Raridades em 78 rotações

Publicação: 2011-10-25 00:00:00
Yuno Silva - repórter
Colaborou: Cinthia Lopes

Hoje o endereço passa despercebido, mas em outros tempos a casa em tons cinza e traços modernistas localizada na rua Trairi, bairro de Petrópolis, Natal, era ponto de encontro concorrido e bem freqüentado por apreciadores dos tempos áureos da música popular brasileira. Quando se adentra a residência da família Barbalho, a impressão que se tem é que o lugar parece estacionado no tempo. Suas paredes são testemunhas de presenças ilustres que guardam histórias colecionadas ao longo de décadas pelo médico e pesquisador Grácio Barbalho. Falecido em 2003, Grácio se notabilizou nacionalmente pela incrível coleção de mais de oito mil discos lançados entre 1927 e 1952 – raridades que fazem um recorte significativo da época que os discos eram fabricados com cera de carnaúba e revestidos com goma laca, e giravam a 78 rotações por minuto.

Apaixonado por Bossa Nova, Paulo Barbalho mantém intacta a coleção do pai Grácio Barbalho, um dos maiores colecionadores do PaísVisto por pesquisadores um dos quatro maiores acervos do Brasil, a coleção do Dr. Grácio permanece intocada sob a guarda da família. “Papai começou a colecionar quando os discos passaram a ser gravados de forma elétrica, em 1927, antes o sistema era mecânico e a gravação precária. O vinil só chegaria ao mercado no início dos anos 1950”, explicou Paulo Barbalho, 61, farmacêutico bioquímico, apaixonado por Bossa Nova e guardião, ao lado, das irmãs Ceres e Isís, do acervo. “Meu pai reuniu tudo o que encontrou da chamada época de ouro da música popular brasileira, que ele considerava  entre  1927 e 1952”, disse Paulo, justificando a escolha do período pelo pai.

Verdadeiras relíquias, os discos de cera de carnaúba são frágeis, trazem uma música de cada lado (como os compactos) e boa parte das capas de papel estão carcomidas pelo tempo. Mas, nos tempos áureos da coleção, quando Natal era uma pequena cidade ainda sem aparelhos de televisão nas residências, a casa de Grácio era tida como ponto de referência para artistas, políticos e toda sorte de personalidades nacionais que visitavam a capital potiguar: “Passaram por aqui Miltinho, Sílvio Caldas, Capiba, Orlando Silva, Nelson Gonçalves e Paulinho da Viola. Pesquisadores como Ricardo Noblat, o cartunista Henfil, Pelé, ministros de Estado e o Chico Buarque de Hollanda, ainda no início de carreira, visitaram a discoteca do meu pai”, relembra. Homem culto, de família tradicional, Dr. Grácio era praticamente relações públicas do Governo do RN quando havia interesse cultural na história.

Fotografia de Grácio Barbalho, que marca presença em meio ao acervo de oito mil discos“Ainda está tudo como meu pai deixou”

Paulo Barbalho e a esposa Maria Rosa Duarte Barbalho, que é professora, receberam a TRIBUNA DO NORTE na manhã de sexta-feira. A conversa percorreu histórias, discos e audições de marchinhas de Carmem Miranda (algumas de duplo sentido, como “Amor, amor, amor”), Noel Rosa e maxixes de Francisco Alves (fase pré samba). Foi também de lembranças de uma Natal cultural e aristocrática que já não volta mais. Nas paredes, quadros raros, fotografias e dedicatórias de amigos ilustres, como Pixinguinha, de quem o Dr Grácio era amigo fraterno. Paulo e Maria Rosa contaram que neste momento os planos para a discoteca incluem a recuperação da sala onde o acervo está guardado — no momento da visita o ar condicionado estava quebrado — a identificação dos discos, a recuperação das capas e a criação de um catálogo.

“Ainda está tudo como meu pai deixou. Muitas capas estão deterioradas e se puxar da estante sem cuidado, rasga.”, disse Paulo, que cresceu ouvindo os bolachões e é um apreciador da Bossa Nova. Após a organização, a família vai pensar o que fazer com o precioso acervo.   Sobre o interesse na venda e digitalização, Paulo lembrou que nos anos 90 o selo Revivendo, do Paraná, chegou a lançar uma pequena parte da coleção em CD. “Leon Barg foi um amigo do meu pai, chegou a gravar alguns discos, mas faleceu e com ele o sonho de relançar outros acervos”, lembra Paulo.

Paulo Barbalho lembra do tempo que a coleção atraia a atenção de personalidades que visitavam Natal“Assim que Dr. Grácio morreu, apareceu gente aqui perguntando sobre a coleção, políticos empresários, mas, acredito que um projeto capaz de salvaguardar essa coleção dependa da vontade do Governo do Estado e do que ele entende por Cultura”, lembrou Maria Rosa. “Teve gente de outros estados querendo comprar; em Recife tem uma Fundação (Joaquim Nabuco) também interessada, mas a priori a família quer manter a coleção aqui no Estado”, complementa Paulo, ressaltando que Grácio investiu muito dinheiro e tempo para reunir e manter a coleção. “Os discos não chegavam a Natal, ele tinha que viajar, andava o Brasil inteiro atrás desses discos e comprava de amigos e parentes dos artistas”.

