'Queremos mais mulheres na computação', diz coordenadora do programa "Meninas Digitais"

Publicação: 2018-07-29 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

Poucas pessoas ouviram o nome “Ada Lovelace” ao longo da vida. Menos ainda são os que, se forem avisados de que se trata de uma inglesa famosa do século XIX, imaginarão que estamos falando da primeira programadora da história. Condessa de Lovelace, Ada criou o primeiro algoritmo para ser processado por uma máquina. Para dar dimensão do feito, imagine o código como a Gênese da computação: surgimento do que, hoje, está presente no nosso cotidiano, praticamente essencial à vida contemporânea, por meio dos computadores e smartphones.

Sociedade Brasileira de Computação criou  programa “Meninas Digitais”, que busca despertar interesse de alunas do ensino fundamental e médio por tecnologia, antes da escolha do ensino superior
Sociedade Brasileira de Computação criou programa “Meninas Digitais”, que busca despertar interesse de alunas do ensino fundamental e médio por tecnologia, antes da escolha do ensino superior

Por que, então, Ada Lovelace, com um legado tão importante para a computação, é desconhecida no imaginário do povo? Por que não figura entre os mais lembrados da área, como Bill Gates e Steve Jobs? A resposta, para a professora de computação Karen Figueiredo, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), é um fator histórico que invisibiliza mulheres na ciência, com consequências até os dias atuais. “Existe um histórico de apagamento da mulher na história da computação, desde essa questão dos primeiros programas e primeiros computadores”, declarou Karen.

A invisibilidade tem consequências até os dias atuais. Uma delas é a baixa presença de mulheres nos cursos de computação e tecnologia. Somente 15% dos graduandos de cursos nessas áreas são mulheres, segundo dados da Sociedade Brasileira de Computação (SBC). Para incentivar a participação das mulheres na área, a SBC criou, em 2011, o programa “Meninas Digitais”, coordenado atualmente por Figueiredo. O programa busca desenvolver consciência em alunas do ensino fundamental e médio de que elas podem produzir tecnologia, antes da escolha do ensino superior. “Somos uma rede de mais de 50 projetos. Desses, 38% reportaram, em um relatório nosso de 2017, que já têm meninas, participantes deles no ensino médio, que estão, hoje, em cursos de graduação nessa área”, conta a professora.

Nesta última semana, Karen Figueiredo esteve em Natal para participar do 38º Congresso da Sociedade Brasileira de Computação (CSBC) e ministrar atividades do programa. À TRIBUNA DO NORTE, a professora falou sobre a realidade atual das mulheres na computação e os primeiros resultados do Meninas Digitais.

Como nasceu o programa Meninas Digitais? E qual o principal objetivo?
O “Meninas Digitais” surgiu dentro de um evento da Sociedade Brasileira da Computação, chamado “Wit” (Women in Information Tecnology), em 2011. Já existia esse evento e ele era voltado para mulheres, mas percebeu-se que havia necessidade de falar com essas mulheres antes delas entrarem na área, quando elas são meninas. Então, resolveu-se fazer uma ação, chamada Meninas Digitais, voltado para alunos do ensino médio. Hoje, nós trabalhamos para ensino médio e fundamental, buscando atrair essas meninas para a área de tecnologia.

Como está a participação feminina no ramo da tecnologia e na computação?
É muito cedo para dizer, mas a gente sabe que somos aproximadamente 15% dentro dos cursos de graduação na área de computação e tecnologia, segundo dados da própria SBC, sobre análise dos cursos superiores. A gente sabe que esse é um número pequeno, é algo que queremos ampliar. Com relação a resultados do programa Meninas Digitais, nós estamos em 21 estados brasileiros. Nós somos uma rede de mais de 50 projetos e cada lugar tem o seu capítulo do programa. Desses projetos, 38% reportaram em um relatório nosso de 2017 que já têm meninas, que participaram dos nossos projetos durante o ensino médio, que estão, hoje, na graduação. Então, a gente começa a colher os primeiros frutos.

Qual perfil desses projetos feito com alunos do ensino médio?
A gente trabalha com atividades técnicas de capacitação, com atividades informativas, como, por exemplo, diferença entre as carreiras e os cursos de computação. Muitas meninas, e meninos também, não sabem a diferença de um curso de ciência da computação para o de engenharia da computação. A gente leva essas informações e também com atividades motivacionais, onde a gente tenta resgatar o contato que a menina tem no dia a dia com a tecnologia, mas para que ela se perceba como produtora de tecnologia, não só como usuária.

Qual a resposta das alunas em relação as atividades do projeto?
Muitas vezes é o primeiro contato delas com algo mais acadêmico relacionado a computação. É o que eu falo sempre: 'vocês usam o celular no dia-a-dia, um monte de aplicativo, mas pararam para pensar como o aplicativo foi feito?'. Elas saem encantadas. E o que a gente fala sempre é o seguinte: nós queremos mais mulheres na computação, mas também não queremos fazer uma evangelização. A gente não quer, por exemplo, que das 30 meninas (que participam dos cursos), todas saiam dizendo que vão fazer computação. Elas tem toda uma história, carregam uma bagagem. É natural que as pessoas escolham carreiras diferentes. O mais importante para nós, nesse primeiro contato, é que elas vejam que são capazes de produzir tecnologia. Independente se elas vão fazer computação, elas poderão produzir tecnologia, fazer aplicativos para a área de saúde, de transporte... enfim, para todas as áreas. A tecnologia hoje atravessa tudo.

