Raízes fincadas à beira da Lagoa do Bonfim

Publicação: 2017-05-21 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

Colaborou: Cinthia Lopes

Apesar de ter nascido em Natal, foi na área rural de Nísia Floresta que o agrônomo e pesquisador Marcos Lopes fez morada, mais precisamente, numa extensa propriedade que beira a Lagoa do Bonfim, adquirida pelo avô Juvino em 1939. A região, Lopes conhece desde menino, quando plantou suas primeiras árvores e aprendeu a lidar com a natureza e os animais. Grande parte de suas experiências de criança foram determinantes para ele ser o homem que é hoje, dedicado ao meio ambiente, apaixonado pela cultura sertaneja, apegado às tradições musicais – ele toca acordeom e costuma sair para tocar com sanfoneiros nos mercados e feiras.
Raizes fincadas à beira da Lagoa do Bonfim
Em 1983, um ano depois de se formar em agronomia, decidiu largar a cidade e morar em definitivo na fazenda. “Aqui é onde minhas raízes estão fincadas”, diz Lopes, aos 58 anos. “Eu não consigo viver em outro lugar. Ficaria como um aposentado, sem ter o que fazer”.

Na fazenda da família, que possui até uma pista de pouso de pequenos aviões – Waldonys só pousa lá quando vem ao RN – Lopes colocou em prática um sonho antigo. Desde 1999 ele administra o Museu do Vaqueiro. Localizado na estrada que liga a BR 101 à Lagoa do Bonfim, o espaço é dedicado a tudo que envolve o estilo de vida desses desbravadores do interior nordestino. É lá também que Lopes  promove o famoso Forró da Lua, evento que resgata o forró pé-de-serra, com fogueira e comidas típicas.

Bastante conhecida dos natalenses, quando recebe muitos visitantes nos fins de semana, é de se esperar que a Lagoa do Bonfim perderia algumas das características de antigamente. Mas a atmosfera da região ainda é a mesma. “É um local muito agradável, ainda se acorda com o canto do pássaros, tem a brisa do Bonfim e Camurupim”, conta. Um das maiores preocupações não apenas de Lopes, mas de todos os moradores, diz respeito a questão hídrica – a lagoa hoje abastece cerca de 30 municípios e passa por uma seca –, e os problemas ambientais. “Na área que vai até Búzios e Pirangi existem mais de 20 lagoas. Acredito que uma boa parte dessa região poderia se torna uma unidade de conservação, nos moldes da Chapada dos Veadeiros (GO)”, opina.

Histórias da região
Desde criança convivo com as pessoas da zona rural, pessoas que são bastante diferentes na maneira de viver, conviver e tratar os outros, como o João Noberto. Ele ia de cavalo todo fim de semana para a feira de São José de Mipibu. Voltava embriagado, às vezes caia do animal, que ficava ao lado esperando a recuperação do dono. Quando o Navio Hope desembarcava em Natal, meu pai (Severino Lopes, psiquiatra) trazia médicos e enfermeiros que falavam inglês para o Bonfim. Ele pedia pra  eles falarem em inglês e papai pedia pra falar na frente de Luquinhas, um funcionário antigo daqui, e pedia pra Luquinha fazer a tradução. O resultado era engraçadíssimo.

Lagoa do Bonfim
A região onde escolhi pra viver é onde minhas raízes estão fincadas. Fiz o curso de Agronomia para isso. Meu pai me ensinou a plantar. Lembro das primeiras sementes de cajueiro, de sair cavando as covas e preenchendo. Aqui se criava boi, suíno, ovino, galinha para ovos, plantava-se batata, então isso tudo foi determinante pra mim. E eu não consigo viver em outro lugar.

Rotina na fazenda
Comecei a morar na fazenda em 1983. Terminei agronomia em 82 e vim pra cá. A esposa e as filhas ficavam  em Natal por que estudavam, mas agora a rotina se normalizou. Eu planto bastante. Já vou com 2 mil mudas. Plantei uma variedade de árvores, como Teca, para fazer móveis. Mas isso não é pra eu colher, certamente vai ser para as filhas ou netos, pois demora 20 anos. Minha rotina é essa, plantar, cortar o cabelo do cavalo, vigiar a área, até porque, a polícia ambiental nem sempre vem aqui e muita gente vem caçar ou degradar o meio ambiente.

Cultura sertaneja
O interesse pelas coisas do sertão surgiu em vistas que eu fazia na Serra do João do Vale (Oeste Potiguar, quase divisa com a Paraíba), onde o marido da minha tia tinha terras. Eu acompanhava os vaqueiros nas pegas de boi, depois dançando forró ainda de perneira, peitoral, as vestimentas típicas. Depois fui ler para entender mais sobre o local, onde, por exemplo, Domingos Jorge Velho  e outros bandeirantes enfrentaram os índios Tapuias. Esse tipo de coisa que a gente não aprende na escola. Meu pai, sabendo desse interesse, me dava livros de Oswaldo Lamartine.