Grácio recebia muitas visitas também de cineastas. Foi de sua coleção que saiu boa parte da trilha sonora do filme “For All – O Trampolim da Vitória” (1997), comédia dirigida por Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz ambientada no período da Segunda Guerra Mundial. “Pensamos que o Governo do RN teria interesse em conservar esse acervo aqui no Estado, é uma das coleções mais importantes do Brasil”, reforça Maria Rosa. Sabem que esse é um sonho distante, pois são poucas as entidades capacitadas para adquirir o acervo no RN.

Além da coleção de Grácio, as outras duas de reconhecida relevância que mantém certa ligação com a família Barbalho são as de Leon Barg, “que comprou uma coleção já pronta e faleceu com mais de 80 anos; e a do cearense (Miguel Ângelo) Nirez Azevedo, que continua na ativa”, informou Paulo.

Grácio Barbalho era amigo pessoal do mestre Pixinguinha, que dedica foto ao potiguarA dedicação cirúrgica com a boa música

Médico e professor universitário, um dos fundadores da Faculdade de Medicina ao lado de Onofre Lopes, membro do Conselho Estadual de Cultura, do Instituto Histórico e Geográfico do RN e da Academia Norte-Riograndense de Letras, Grácio Barbalho era, sobretudo, um amante da boa música.

Tanto que, no final da década de 1950 manteve no ar, na rádio Nordeste AM, o programa Museu do Disco onde eram seus discos que rodavam para os ouvintes. Sua fama rendeu participação no importante inventário, realizado pela Fundação Nacional de Artes – Funarte na década de oitenta, sobre a indústria fonográfica brasileira.

Ao lado dos também colecionadores e pesquisadores Nirez, Jairo Severiano e Alcino Santos, o quarteto fez um levantamento minucioso de todos os discos lançados entre 1903 e 1964. “A partir dessa pesquisa, meu pai chegou a lançar, em 1985, o livro ‘Discografia da Música Popular Brasileira’”, comentou Paulo Barbalho.

Nesse mesmo período, contou, a Escola de Música da UFRN iniciou a transferência de uma parte do acervo do cantor Francisco Alves para fita magnética, projeto descontinuado com a mudança de reitor, que na época era o escritor e advogado Diógenes da Cunha Lima.

“É assim mesmo, tudo depende do entendimento de cada pessoa. Por isso estamos atrás de uma instituição que assuma a responsabilidade de manter essa colação, de preferência aqui no RN”, almeja Paulo Barbalho.

Disco de número 10001 do acervo: primeiro bolachão da era elétricaDiscos numerados

O critério de Grácio Barbalho para formatar sua coleção era simples: adquiria qualquer lançamento do primeiro disco em 78 rotações, incluindo o de seus artistas preferidos, entre eles Francisco Alves, Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Carmem Miranda, Carlos Galhardo, Sílvio Caldas, conjuntos regionais, música internacional, entre outros. “Há pouquíssima coisa em vinil. São LPs avulsos de marchinhas de carnaval das décadas de 1950 e 60, álbuns de Cauby Peixoto, Ângela Maria... mas estão fora da coleção”, esclarece Paulo, filho caçula de Grácio. “Nesse tempo (entre 1927 e 52) era tudo numerado pela fábrica, e o primeiro a ser produzido, de número 10001, foi gravado por Francisco Alves com a Orchestra Panamerican do Casino Copacabana”, contou, mostrando com orgulho o bolachão que traz a marcha “Albertina” de um lado, e o samba “Passarinho Má” do outro, ambas composições de Duque. “Francisco Alves lançou mais de 500 discos, e, segundo meu pai, deve estar faltando uns três. Mas o acervo tem toda a coleção lançada por Carmem Miranda, Sílvio Caldas e Orlando Silva”, garante.

Grácio vendeu direitos a pesquisa

O pesquisador Renato Phaelante, responsável pelo setor de música da Fundação Joaquim Nabuco, conversou com a TN e disse que chegou a visitar a discoteca de Grácio Barbalho aqui em Natal. “Chegamos a conversar bastante sobre o destino do acervo e ele chegou a vender os direitos da pesquisa encomendada pela Funarte para disponibilizarmos na internet (bases.fundaj.gov.br/disco.html). Também disse que doaria uma cópia à Fundação caso o trabalho da UFRN fosse concluído. Com seu falecimento não pudemos avançar nas negociações”, lembrou Renato. Entre 2004 e 2005, a instituição pernambucana chegou a entrar em contato com a filha de Grácio que mora no Recife, a empresária Ísis Barbalho Santini, “mas o valor pedido, cerca de um milhão de reais, estava além das possibilidades da Fundação”, disse o pesquisador. O interesse maior da Fundação era, principalmente, pelos discos da década de trinta. “Grácio e Nirez tem uma coleção formidável desse período. Quando estive em Natal, passei umas três horas com Barbalho dentro da sala onde mantém o acervo. Ele tinha um ciúme danado, o maior esmero por sua coleção”, conclui.