Dentro do ambiente acadêmico,  em grande parte masculino, como é a participação das mulheres e a aceitação dentro da instituição? Existe a desigualdade de gênero?
Eu, por exemplo, não vivencio nenhum tipo de situação desconfortável dentro do trabalho. Mas eu tenho consciência que esse não é o cenário em todos os lugares, ainda mais no Brasil, onde as universidades são diferentes uma da oura. Esse cenário  muda de lugar para lugar, com relação a receptividade. No nosso relatório, a dificuldade de aceitação, ou seja, das instituições ou dos colegas, foi o terceiro item mais considerado como desafio para a vida dos projetos do Meninas Digitais. O primeiro foi falta de recurso, que foi uma dificuldade geral, e a segunda, a conciliação de horário. A terceira foi esse impasse de aceitação dos projetos.

Há dificuldade das mulheres serem reconhecidas dentro da área da computação?  
É difícil de afirmar porque, por exemplo, todos os homenageados no CSBC deste ano foram homens, mas eu sei que é uma situação. Em anos anteriores, que eu assisti a mesma cerimônia, talvez tenha tido mais mulheres. Eu não me sinto a vontade para afirmar se há esse reconhecimento. Claro que quando eu vi que só haviam homens, eu pensei 'será que não tinha uma mulher para ser homenageada?', mas eu sei que tiveram outras ocasiões que foi diferente. O que eu vejo é que, independente da área, o processo de submissão, se eles não são anônimos, a tendência é que os artigos feitos por mulheres sejam mais difíceis de serem aceitos. Essas barreiras, talvez, evitam que a gente alcance o mesmo nível de sucesso de nossos colegas e, eventualmente, isso pode acarretar de não chegar em uma determinada premiação ou em determinado lugar. São filtros estruturais. É importante que os órgãos públicos produzam políticas que assegurem que tenhamos direitos iguais.

Alunas universitárias da computação relatam muitas dificuldades com relação a essa questão estrutural?
Há casos sim de ambientes que são mais nocivos para as mulheres. De cada dez meninas que entram em cursos superiores, oito largam no primeiro ano. Essa pesquisa saiu na Época Negócios esse ano, e são dados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), mas eles não colocaram o ano do Pnad. No meio internacional, tem muitos mais dados. A gente, no Brasil, também tem essa dificuldade de fazer levantamentos.

Como o Meninas Digitais, dentro da universidade, pode mudar essa situação?
Quando a gente vai montar um projeto na universidade, como há poucas meninas, é natural que essas poucas meninas se envolvam nos projetos, sendo monitoras ou em outras funções. A gente vê que a relação delas com o projeto dá uma outra visão do curso. Por exemplo, alunas de graduação acabam se tornando mentoras das alunas de ensino médio. Isso as colocam em uma outra perspectiva em relação a computação, mas também como profissional. Elas podem se ver como detentoras de conhecimento, como pessoas capazes de orientar alguém. Isso ajuda muito na autoestima das meninas, na participação do projeto e no engajamento social.

Qual é a situação da participação das mulheres no mercado de tecnologia?
Eu acredito que em nível de cultura organizacional as meninas sofrem mais no início da carreira, porque elas vão parar em empresas menores, de primeiros empregos, porque a cultura nesses lugares é mais opressora nesse cenário. Mas hoje a gente observa um esforço das grandes empresas, inclusive aqui no Brasil, de procurar ter mais mulheres e outras minorias, para promover a diversidade dentro da cultura organizacional. Seja pela causa ou por motivos de mercado, porque está tendo uma cobrança social com relação a mudança. Independente do motivo, tem o movimento das próprias empresas.

E a participação feminina no mercado? Representa quanto?
No Brasil, é difícil a gente estimar o número de mulheres que trabalham no setor de tecnologia porque o Pnad, que é a pesquisa que consegue dizer isso para a gente, dá uma porcentagem  de 20% de mulheres trabalhando em empresas de tecnologia, mas essa porcentagem englobam as mulheres desde a secretária até a gerente de projeto. A gente não tem como saber quantas são em cargos de computação, mas a gente estima que é baixo. E a gente não tem quem faça essa pesquisa, um órgão que vá olha realmente para essa questão.

O programa Meninas Digitais pensa em atuar em pesquisas, para identificar a realidade de mercado ou no ambiente acadêmico?
A gente trabalha com pesquisas acadêmicas. Agora, em nível de levantamento de números, infelizmente uma coisa que a gente sabe, quando compara com o cenário internacional, é que não temos recurso. Quando esses levantamentos são feitos de forma particular, a gente contrata uma empresa. A forma mais viável de fazer esse tipo de levantamento no Brasil é através de ações governamentais, mas cabe a nós cobrar isso. Como Meninas Digitais, a gente tem pensado em algumas ações de como a gente pode cobrar que esse tipo de coisa seja feito. Estamos engatinhando nisso.

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