Cultura popular
Nessa região, que compreende Nísia Floresta, ainda se encontra algumas coisas. No porto ainda vive Dona Raimunda do Pirão Bem Mole, de quase 90 anos. O Pirão Bem Mole é um drama, acho que de origem portuguesa. Tem também o Boi de Reis de Tororoma, os cantadores de coco do Campo de Santana. Pessoas que ainda preservam com muita luta a cultura popular.
Raizes fincadas à beira da Lagoa do Bonfim
Lugares pouco conhecidos
Tem lugares em que o acesso não é muito bom. Lá no Cururu, antigo Campo Santana, que depois de uma grande cheia nos anos 1970 foi transferido para uma área mais alta, tem onde comer, tem uma antiga Igreja construída por escravos. Vale a visita. Na região também tem trilhas que vão dar na praia de Barreta e até cachoeiras. Algumas só se formam em época de cheia no Pium, são raras, poucos conhecem, outras, como a cachoeira da Ferreira, é mais fácil encontra com água.

Seca da Lagoa
O problema da seca na lagoa é preocupante, embora ela já tenha estado mais seca do que agora. Mas antes não se tirava água para município nenhum, hoje já 30 cidades recebem a água da lagoa, sem contar os desvios. Essa questão hídrica não tem sido uma preocupação dos nossos governantes. Esse pessoal desconhece a região, não sabe que na área existem mais de 20 lagoas. Acredito que uma boa parte dessa área poderia se torna uma unidade de conservação, pegando desde Búzios e Pirangi.  Tem muita gente usando quadriciclos, 4x4, em lagoas como a do Redondo, do Peixe, do Arroz. Quando elas estão um pouco vazias os caras passam por dentro deixando resíduos de óleo. Acho que a região deveria ser uma área de preservação. Onde a visita inapropriada da área deveria ser proibida, como na Chapada dos Veadeiros (GO).

Poucos vizinhos
Quando meu avô comprou, essa propriedade era muito extensa. Conheci poucos vizinhos, até porque ficavam longe, como o João Noberto. Ele ia de cavalo todo fim de semana para a feira de São José de Mipibu. Voltava embriagado, às vezes caia do animal, que ficava ao lado esperando a recuperação do dono. Era um homem alegre. Também já tinha o Clube dos Caçadores. Na época era permitido esse tipo de atividade. Hoje não tem mais ninguém daquela época. Ou morreram ou já se foram.

Museu do Vaqueiro
O Museu do Vaqueiro surgiu em 1999, quando eu e um amigo, Mano Targino, dono do bar O Beradeiro, decidimos fazer uma homenagem a Luiz Gonzaga pelos 10 anos de sua morte. As pessoas tinham esquecido dele, até porque na mídia só tocava o forró eletrônico. Gonzaga foi porta-voz do nordeste para o mundo. Mostrou que no nordeste havia trabalhadores e não  só pedintes.

Forró Raiz

Essa perda de espaço do forró tradicional eu acho triste. Mas os principais culpados são os dirigentes de cada cidade e estado. Se  cultura é do povo, você não pode usar o dinheiro do povo para destruir a cultura, como Campina Grande dizer que é o maior São João do mundo e contratar cantores sertanejos pra se apresentar na festa. Dos poucos secretários que tentaram mudar alguma coisa  foi Chico César. Se fosse incentivado, toda cidade do nordeste poderia ter seu São João popularizado. Quem vem do sertão guarda um pouco dessa identidade. O São João tradicional representa aquela alegria do matuto nordestino, a festa pela colheita, pelo inverno. É algo muito forte, principalmente para quem passava necessidade, sofria com a seca e com a fome.

Falta conscientização ambiental
Já se pensou em abrir uma estrada ao redor da lagoa. Fomos contra, principalmente por causa das questões ambientais. O que falta para a região ser melhor é investimento na educação ambiental. As pessoas precisam se conscientizar que os animais devem estar soltos na mata, que a lagoa não é lugar de se jogar plástico. Muita gente também vem aqui no fim de semana para se divertir, mas acabam perturbando os moradores. Quem vem aqui acha tudo bonitinho, mas nós que moramos aqui é que apanhamos o resíduo de mal educados que vem da cidade.

Pioneiro da Aviação na Lagoa
Jean Mermoz, quando pousou pela primeira vez em Natal, em 1930, no Rio Potengi. Para retornar, não conseguiu subir o avião do rio. Por sugestão, talvez de Juvenal Lamartine, que conhecia a região da Lagoa do Bonfim e entendia um pouco de aviação, o aviador veio para a lagoa e saiu daqui para a África. Tenho uma fotografia dada por Pery Lamartine datada desse ano que registra essa partida do francês.

continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários