Queda de Uber fica em torno de 70% no mundo

Publicação: 2020-03-27 00:00:00
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Mariana Ceci
Repórter

De máscara cirúrgica no rosto e vidros abertos, o motorista de aplicativo Gustavo Carvalho, de 35 anos, conta que acreditava ter experiência suficiente para criar as melhores estratégias de horários para transitar pela cidade. Com três anos de trabalho como motorista na Uber, Gustavo sobreviveu às incertezas no período de discussão para a regulamentação do tipo de transporte, os atritos iniciais com taxistas e a quedas e aumentos de demanda ao longo desse período. Nada disso, no entanto, o preparou para a queda brusca no número de passageiros provocada no período da quarentena. “Nada me preparou para o que estamos vivendo agora. Foi uma queda expressiva e que tem me preocupado todos os dias”, conta. Gustavo não é o único: o presidente da Uber, Dara Khorowshahi, em entrevista ao canal americano CNBC, divulgou que o declínio no segmento de transportes chega a 70%, retratando uma crise mundial que terá impacto direto, principalmente, nos motoristas que dependem do faturamento diário para sobreviver. 

Créditos: Magnus NascimentoGustavo Carvalho, motorista de Uber, afirma que tem tirado ganho de um dia durante a semanaGustavo Carvalho, motorista de Uber, afirma que tem tirado ganho de um dia durante a semana


A TRIBUNA DO NORTE solicitou à empresa dados relativos à queda do número de corridas desde o início da pandemia na Região Metropolitana de Natal. Em resposta, a empresa diz que, “como a Uber é uma empresa de capital aberto não podemos comentar esse tipo de dado”. Levantamentos locais e extra-oficiais feitos pelo diretor da Associação dos Motoristas Autônomos por Aplicativos do RN (Amapp), no entanto, apontam que a redução na Região Metropolitana de Natal chega aos 80%. “A queda é real e bastante significativa. Alguns motoristas resolveram ficar em isolamento, não estão rodando, mas o que estão, não têm demanda. Há relatos de motoristas que passam 2 horas para ter uma viagem ou duas”, conta o representante da Amapp, Evandro Henrique. 

Diante da baixa demanda e dos riscos de contágio para a doença, muitos motoristas optaram por interromper as atividades até que a quarentena esteja próxima do fim - o que ainda não se sabe quando vai acontecer. É o caso de Evandro, que faz parte do grupo de risco para desenvolvimento de um quadro grave de Coronavírus, por ter diabetes e hipertensão. “É a minha única renda, mas tenho um certo planejamento que me deu essa possibilidade ao menos momentaneamente. Estou me preparando para uma realidade muito complicada daqui a um ou dois meses. Mesmo assim, tenho consciência de que grande parte dos motoristas não está nessa situação, pois o dinheiro que tira todos os dias vai diretamente para cobrir seus gastos com o carro e colocar comida na mesa da família”, diz Evandro. 

Enquanto a maior parte dos motoristas entrevistados pela equipe de reportagem costumava faturar entre R$ 200 e R$ 300 diariamente antes da pandemia, atualmente, R$ 300 é o valor que eles conseguem obter após uma semana inteira de corridas. “Está muito difícil, porque ninguém está indo para as escolas, universidades ou para o trabalho. Não há demanda”, diz Gustavo. 

Não são apenas os motoristas de aplicativo que estão sofrendo os impactos da quarentena. Em praças desertas, taxistas aguardam, de máscara, a chegada de clientes durante todo o dia - muitas vezes em vão. “Essa é uma das praças mais movimentadas, porque é vizinha ao Natal Shopping. Antes, eu fazia de 8 a 10 corridas por dia. Hoje em dia, faço uma ou duas, quando tanto”, relata o taxista Márcio Januário, de 28 anos, e que há 5 trabalha como motorista. 

Créditos: Magnus NascimentoMárcio Januário, taxista em um ponto concorrido, fazia até dez corrridas e hoje, no máximo, duasMárcio Januário, taxista em um ponto concorrido, fazia até dez corrridas e hoje, no máximo, duas


Sem perspectiva de apoio financeiro para o período de crise, os motoristas, tanto de aplicativo como de táxi, se preocupam com como vão conseguir pagar as contas no fim do mês. Muitos, inclusive, dividem as contas da casa com parcelas de financiamento ou aluguel dos veículos, que também precisam ser pagos. “Meu carro é alugado, e eu só não considero devolver, ainda, porque a Uber é para mim um complemento de renda, não a renda principal. Mas eu tive que me cadastrar em outro aplicativo além desse para tentar conseguir mais corridas, porque caso contrário, não valeria a pena sair”, relata João Albuquerque, de 34 anos, e que há 2 meses trabalha como motorista de aplicativo. 

Em resposta à crise, a Uber anunciou, no último dia 24, um programa nacional de suporte aos cerca de 1 milhão de motoristas que atuam pela empresa no Brasil. De acordo com a empresa, as ações incluem "medidas diretamente adotadas pela empresa e parcerias que proporcionam novos recursos para todos aqueles que usam Uber para gerar renda".

A política adotada pela empresa determina que qualquer motorista ou entregador parceiro que for diagnosticado com Covid-19, ou tiver quarentena individual solicitada por um profissional de saúde, "receba assistência financeira por até 14 dias, enquanto estiver impossibilitado de usar a plataforma". Durante esse período, seu acesso ao aplicativo ficará bloqueado. A empresa afirma, ainda, que "o valor da assistência financeira vai ser baseado na média diária de ganhos do parceiro nos seis meses anteriores a 6 de março".

Para os taxistas, no entanto, a situação é mais complicada: não há uma empresa que possa ampará-los financeiramente em caso de quarentena ou adoecimento, e muito menos em caso de queda brusca na demanda. “Foi anunciado um tal de vale de R$ 200 pelo Governo Federal, mas ninguém sabe como vai ser, quando vai ser, se vai sair mesmo… estamos no escuro, sem saber o que vai ser de nós no fim do mês, e com o risco de sair e pegar a doença todos os dias”, diz Márcio Januário. 

O "vale" de R$ 200 ao qual Márcio faz referência faz parte do plano econômico anunciado pelo Governo Federal para auxiliar os trabalhadores informais e reduzir os impactos econômicos provocados pelo Coronavírus. O plano, no entanto, ainda não tem data para sair do papel. O vale seria destinado a trabalhadores informais que não recebem recursos de programas como o Bolsa Família ou o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

O Governo estima que entre 15 milhões e 20 milhões de brasileiros terão direito a receber o auxílio, que ainda vai ser criado por meio de um Projeto de Lei. Antes, ele precisa ser enviado ao Congresso, o que ainda não foi feito por parte do Governo Federal. De acordo com o que foi divulgado até o momento, têm direito ao auxílio trabalhadores sem carteira assinada, microempreendedores individuais e desempregados que tenham mais de 18 anos e se enquadrem nos critérios do Cadastro Único, o registro nacional de pessoas de baixa renda do país. 








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