Quando uma história inédita puxa outra...

Publicação: 2017-04-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


Uma descoberta puxa outra. Assim tem sido a trajetória do jornalista e escritor Gustavo Sobral, cuja pesquisa sobre a obra literária do poeta, cronista e artista visual Newton Navarro conduziu o jornalista a um mergulho de sucessivas descobertas sobre outros nomes importantes das letras potiguares. Do mergulho, Gustavo agora retorna com a antologia “Cinco Cronistas da Cidade”. Mas não só isso. Diante de um precioso material inédito dos escritores Augusto Severo Neto e Navarro, o autor organizou duas obras de textos nunca antes publicados: “Augusto Severo Neto – Inéditos” e “O Boi Careta e a Morte do Cavalo Baio”.

Gustavo Sobral quer tornar público material inédito de relevância literária
Gustavo Sobral quer tornar público material inédito de relevância literária

Resultado de pesquisas independentes, os três livros estão completamente finalizados e editados – capa, miolo, orelhas, apresentações, tudo diagramado pela Edufrn. As obras aguardam na gaveta à espera de alguma editora ou instituição interessada em imprimir, missão que Gustavo não pode bancar. “Estou perseguindo essa literatura que foi publicada na forma de crônicas nos jornais. Ela precisa ser divulgada, é uma parte da memória cultural da cidade”, comenta o autor. “A ideia agora é publicar essas obras em papel, transformar isso em registro impresso e dar acesso a estudantes e pesquisadores”.

Gustavo conta que não entende porque uma cidade que teve tantos cronistas nunca ganhou uma antologia de autores que se dedicaram ao gênero. Para ele, esse tipo de texto, apesar de focado no presente, ganha com o passar dos anos a importância histórica. “As crônicas antigas são registros cristalizados do tempo, revelam uma Natal de épocas passadas. Não entendo como esse conteúdo antigo não é revisitado”, reflete.

“A literatura potiguar dos anos 1950 para os dias atuais não foi revisada. É uma tendência que vemos nacionalmente, onde pesquisadores tem se debruçado sobre acervos antes indisponíveis. Isso precisa ser feito aqui”, comenta o autor, que define o desenvolvimento da crônica moderna em Natal a partir dos anos 1950, quando novos jornais surgem na cidade e a movimentação cultural floresce na cidade.

“Natal tinha esse espírito cultural. Os escritores se encontravam, eram boêmios, visitavam redações de jornais, andavam à pé, tinham a dimensão da vida na cidade, acompanhavam o que estava acontecendo. Hoje isso se perdeu”, afirma o autor que reuniu cinco cronistas longevos numa antologia.

“Cinco Cronistas da Cidade”, traz textos dos escritores e jornalistas Augusto Severo Neto (1921-1991), Newton Navarro (1928-1992), Berilo Wanderley (1934-1979), Sanderson Negreiros (1939) e Vicente Serejo (1951). Cada um aparece no livro com 12 crônicas. Os textos foram encontrados em livros e jornais antigos.

“Fiz um apanhado dos cronistas mais longevos. Como marco temporal, muitos começaram no início dos anos 1950. Foi um período de crônica moderna na cidade, de alta produção literária nos jornais, que coincide com o aperfeiçoamento do jornalismo brasileiro”, diz Gustavo, que fez a organização, junto com Helton Rubiano, editor da Edufrn. “Apesar da diferença de idade entre alguns, esses cronistas eram contemporâneos, chegaram a dialogar entre si nos textos. Em suas crônicas eles, mantinham um diálogo para além dos temas da cidade. Eles tinham esse tom de conversa aberta, que é bem característico da crônica”.

Contos de Navarro

Em suas pesquisas em acervos privados e entrevistas, o autor entrou em contato com pessoas que encontraram nele alguém comprometido em tornar público materiais inéditos. No caso, Jurandir Navarro, primo de Newton, que lhe entregou alguns contos. Gustavo entrou em contato com Paulo de Tarso Correia de Melo, amigo de Navarro, para analisar e comprovar a autenticidade do material. Foi Paulo de Tarso quem o título da obra: “O Boi Careta e a Morte do Cavalo Baio”.

“Newton Navarro é conhecido pela sua ligação entre o mar e o sertão. Se aproxima um pouco de Graciliano Ramos, com um texto mais conciso, apesar de recair em lirismos às vezes. Seu lado artista também aparece em ricas descrições de cenas e personagens”, comenta Gustavo. Em 2013 ele já havia lançado de uma única vez três livros sobre Navarro: “O Solitário Vento do Verão”, terceira edição do primeiro livro do autor, lançado em 1961, “Sete Poemas Quase Inéditos e Outras Crônicas”, compilação de textos esparsos, “Saudade de Newton Navarro”, de entrevistas de contemporâneos e pessoas que tiveram algum tipo de relação com o artista.

Em sua pesquisa, o jornalista viu algo curioso nos livros de contos de Navarro. “Seus livros de contos sempre reuniam sete textos. E um dos textos sempre era um conto publicado no livro anterior que ele retrabalhava a narrativa”, diz Gustavo, que em suas pesquisas, não encontrou respostas para essa peculiaridade.

Augusto Severo Neto
Em seus trabalhos de pesquisa, Gustavo conheceu Lúcia Severo, viúva do cronista Augusto Severo Neto, escritor boêmio e viajante, descendente da família Albuquerque Maranhão. Foi Lúcia quem entregou ao jornalista três cadernos de textos inéditos, datilografados pelo marido. Cada um é um livro completo, já titulados, contendo crônicas e poemas, datados de 1964 a 1981.

Gustavo reuniu as três peças numa única obra: “Augusto Severo Neto – Inéditos”. Estão lá as partes “Roteiro de Ausência” (reunião de sonetos, rondós e cantigas), “Estórias de Viver Muito” (crônicas gerais) e “Profissão de Fé à Bem-Amada” (crônicas e poemas para sua esposa Lúcia Severino).

Assim como o avô Augusto Severo, um dos pioneiros da aviação mundial (irmão dos ex governadores Alberto Maranhão e Pedro Velho), o neto escritor também tinha interesse pelos céus, tendo sido piloto de avião. “Severo Neto era um bon-vivant. Bem humorado, de sólida formação cultural, teve galeria de arte. Em seus textos ele alternava entre o tom de conversa e o lírico”, comenta Gustavo. O autor espera dar mais visibilidade a obra do escritor, menos conhecido e citado que outros cronistas potiguares, por exemplo, os que estão na obra “Cronistas da Cidade”.


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