Quatro novos artistas visuais de Natal estão utilizando a internet para expor seus trabalhos e visões de mundo

Publicação: 2021-03-05 00:00:00
A internet é a nova galeria de arte. Um espaço democrático para expor e comercializar. Quatro novos artistas visuais de Natal estão utilizando o ambiente virtual para expor seus trabalhos e visões de mundo. As exposições online trazem percepções artísticas sobre o próprio corpo, sobre a cultura urbana marginalizada, sobre a identidade LGBTI+, e sobre as memórias em uma cidade de interior. Os trabalhos foram selecionados pela Lei Aldir Blanc e estarão disponíveis para acesso do público durante todo o ano de 2021.

Créditos: DivulgaçãoA foto de Filipe Silva faz parte de uma exposição que traz percepções artísticas sobre o próprio corpo, sobre a cultura urbana marginalizada, sobre a identidade LGBTI+, e sobre uma cidade de interiorA foto de Filipe Silva faz parte de uma exposição que traz percepções artísticas sobre o próprio corpo, sobre a cultura urbana marginalizada, sobre a identidade LGBTI+, e sobre uma cidade de interior

Os fotógrafos Allana Rocha, Zé Lucas, Filipe Silva e Tambureti estão expondo sob a curadoria da Margem Hub de Fotografia. Estão apresentando trabalhos únicos que, em formato digital,  visam ampliar o acesso do público apreciador de fotografia em um momento de fechamento das galerias e salas de exposição. Como em outros projetos realizados pela Margem, a ideia com as quatro exposições é dar espaço para artistas visuais jovens e emergentes, potencializando a fotografia potiguar e nordestina.

Olhar urbano
A mostra “Síntese Urbana”, de Filipe Silva, tem sintonia com o tom caótico que compõe a cidade e suas ruas. O artista investiga a cultura de rua no estado, juntando em seu trabalho elementos do movimento cultural cosmopolita com questões da juventude potiguar. No trabalho, destaca-se um cotidiano natalense marginalizado, apresentado em 12 fotografias que conduzem a uma imersão na cena do skate e do grafite na capital potiguar. Com a exposição, o artista quer mostrar pessoas que usam os espaços da cidade como suporte para realizar arte.

Créditos: DivulgaçãoExposição “Casca - Corpo Continente” em autorretrato por Alana RochaExposição “Casca - Corpo Continente” em autorretrato por Alana Rocha

A oportunidade de trabalhar com o Margem na montagem da exposição “Síntese Urbana” é definida pelo fotógrafo como “gratificante”. Filipe já foi aluno dos cursos oferecidos pela escola de fotografia, e exprime bem com seu trabalho um olhar para manifestações artísticas e culturais marginalizadas, caso do grafite, pixo e o skate.

Corpo LGBT
Na exposição “Corpo-Abandono”, o fotógrafo Zé Lucas usa de suas próprias experiências como homem gay para conduzir uma reflexão sobre o preconceito sofrido pelos corpos da população LGBTI+, aqui apresentados nus junto a cenários que remetem ao vazio, à aridez e ao abandono. Para o artista, os corpos nus, ao mesmo tempo que carregam marcas da rejeição sofrida por essa população, também expressam libertação desses estigmas. A exposição é composta por 12 imagens, nas quais se vê um homem gay e uma mulher trans interagindo com uma piscina vazia e com um cenário rochoso de vegetação seca. 

Zé Lucas explica que a série fotográfica surgiu de inquietações em relação aos corpos e ao preconceito que LGBTs sofrem diariamente. O próprio título já diz muito sobre isso, as locações dos dois ensaios trazem também a ideia do abandono: primeiro, uma piscina desativada com um corpo masculino nu, largado no vazio. Na segunda série, um corpo trans numa paisagem sertaneja (do Seridó) e pedregosa. Zé explica que também é uma metáfora sobre como é ser LGBT numa cidade do interior.

Créditos: DivulgaçãoExposição Criou Raiz conta com Tambureti e seus elementos da cultura sertanejaExposição Criou Raiz conta com Tambureti e seus elementos da cultura sertaneja

Raízes de Acari
Um olhar afetivo e singular sobre Acari, no sertão potiguar, é o que propõe a fotógrafa Tambureti com a exposição “Criou Raiz”. As cores fortes das paisagens áridas e elementos conhecidos da cultura sertaneja estão presentes nas imagens selecionadas para compor a exposição. A mensagem por trás das imagens de fachadas em cores vivas, da decoração junina, e dos efeitos da seca no sertão é uma busca pela valorização daquilo que é local, e muitas vezes renegado.

“Espero levar para o público a sensação de afeto, de apreciação e de pertencimento ao lugar onde vivo, tanto pras pessoas que fazem parte da população residente nesse lugar quanto para parcela dos meus seguidores que acompanham e apóiam meu trabalho de longe, fazendo com que sintam vontade de conhecer esse pedaço de chão, essas cores, essas particularidades”, explica a fotógrafa acariense.

Créditos: DivulgaçãoZé Lucas na exposição “Corpo Abandono”, usa de suas próprias experiências como homem gayZé Lucas na exposição “Corpo Abandono”, usa de suas próprias experiências como homem gay

Autorretratos
Em plena pandemia, o uso da fotografia como escape para dias turbulentos levou a fotógrafa Allana Rocha a realizar experimentações ao fotografar partes do seu corpo, publicando esses trabalhos em redes sociais. A ideia era pensar a relação com o corpo durante um período de isolamento que leva, naturalmente, a um momento de maior intimidade consigo mesmo. Assim surgiu “Casca: Corpo Continente em Autorretrato”, com a proposta de um olhar, sem intermediários, para o que a artista considera uma “investigação do lugar que seu corpo ocupa.”

“A importância dos autorretratos para mim é de ocupar o nosso próprio corpo, da gente fazer uso do que a gente tem, tomando as rédeas da nossa própria apresentação. Não aceitando que outras pessoas digam o que o nosso corpo é, o que a gente é. Ocupando nossa própria existência enquanto corpo”, expõe a artista.

“A lei Aldir Blanc precisa potencializar esses novos artistas, afinal o artista jovem ainda está se colocando no mercado de trabalho, e ainda não teve tantas oportunidades para expor e buscar experiências. É a partir do diálogo com esses novos artistas que a gente espera ampliar esse trabalho de produção cultural que a Margem já realiza”, explicou Paula Lima, responsável, junto com o fotógrafo João Oliveira,  pela seleção dos trabalhos expostos.

Serviço das exposições on-line: