“Quem está nos matando, somos nós”

Publicação: 2010-12-26 00:00:00 | Comentários: 5
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Felipe Gurgel - repórter de Esportes

Sempre polêmico e articulado, Eduardo Rocha é conhecido pelo seu caráter forte, de posições firmes. Foi assim, que com 35 anos de idade, comandou o América na vitoriosa campanha da série B de 1996, que deu vaga para a série A em 1997 e também conquistou o título do Campeonato do Nordeste no mesmo ano, como presidente do clube. De lá para cá, assumiu a presidência da Liga dos Clubes do Nordeste e vem travando uma batalha, quase particular, contra o presidente da Federação Pernambucana de Futebol, Carlos Alberto Gomes de Oliveira, para que a competição continue a ser disputada. Nessa entrevista exclusiva para a TRIBUNA DO NORTE, o dirigente fala sobre os planos da Liga para a competição regional, os erros e acertos do América, da atual presidência do Alvirrubro e também levanta a questão da onde deveria ser construído o estádio do América: se em Parnamirim ou na zona Norte de Natal.

Como está a situação da Copa do Nordeste para 2011?

A Liga dos Clubes do Nordeste estava tentando o melhor momento para realizar a competição, que seria no início da temporada, junto aos estaduais, por entendermos que os clubes iriam utilizar seus elencos profissionais, o que chamaria a atenção para a Copa. Infelizmente, estamos enfrentando uma briga tremenda entre o passado e o futuro. O único futuro para os clubes que estão envolvidos na disputa regional chama-se Copa do Nordeste. Para se ter uma ideia de comparação, em 2002, quando o campeonato foi realizado em sua plenitude, com transmissão de canal aberto e fechado, arrecadamos R$ 16 milhões e 100 mil.  Então, imaginamos que a competição, em 2011, seria uma possível redenção do futebol nordestino, já que iríamos implantar a série B da Copa do Nordeste.

E como seriam escolhidos os clubes para essa divisão?

Os estaduais seriam classificatórios, para assim que terminasse o Estadual, os clubes disputariam a série B do Nordeste. No caso daqui do Rio Grande do Norte, como ABC e América já estão na elite do Nordeste, teríamos oito clubes disputando duas vagas para participar da série B. Isso seria uma maneira de incentivar os clubes de investirem. Assim, eles teriam mais dois meses de calendário cheio, ao término do estadual. Times como o Alecrim, Coríntians de Caicó, ASSU, Potiguar, Baraúnas, Campinense/PB, Salgueiro/PE, Ferroviário/CE, entre outros, se motivariam ainda mais para buscar uma vaga na Copa do Nordeste. Infelizmente temos dirigentes de Federações, como o presidente da Federação Pernambucana (Carlos Alberto Gomes de Oliveira), que é um aprendiz de ditador, que está acabando com o futebol pernambucano, prova disse é que o estado dele não tem nenhum clube na série A do Brasileiro.

Quando você fala em passado, está se referindo ao presidente da Federação Pernambucana?

Sem dúvida que ele está atrapalhando o futuro. Para se ter uma ideia, na final da Copa do Nordeste desse ano, entre ABC e Vitória, foi constatado que a metade dos televisores ligados na Bahia, que contam para o audiência, estavam sintonizados no jogo. Proporcionalmente, foi a mesma audiência que a final do Campeonato Paulista, que envolveu o Santos de Neymar, Ganso e Robinho. Agora, imagine se a final fosse entre Vitória e Sport, sem desmerecer o ABC, a quem parabenizo, que são mercados maiores? Então, isso é o futuro. É o novo contra o velho. Se esse campeonato for organizado da maneira que estamos pensando, ele será a maior fonte de receita, dos clubes nordestinos, com exceção dos que disputam a série A do Brasileiro. Passamos para cada clube R$ 250 mil, na disputa desse ano. Se dividirmos isso pelos 14 jogos que cada um disputou, vai dar uma arrecadação de R$ 18 mil. Na série B do Brasileiro, cada clube recebeu R$ 750 mil, isso dividido pelos 38 jogos, dá um valor de  R$ 19.700,00 por partida.  Esse pessoal está brigando contra a única tábua de salvação do futebol nordestino. Temos que dizer que eles são os coveiros do Nordeste.

Então, como a competição não vai ser disputada no início do ano, já tem data marcada?

Muita gente confundiu sobre a realização da Copa. Ela sempre esteve presente do calendário do futebol brasileiro. A CBF não divulgou por um pedido da Liga do Nordeste. Como estávamos tentando negociar com as Federações para que ela fosse disputada no início da temporada, a CBF não podia dizer que os jogos seriam no segundo semestre. Com isso, os clubes iriam seguir o calendário da Confederação Brasileira. Mas, quando a CBF terminar com o recesso de fim de ano, vamos pedir para que as datas da Copa do Nordeste sejam divulgadas. São as mesmas da Copa Sulamericana. A disputa deve começar no final de junho começo de julho. Mas, diferente da competição desse ano, vamos exigir por escrito dos clubes, que eles utilizem seus times titulares, sob pena de serem multados financeiramente. Caso contrário, não vamos ter como vender a competição para os patrocinadores.

Como seria a fórmula de disputa da Copa do Nordeste?

Que fique bem claro que não existe interesse nenhum da Liga em confrontar as Federações pelo término dos estaduais. Sou a favor da disputa local. Mas, os clubes envolvidos na Copa, deveriam entrar nos estaduais só nas fases mais agudas da competição. E aqueles que ainda não fazem parte da Copa, deveriam utilizar a primeira fase dos estaduais para conseguir uma vaga na Copa do Brasil ou na Copa do Nordeste. E já temos idéias de aumentar a série B do Nordeste. De 14 clubes para 28 equipes.

E existe suporte financeiro para tanto?

Para chegarmos aos 28 clubes na série B, teríamos que passar dois anos amadurecendo a competição com 14 equipes. Existe mercado para uma segunda divisão regional. Recebo ligações diariamente de clubes que não estão fazendo parte da Copa, querendo participar. Essa é a única salvação do futebol nordestino. Ou nós nos unimos clubes, federações e vamos a CBF dizer que essa Copa é a nossa salvação ou estamos fadados ao fim. E a região Nordeste é a única que consegue fazer isso, devido as rivalidades entre os times dos estados. Torno a repetir: é a briga do passado contra o futuro. Falo sem medo de errar: se deixarem a Copa acontecer nos moldes que queremos, daqui a cinco anos vamos ter algo em torno de R$ 60 milhões para negociar com os clubes da série A da Copa do Nordeste e cerca da R$ 10 milhões para a série B do Nordeste.

Você acha que as Federações do Sul do país temem pelo fortalecimento do futebol do Nordeste?

Não podemos criar fantasmas. Esqueça as federações do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Quem está nos matando somos nós mesmos. Não precisamos nos preocupar nem com a CBF. A única regra que ela colocou foi que a Copa do Nordeste não atrapalhasse as competições dela. O nosso único problema é o presidente da Federação Pernambucana, que ainda vive no século passado.

Seu mandato é até o fim de 2011. Mas, existe a possibilidade de você sair antes?

Existe uma negociação para eu ser vice-presidente e Alexi Portela, presidente do Vitória/BA assumir a Liga do Nordeste. Mas isso é apenas uma questão política. A equipe baiana estava disputando a série A até esse ano e tem maior tradição e influência junto a CBF. Por isso que pensamos nessa questão. Mas, ainda não tem nada definido. Não estou preocupado com o cargo. O que eu quero é ajudar.

Mudando um pouco de assunto... Como ex-presidente, como você avalia o momento atual do América?

Vejo com preocupação. Temos que nos rearrumarmos em tudo. O Conselho Deliberativo está solicitando a Diretoria Executiva que nos apresente seus projetos na busca em alavancar recursos para o exercício de 2011. Essa reunião deve acontecer nos primeiros dias do mês de janeiro. Tenho certeza que esses projetos devem estar sendo feitos com muita competência pela diretoria atual. Mas, eu vejo o momento atual com muita preocupação.

A construção do estádio é a solução para o América?

Pode ser, mas não a curto prazo. Já temos o montante de R$ 2 milhões para construir o primeiro módulo de cinco mil lugares, que é avaliado em R$ 5 milhões. Essa diferença de valores tem que ser responsabilidade dos torcedores. Eles vão ter que chegar junto. Mas isso é daqui a oito, dez meses. O América precisa de recursos para ontem e isso causa uma preocupação muito grande. Principalmente quem tem que dar conta do recado. Antes de tudo, o regime do América é presidencialista e por isso, o presidente tem os bônus e os ônus. Quando fui presidente, sabia que a coisa funcionava assim, nas vitórias e nas derrotas, tudo recai sobre o presidente, seja bom ou ruim. Cabe ao presidente encontrar meios para o clube caminhar com mais tranquilidade.

A construção do estádio em Parnamirim é o local ideal?

Temos que avaliar com muito critério. Como fazer isso? Analisando torcida, acesso, e local. Só vejo dois locais na Grande Natal que tenha estrutura para se construir um estádio: Parnamirim e zona norte. Inclusive, por ideia minha, vamos procurar a prefeita de Natal, Micarla de Sousa, para saber se existe algum terreno na zona norte que ela possa nos doar em troca de uma praça de esportes feita pelo América. Mesmo não existindo esse terreno, cabe a comissão de construção e investimento do clube, da qual não faço parte, avaliar o melhor local para a construção desse estádio. O fato de o América já ter feito investimentos em Parnamirim, é mais razoável ficar por lá ou mudar para a zona norte, onde até hoje ninguém ocupou aquele espaço? Temos que analisar as vias de acesso. Vamos elaborar um estudo qualitativo para saber o melhor local. Não podemos descartar nada de imediato. O fato de termos um Centro de Treinamento em Parnamirim nos dá uma tranquilidade, porque não estamos como os Palestinos. Pelo menos temos onde ficar.

