Quem escapar da pandemia fica entre passado e futuro

Publicação: 2020-06-03 00:00:00
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Cassiano Arruda Câmara

No meio da maior tempestade que enfrentou, em mais de 500 anos da sua história, o nosso Rio Grande do Norte – assim como o resto do Brasil - vive situação semelhante a de um barco sem rumo e sem um comandante com argumentos para tranquilizar os passageiros.
Do pouco que se sabe desta pandemia, um dos raros aspectos que não provocam dúvidas, é que se trata de uma crise com soluções em dois estágios (ambos mortais) distintos; e um depende do outro:

1 – O aspecto sanitário, marcado por uma incrível capacidade de infestação que, em apenas cinco meses, tornou-se uma endemia global, levando intranquilidade a todos os continentes, atacando homens e mulheres; moços e velhos; ricos e pobres.

2 – A única barreira eficiente encontrada para conter o coronavírus é a quarentena – isolamento social - que representa a suspensão de todas as atividades produtivas para a população ficar recolhida. E a suspensão de faturamento para empresas e trabalhadores.

Nesses cinco meses vem sendo assim, desde que o vírus foi identificado na China, é assim que vem acontecendo. Sem ninguém que possa apresentar um ano, sequer, de experiência no problema. Sem se conhecer nenhum medicamento efetivamente eficaz contra a doença, enquanto todos esperam uma vacina. Gente que está vivendo passado e futuro ao mesmo tempo, não necessariamente nesta ordem. E sem precisar o que é um e outro.

SEMANAS DE ANGÚSTIA
Nas últimas 11 semanas, o Rio Grande do Norte está vivendo esta situação, desde a publicação do decreto estadual determinando o fechamento de fábricas, escolas, igrejas, shoppings centers, lojas, hotéis, restaurantes e bares em razão de uma situação que ninguém nunca tinha vivido, nem tinha notícia de que poderia acontecer numa cidade de ruas desertas e praias vazias.

Nos idos de março, pelo menos, havia um ministro da Saúde aparentemente preparado para comandar luta contra o vírus, praga que estava chegando da China deixando um rastro de mortes por onde passou.

Enquanto a população, surpreendida e desinformada procurava informações sobre a tal epidemia, e a existência de grupo de risco formado por idosos, obesos e portadores de doenças como diabetes, problemas cardíacos e pulmonares, a situação ia se confirmando no pior aspecto levantado.

Enquanto se repetia a necessidade de lavar as mãos (com água e sabão) ou álcool com gel e ficar em casa.
Os meios de comunicação realizaram um trabalho de esclarecimento excepcional em matéria de educação sanitária e convencimento. Sempre com o apelo para o cidadão permanecer em casa.

TORTURA DA DÚVIDA
Desde os primeiros decretos que havia a sinalização – e a expectativa – de que em quatro ou cinco semanas se estaria retornando à normalidade, do passado recente. Mas com o passar do tempo cada um foi se convencendo que este prazo não daria para ser cumprido.
E, hoje, todos nós estamos convencidos que ninguém pode ainda arriscar quando é que se vai voltar à normalidade, desse passado recente.
Sem falar num movimento contrário, organizado por empresários e que conseguiu sensibilizar até o Presidente da República, que passou a defender a necessidade de reabertura do comércio e funcionamento das indústrias, com o Chefe da Nação batendo de frente com o seu então ministro da Saúde, mesmo o trabalho dele tendo a aprovação de 70% dos brasileiros.

O ministro caiu, assim com o seu sucessor, que não completou um mês no  cargo, atualmente, há 19 dias, entregue a um interino,  por isso mesmo com dificuldade para convocar a população, como o primeiro da série, Henrique Mandetta, havia feito. Mandetta deixou o legado de um sistema de cálculos matemáticos que mostram a possibilidade de ampliação do número de infectados e da capacidade de atendimento à população pelo sistema de saúde pública, sabidamente inferior à demanda, acompanhando um gráfico ilustrado por uma curva representando os vários fatores da crise.

NOVA REALIDADE
O impacto das mudanças realizadas nas relações de trabalho e na própria ocupação das pessoas, certamente estarão estabelecendo uma nova realidade que, possivelmente, continuará quando se decidir a hora de retorno à normalidade, com a volta a situação de março passado.

Muitos tiveram de se reinventar. Inúmeras outras pessoas caíram no campo de batalha. Dificilmente haverá alguém que não tenha um parente, um vizinho, colega ou amigo na lista de vítimas.

Os trabalhadores em saúde pagaram um pesado tributo por estarem na frente de batalha.

A legislação foi modificada para permitir a redução de salário, um recurso que não se tem notícia de ter acontecido. Em termos numéricos o tamanho do prejuízo dividido por todos: Redução do PIB (Produto Interno do Brasil) no primeiro trimestre, de 1.5%.

Todos estamos mais pobres. E assim nos preparamos para a nova batalha por vir.

PRESENTE E FUTURO
Numa hora que é difícil precisar o que é passado e presente, como se vai projetar o futuro?

Na visão do nosso governo, a volta à normalidade (passado) termina sendo o melhor projeto de futuro, aproveitando um trabalho desenvolvido pelo consultor José Bezerra Marinho para as federações empresariais. E para voltar ao passado ele prevê o prazo de 35 dias, em quatro fases distintas, para não repetir erros cometidos por quem optou por apressar a volta ao passado (Milão, Itália), e em vez de futuro, prolongou o passado/presente.

E todos nós vivemos as dúvidas de quem não possui informação confiável – nem uma liderança firme – que lhe conduza a planejar os seus próximos passos, o seu futuro. Futuro, presente e passado que se misturam para todos que sobreviverem à endemia e já começam a se angustiar com a necessidade de cuidar da própria sobrevivência num futuro que propõe a volta ao passado.






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