Réquiem para os urubus

Publicação: 2020-09-18 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Veja, Senhor Redator, o que é vida de prisioneiro sem destino nobre e a dispor apenas de uns poucos metros de varanda aberta para o pequeno mundo daqui, sem ter a nobreza intelectual que a outros acalenta. Vivo de prestar atenção a dois urubus solitários nos seus vôos, no meio da tarde. Em volteios, desenham caminhos suaves sobre o azul e o verde desse céu e desses morros, até que o sol perca o fulgor e a noite se anuncie dos lados do mar derramando as primeiras sombras.  

São dois, sempre. Chegam e voam, sobem e descem, levados pelas correntes mornas, ou caem nos abismos que se abrem com as lufadas mais frias. São aves de rapina, dirão, mas nem por isso menos nobres na beleza do vôo. Há neles um realce de sensualidade nas evoluções graciosas que parecem o vôo nupcial. Contracenam de perto, quase se tocam, mas logo depois se distanciam em lances suaves. Mas é como se deixassem, no próprio arremesso, a promessa de um breve retorno. 

Não é do cronista essa genialidade de humanizar insetos e bichos. Vem de muito longe. Quando aluno de medicina, Câmara Cascudo foi um leitor do grande entomologista francês, Jean-Henri Fabre, e que assinava J.H. Fabre. Nos anos vinte, 1926 e 1928, Paris viu chegar às livrarias seus livros sobre os costumes e a vida dos insetos. Uma visão nova, capaz de humanizá-los, o que se revela em ‘Canto de Muro’, no qual Cascudo reinventa uma humanidade de bichos no quintal. 

Não é que os urubus sejam tão humanos assim. Comem carniça, como se sabe desde o sol da primeira infância, e talvez por isso nos cause um certo nojo. Quando voam sobre os azuis suaves e matizados, não. Há neles uma leveza que transcende aos seus hábitos de aves de rapina a procura de bichos mortos, no alto dos morros. Por isso vagam com um jeito elegante e solene de quem tem a superioridade das alturas. Sobem, sobem, e depois mergulham, como se caíssem numa vertigem.

Suas rotinas não mudam. Nunca aparecem de manhã. Ou ficam recolhidos, quem sabe protegidos nas sombras das árvores mais altas, ou vão mais longe na caça que a fome impõe com a força do instinto. Só aparecem nas primeiras horas da tarde e se não chove. É como se saudassem o azul. E se são raros, apenas dois ou três, quando muito, cumprem aquela antevisão de Oswaldo Lamartine quando lembra que foram muitos no céu da Fazenda Ingá, o sertão da sua meninice.  

No seu artigo, em ‘Notas de Carregação’ (Fundação Hélio Galvão, 2001), Oswaldo, leitor de Rodolpho von ihering, nomeia os dois tipos mais comuns nos sertões do Seridó: Camiranga, ou Urubu-Rei, de cabeça vermelha e vôo suave; e Urubutinga, comum, de cabeça preta, estes que voam no céu dos morros daqui. Os urubus, Senhor Redator, já escasseiam. Como tudo nesse tempo de pesticidas que envenenam a vida. Aqui restam dois, daí este réquiem, antes que desapareçam...  

FOME - 
A pesquisa do IBGE mostra que a fome chegou a pelos menos 81 mil casas deste RN no período 2013-2018. E já são dois milhões de norte-rio-grandenses sem uma alimentação regular.  

DÚVIDA - 
A absoluta e inegável liderança do prefeito Álvaro Dias nas pesquisas, para alguns analistas, ainda não é suficiente para eliminar a dúvida de um segundo turno. E o que representa.

MUITO - 
E posto que já tinha muita gente, e de muita importância, no firmamento, foi preferível que algumas estrelas tivessem rumos próprios, com os próprios pés, mesmo as muito pobres de ideias.  

TAREFA - 
Há quem afirme, com indisfarçável convicção, que a candidatura Hermano Morais cumpre uma tarefa. Só a campanha mostrará se é verdade e a que se destina. Ainda é muito cedo.

CIVISMO - 
O coronel André Azevedo é candidato a prefeito e tem como vice um policial civil, ‘Erick, o caçador’. A chapa do partido cristão defende escolas cívico-militares para a juventude.  

GESTO - 
O discurso de Henrique Alves na convenção do MDB, em Angicos, foi emocionado, sem ser piegas. E lembrou que o MDB foi até hoje seu único partido, há mais de cinquenta anos.   

ESTILO - 
Henrique dirigiu a palavra a todos e saudou o ex-senador Garibaldi Filho como o seu líder. Um instante simbólico, afinal foi em Angicos que tudo começou, com o pai, Aluízio Alves.  

PESTE - 
De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, ao saber que na peste, em seis meses, aumentou a separação de casais: “O vírus que mata o amor é o tédio e ele vive na cama de casal”. 

CHARADA – 
Um olho de águia já vislumbra, por entre o arvoredo desta sucessão municipal de 2020, um puzzle que tanto pode montar um confronto PT-PSDB, como um grande acordo entre os dois partidos. Com jurisprudência perfeita: contra a reeleição de Bolsonaro no país e nos estados.

FLOR - 
A Piracanjuba acaba de lançar no mercado sua manteiga gourmet e o seu apelo é ser feita dosada com Flor de Sal. E a Flor de Sal a Piracanjuba importa de Mossoró que é, ao lado da flor de sal produzida em Macau, as duas melhores do Brasil. A flor de sal é a flor natural das salinas. 

DUELO - 
Como um coxo, mas sabido, Jair Bolsonaro parte cedo para duelar. Sua espada é o velho populismo e as claudicâncias querem apenas mostrar que ele se arrepende todas as vezes que não faz o papel de pai dos pobres. É nessa vala que vai descendo, aos poucos, o ministro Paulo Guedes.







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