Questão de sobrevivência

Publicação: 2017-05-19 00:00:00 | Comentários: 0
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O PSDB quer deixar o governo Temer. O partido concluiu que a situação do presidente é insustentável. Ontem, a orientação, porém, foi manter os quatro ministros nos cargos e aguardar a divulgação e a repercussão das gravações antes de anunciar qualquer decisão. A declaração do ex-presidente Fernando Henrique, que defendeu a renúncia nas redes sociais, deu o tom do sentimento do partido. Os tucanos não querem ser vistos como esteio de um governo que não tem as ruas e perde rapidamente o apoio parlamentar. O próprio PSDB foi fortemente atingido pelas denúncias do dono da JBS, e já estava abatido pelas revelações dos executivos da Odebrecht, que minaram as chances eleitorais de seus principais líderes. Em nome da sobrevivência, será preciso cuidar da crise interna.

A pauta de Aécio

O diálogo entre Aécio Neves e Joesley Batista, gravado em 24 de março, revela que o tucano articulava no Congresso a aprovação de projetos para anistia ao caixa dois e contra o abuso de autoridade. Ele reclama da “fragilidade” de Eunício Oliveira (foto) e Rodrigo Maia, que teriam de pautar as propostas. E detalha: “São duas coisas, primeiro cortar o pra trás (…) de quem doa e de quem recebeu.” Em 17 de março, esta coluna publicou nota afirmando que Aécio se unira a Renan Calheiros para pressionar Eunício a colocar em pauta projeto para a autoanistia ao caixa dois. A nota dizia que Eunício resistira à ideia, temendo uma invasão do plenário. Aécio reagiu e, em mensagem à coluna, fez um “enfático desmentido”. A divulgação dos áudios gravados por Joesley confirma a informação com as próprias palavras de Aécio. Ele diz que estava “trabalhando nisso igual a um louco”.

Custo Temer
Antes do pronunciamento em que negou a renúncia e destacou dados positivos da economia, Temer considerou, com aliados, que o governo tem no empresariado a última chance de salvação. O desempenho do mercado financeiro ontem, porém, mostrou o efeito negativo do discurso. Logo após a fala do presidente, o dólar subiu e a Bolsa caiu ainda mais. A avaliação de agentes do mercado é que a opção anunciada por Temer terá um custo muito alto para o país, porque seria preciso abrir o cofre para conquistar apoio parlamentar. E a conta, no final, será paga pelo Tesouro. Uma escolha contraditória em relação à promessa de uma agenda econômica liberal ancorada num severo ajuste fiscal — o mantra que o mercado quer continuar a ouvir.

Ordem unida
O PT aposta na mobilização de militantes e entidades para ocupar as ruas como única chance de realização de eleições diretas para substituir Michel Temer. Ontem, Lula orientou as bancadas petistas a voltarem às bases eleitorais para ajudar nessas articulações. A avaliação é que, com eleição indireta, o Congresso fará um arranjo de centro-direita que excluirá o PT.

Ecos de Collor  O discurso de Temer lembrou a oposicionistas as declarações de Collor, em 1992. O tom raivoso de ambos será explorado em comparações nas redes sociais. Já governistas acharam que a “indignação” fez bem à oratória de Temer.

Cantinho do Moreno
Hoje não trago notícia. Trago meu desalento. Fiz várias coberturas de porta no edifício 2016 da Avenida Atlântica, onde moravam três ilustres mineiros: Tancredo Neves, Magalhães Pinto e Walter Moreira Salles. Jamais imaginei que um dia viria o apartamento de Tancredo Neves arrombado pela polícia, em busca de provas contra atos de corrupção de seus netos. Aécio e Andrea desonraram a memória do avô. Traíram um homem que escondeu a doença para servir à pátria e morreu por isso.

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