Quem salvará essas Naus?

Publicação: 2010-05-18 00:00:00
Maria Betânia Monteiro - repórter

Depois de conhecer o acervo e a história do Museu de Odontologia Solon de Miranda Galvão, mantido por recursos do próprio fundador, o VIVER percorreu outras duas instituições particulares da cidade, ambas inauguradas no início do ano: o Museu das Naus e o Instituto Câmara Cascudo. Hoje, quando é comemorado o Dia Internacional dos Museus, as duas instituições apresentam realidades opostas: o Museu das Naus corre o risco de ter seu acervo vendido e o Instituto Câmara Cascudo vem recebendo um número crescente de visitantes e de novos projetos.

Casa de Câmara Cascudo tem movimentação durante o fim  de semanaO Instituto Câmara Cascudo foi inaugurado no início do ano com o objetivo de preservar, divulgar, gerir e capitalizar o patrimônio cultural deixado por Luiz da Câmara Cascudo, principal intelectual do Estado. O Instituto é presidido pela filha de Câmara Cascudo, Ana Maria Cascudo Barreto e administrado pela neta do intelectual, Daliana Cascudo Roberti Leite.

Segundo Daliana Cascudo, o museu foi idealizado e executado com recursos da família de Câmara Cascudo, que se desfez de parte do patrimônio pessoal para restaurar a casa do folclorista potiguar, bem como recuperar a movelaria original da casa, criar expositores para as coleções de Câmara Cascudo, compostas de mais de 766 peças e divulgar as atividades do instituto.

Daliana lembra que para manter o instituto é preciso gastar muito com a manutenção do prédio. Serviço de limpeza, água, luz, elaboração e reprodução de folders explicativos são atividades que têm um custo alto e que são garantidos pela visitação do público, pela venda de livros na lojinha do museu e também pelos recursos financeiros provenientes dos direitos autorais da obra de Câmara Cascudo, cedidos por Ana Cascudo ao instituto.

Segundo Daliana, embora o instituto esteja engatinhando, bons resultados já podem ser apresentados. Ela conta que as visitações têm sido constantes. “Em janeiro houve uma presença muito grande de turistas vindos de outros estados. Agora o foco tem se voltado as escolas públicas e particulares da cidade”, disse Daliana Cascudo. Em média o instituto recebe cerca de três escolas por semana, cada qual com uma média de 45 alunos. As entradas não são cobradas aos alunos da rede pública de ensino.

Outro ponto positivo do instituto é que novos projetos estão sendo pensados. Um deles é a criação de oficinas e cursos, como a de contação de histórias. O outro é de elaborar um catálogo com contendo as obras do acervo, acompanhadas de uma explicação detalhada. “O catálogo servirá também como fonte de renda para o instituto”, disse.

Hoje o instituto tem apenas uma coleção de 22 cartões postais, que reúne as 10 coleções de Cascudo. Algumas destas coleções trazem a etnografia africana, indígena, de artes sacras, além de quadros de vários pintores locais e mais de 100 comendas entregues a Câmara Cascudo, pelo reconhecimento do seu trabalho.

“Queremos fazer mais de um catálogo, pois cada coleção dessas tem informações suficientes para um único volume”, disse Daliana. Fora as peças museológicas, o instituto também deixa ao alcance dos visitantes as 10 mil obras, que compõem a biblioteca particular de Câmara Cascudo. “O acervo particular do meu avô tem 10 mil volumes de livros, 15 mil correspondências. São cerca de 35 mil itens no acervo da biblioteca”, revela Daliana. Os livros estão à disposição do público que pode fazer consultas previamente agendadas no local.

“É complicado gerir tudo isso, ainda mais que a cidade não tem tradição de museu particular, como em são Paulo”. Para garantir que o museu tenha uma visitação freqüente, a instituição já entrou em contato com o sindicato de hotéis, secretários de hotéis, agências de turismos.  “Nós queremos que o natalense tenha orgulho de dizer que é conterrâneo de Câmara Cascudo e queremos que o turista tenha orgulho de visitar a casa do maior folclorista brasileiro”.

A administração do instituto pretende torná-lo um ponto de referencia do cenário cultural do estado e do país, assim como a própria obra de Câmara Cascudo, que ultrapassa os limites do estado, do país.

Museus administrados pela Prefeitura e Estado têm programação

Os museus públicos de todo o país estão com uma programação especial para a semana de comemoração ao Dia Internacional do Museu, marcado para hoje. Em Natal está acontecendo palestras, oficinas e exibição de vídeos nos principais museus públicos da cidade: o Câmara Cascudo e o da Cultura Popular Djalma Maranhão.

O Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão receberá hoje, o arqueólogo Onésimo Santos e a arquiteta Ana Raquel (representantes do Instituto Brasileiro de Museus - IBRAM). Eles vão proferir uma palestra, às 10h, sobre Educação Patrimonial para os alunos da Escola Anísio Teixeira, com objetivo de sensibilizar e conscientizar a comunidade para a preservação do patrimônio histórico e cultural.

Também hoje, a partir das 15h, acontecerá a apresentação de João Redondo com o tema “Museu para harmonia social”. Desta vez o público será formado pelos alunos da Escola Winston Churchil.

A programação do Museu de Cultura Popular continua durante toda a semana. Amanhã será a vez da palestra “Arte Popular” com o professor Antônio Marques e apresentações de João Redondo para os alunos da Escola Winston Churchil, a partir das 10h. Nos dias 20 e 21 o arte-educador Genildo Matheus ministrará a palestra de Teatro de Bonecos das 10h às 11h.

Já no Museu Câmara Cascudo, acontece de hoje a sábado, das 9h às 19h, a exposição “Tanto ao Mar quanto à Terra: Passeio pelas Ciências Naturais”.

Paralela a exposição, acontece no Museu Câmara Cascudo, das 9h às 11h, a oficina Paleontologia: Brincando com os Fósseis, para o público escolar infanto-juvenil; e às 15h a Palestra “Mamíferos Fósseis do Rio Grande do Norte”.

De hoje a sexta-feira, também no Museu Câmara Cascudo acontece das 14h às 17h uma reunião conjunta aberta aos museus, cujo tema é “Pensando uma Política para os Museus da UFRN”.

Serviço:

Museu de Cultura Popular
Praça Augusto Severo, S/N - Rodoviária Velha de Natal - Ribeira Tel: (84) 3232-8149
Museu Câmara Cascudo/UFRN
Avenida Hermes da Fonseca, 1398 - Tirol
Tel:(84) 3342-4911 (84) 3342-4913

Maurício poderá vender acervo das naus

Os bons resultados conquistados pelo Instituto Câmara Cascudo não fazem parte da realidade do Museu das Naus, também fundado no início do ano. Remando contra maré, o arquiteto aposentado João Maurício, construtor e idealizador do espaço, despediu no último mês uma funcionária e já pensa na possibilidade de vender todo o acervo do museu, construído com as suas próprias mãos. “Nunca tive a intenção de vender isso tudo, mas se alguém quiser comprar e pagar uma boa quantia, eu vendo”, disse João Maurício, visivelmente abalado pela falta de reconhecimento pelo seu trabalho.

O museu tem um acervo impressionante. No salão de 85m², com cerâmicas recém colocadas e telhas aparentes; além das nove réplicas das caravelas usadas pelos portugueses em suas conquistas marítimas; um painel, composto de fotos, bandeiras, plotters informativos e brasões esculpidos em madeira pelo artista João Luiz, filho do arquiteto João Maurício.

Cada uma das caravelas foi construída a partir de plantas originais, compradas por João Maurício, no Museu da Marinha em Lisboa, Portugal. A madeira utilizada é a mesma das caravelas originais: o Louro Vermelho, que pertence às floras brasileiras e africanas; e o Pinho de Rigo, nativo de regiões frias, de mares gelados, como os que banham a Ucrânia.  As peças levaram cerca de dois anos para serem construídas. “Já pesquisei na internet e constatei que no Brasil não existe ninguém que faça um trabalho igual ao meu” .  Mesmo com toda esta qualidade, o Museu das Naus não consegue alavancar o número de visitantes. “Nem com a matéria que vocês fizeram na inauguração, que repercutiu na cidade inteira e trouxe quatro emissoras de televisão foi possível aumentar o número de freqüentadores”.

Segundo o arquiteto, o Museu recebeu visita de professores, que prometeram divulgar a instituição nas escolas, mas tudo não passou de promessas. Para aumentar a divulgação foi feito um site, o www.museudasnaus.com.br, distribuídos cartazes e panfletos e mesmo assim as ações não alcançaram o público.

Enquanto a proposta de compra do acervo e os visitantes não chegam, João Maurício pensa em ampliar o Museu, que deverá abrigar réplicas da frota dos primeiros aviões a cruzar o céu brasileiro. Para a empreitada o arquiteto contará com o apoio do dentista Marcão, que é plastimodelista.

Serviço

Museu das Naus
Visitas de terça a sábado, das 10h às 16h. Entrada: inteira R$ 5,00 e meia R$ 2,50.
Endereço: Rua Princesa Isabel, 440. Cidade Alta – Natal. Tel.: (84) 3211-9294

Instituto Câmara Cascudo
Visitas de terça a sábado, das 9h às 17h.
Entrada: inteira R$ 2,00 e meia R$ 1,00.
Endereço: Avenida Câmara Cascudo, 377, Cidade Alta
Tel.: 3222-3293 e 3221-0131
Site: www.cascudo.org.br