Quatro histórias de amor não muito felizes

Publicação: 2017-06-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Paulo Coelho
Escritor

Os taoístas contam que, no início dos tempos, o Espírito e a Matéria lutaram entre si um combate mortal. Finalmente o Espírito triunfou - e a Matéria foi condenada a viver para sempre no interior da Terra. Antes que isto acontecesse, porém, sua cabeça bateu no firmamento, e reduziu a pedaços o céu estrelado.

A deusa Niuka saiu do mar, resplandecente em sua armadura de fogo; fervendo as cores do arco-íris num caldeirão, foi capaz de recolocar as estrelas em seu lugar, mas não conseguiu encontrar dois pequenos cacos, e o firmamento ficou incompleto.

Segundo os taoístas, aí começa a necessidade do amor: duas almas sempre estão percorrendo a Terra, em busca de sua Outra Parte, para que possam encaixar no pedaço vazio do céu - e, desta maneira, completar a Criação. A seguir, algumas pequenas histórias (não muito felizes) desta busca incessante:

As cartas apaixonadas
Um guerreiro apaixonou-se pela filha do seu general. No intervalo das batalhas, escrevia cartas apaixonadas - mas ficava com medo de enviá-las, pois os agentes do general podiam descobrir seu conteúdo. Finalmente achou um mensageiro de confiança  -  e mandou um bilhete à sua amada, implorando um encontro.

Logo recebeu  a  resposta: a moça conseguiria  escapar da vigilância de seu pai por duas horas. Entusiasmado, o guerreiro levou consigo todas as cartas de amor que havia escrito. Assim que a viu, tirou-as do bolso, e começou a ler suas declarações de amor em voz alta. Quando terminou, duas horas já haviam passado, e a moça teve que voltar para casa. 

Preocupado em mostrar o quanto a amava, o  guerreiro não conseguiu amá-la de verdade.

Esquecendo a magia
A  gaivota  voava por cima de uma praia, quando  viu  um gato, e imediatamente apaixonou-se por ele. Desceu dos céus, e perguntou:

- Onde estão suas asas?

Cada bicho fala apenas um idioma, e o gato não entendeu o que ela dizia;  mas notou que o animal a sua frente tinha duas coisas estranhas  saindo  de  seu corpo. "Deve  sofrer  alguma  doença", pensou o gato.

A  gaivota percebeu que seu novo amado a olhava fixamente:

- Pobrezinho! Foi atacado por monstros, que lhe deixaram  surdo e roubaram suas asas.

Compadecida, pegou-o em seu bico, e levou-o para  passear  nas alturas.  "Pelo  menos ficamos juntos algum tempo", pensava, enquanto voavam. Mas como não conseguiu – por mais que tentasse - demonstrar seu amor, ela o deixou no chão, e partiu em busca de alguém que a compreendesse melhor. 

O gato, durante alguns meses, tornou-se uma criatura  profundamente infeliz: tinha conhecido as alturas, visto um mundo vasto e belo, encontrado uma companheira. Mas, com o passar do tempo, voltou a se acostumar com o que era,  concluiu que não tinha nascido para ir tão longe em seus sonhos, e nunca mais desejou que algo de bom lhe acontecesse na vida, pois isso o fazia sofrer muito.

Querendo dar o melhor
Um casal de velhos tomava café no dia de suas Bodas de Ouro. Nesta manhã, a mulher passou manteiga na parte crocante do pão, e a estendeu para o marido, ficando com o miolo.

“Sempre quis comer a melhor parte do pão”,  pensou  consigo mesma. “Mas amo meu marido, e durante estes cinquenta  anos lhe dei o miolo. Entretanto, hoje acho que mereço satisfazer meu desejo”.

Para sua surpresa, o rosto do marido abriu-se num sorriso.

-  Obrigado por este presente, meu amor - disse ele. -  Durante cinquenta  anos, sempre quis comer a casca do pão.  Mas, como você sempre gostava tanto, eu nunca ousei pedir.


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