especiais, a parceria com o cantor e compositor Tim Bernades (O Terno) rendeu um dos momentos mais bonitos de todo o trabalho, “Buraco da Consolação”, um samba-canção de pé na bunda bem das antigas, cantado com voz potente e com arranjo estilo Orquestra Tabajara. Ainda entre as melhores faixas está “Meu amor meu cansaço” - um “mambolero”, como disse Macalé em entrevista - e “Longo caminho do sol” - sambão raiz, com letra forte, participação de Rômulo Fróes e com coro das senhoras da Vila Matilde.










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