O que de fato aconteceu com a contratação do atacante Helinho?

Como conselheiro, achei que o jogador poderia ajudar o time. Não para ser titular, já que o atleta tem uma certa idade, mas, por tudo que Helinho já fez pelo clube, gols decisivos, por ser um salário relativamente baixo, ainda mais pela atual situação financeira do clube, o jogador poderia nos ajudar. O Helinho tem uma certa história dentro do clube. É bem quisto por todos que trabalham no América. Mas, como o regime do clube é presidencialista, o nosso presidente Clóvis Emídio não quis o atleta e eu saí de cena. Tive a boa notícia que o jogador já acertou com o Baraúnas, que está formando um bom time.

Mas, essa sua atitude, não pode estremecer um pouco o América?

Da minha parte não. Isso é assunto completamente encerrado. Agora, torno a repetir: presidente é aquele que toma conta, dá conta e não deixa conta.

O que aconteceu no América nesses três últimos anos, em sua opinião?

Primeiro: o América é um clube que deve pouco. Segundo: em 2009, fizemos um bom planejamento. O problema foi que um grupo de jogadores fizeram um motim contra o então técnico, Guilherme Macuglia e isso prejudicou o clube e o time. Fizemos uma reunião com eles e depois com o treinador e todos se comprometeram em dar a volta por cima. Infelizmente, não foi isso que foi visto dentro de campo. O nosso elenco era muito mais qualificado do que o desse ano e conseguimos escapar do rebaixamento. Tínhamos jogadores como Lúcio, Souza, Ricardo Oliveira, Somália, Thoni, não esse que retornou, assim como o Jackson. O nosso grande problema é que não temos uma receita fixa que nos dê uma tranquilidade maior para trabalhar. O grande erro foi à falta de paciência de quem estava à frente do clube, de que, em qualquer revés, querer mudar tudo de uma hora para outra. Temos que ter muito cuidado nessas contratações que estão sendo feito, para evitar uma cobrança por parte da torcida e ter que trocar novamente de técnico e jogadores. Isso já foi provado de que não redunda em grandes coisas.

Para se contratar jogadores hoje em dia, tem que se olhar o extra-campo?

É uma obrigação da direção do clube. A não ser que, você queria correr o risco. Você sabe que o atleta tem problemas fora de campo e mesmo assim contrata. Isso é chamado de risco calculado.

O que fazer para tirar o América dessa situação?

O América é um time de tradição, com 95 anos de história, tem uma força tremenda e agora é o momento certo de se planejar para os próximos 50 anos e não apenas para a próxima temporada. Temos que fazer um trabalho de marketing muito forte precisamos vender a marca América. Está na hora da completa profissionalição.

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Comentários

  • manesmann

    Vai pedir a borboleta um terreno na ZN é? Por que não pede um time tb!

  • cavalcante_carlos

    Bom dia. Nota dez p/Eduardo Rocha se todos fossem corajosos igual a vc,não estariamos nesta situação. Quanto estados a região Nordeste e Norte possui,dariam p eleger um Presidente da CBF com a maior facilidade, mas o orgulho de certos presidentes de confederações pensando em seus proprios bem estar estão alheio a realidade. Carlos Cavalcante

  • mensaleiros

    foi graças a este senhor que o america esta nesta pindaiba hoje, foi ele o precursor das desgraças americanas, agora vem posar de bom mocinho.......ei acorda meu!!! vcs jogaram o ameriquinha sempre lanterninha na boca do brasil, vcs conseguiram coroar o clube como sendo o pior time de todos os campeonatos brasileiros, o time é motivo de chacota nacional e isso é meritO? vai cantar em outra freguesia e para boi dormir

  • jairobatistadasilva

    Concordo plenamente com o Dr. Eduardo Rocha. E Se permitido-me opinar for, sugiro que sejam envidados esforços para que o Estádio alvirubro seja realizado na zona norte de Natal, pois, ali está a massa populacional natalense, além do mais, é a região promissora em aumento da população e turismo. Boa Sorte América FC e feliz 2011.

  • lfbelarmino

    Acho engraçado, Eduardo teve todo o tempo do mundo para fazer acontecer no América, agora quer dar receita pronta a um Presidente que está mostrando que quer mudar as coisas. Se puder ajudar, que não atrapalhe, deixe o homem trabalhar!