Rastejo entre o sertão e o litoral da memória

Publicação: 2017-04-19 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


O Pedro da Costa quer ser natalense, mas não entende bem o que isso significa. Na verdade, pouca gente sabe. Como migrante, ele relembra a saga de sua família na capital potiguar, desde a vinda de Acari até a viagem derradeira, quando revisita um desfigurado sertão seridoense...
Rastejo entre o sertão e o litoral da memória
Primeira experiência no romance do escritor e professor universitário, Humberto Hermenegildo, “Rastejo” foi escrito e reescrito ao longo de 15 anos e finalmente ganhou um ponto final. A obra será lançada na quinta-feira (20), a partir das 18h30, na Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL).

Publicado pela Caravela Selo Editoral, “Rastejo” trata de um drama familiar de migrantes potiguares que partem do sertão para o litoral. Essa mudança acontece no início dos anos 1970, quando Natal entrava numa onda de crescente desenvolvimento. A história se passa na capital potiguar, onde a família chega para morar no bairro do Alecrim, num período caracterizado pelo Regime Militar. Mas, segundo Hermenegildo, tanto a cidade como o cenário político aparecem somente de pano de fundo.

O enredo é focado em um indivíduo, o bancário Pedro da Costa, o narrador da história. Segundo o autor, Pedro tem uma grande obsessão pelo passado, principalmente por alguns acontecimentos vividos durante sua infância. Ao seu redor, três personagens de destaque: o avô Possidônio, antigo rastejador do sertão de Acari, o pai, fazendeiro falido que abandona a família, a mãe, que enfrenta a difícil missão de criar os quatro filhos na chegada a Natal.

Apesar de algumas semelhanças temáticas com os romances da geração de 30 e o uso de termos sertanejos, Hermenegildo não vê o livro como regionalista. Não que ele evite essa comparação. “É uma história sobre migrantes nordestinos. No caso, não daqueles que partem para o sul, mas, como muitas famílias potiguares de antigamente, eles partem do sertão para o litoral, onde encontram a capital do estado em transformação”, diz.

O gatilho da obra são algumas lembranças pessoais de Hermenegildo. Ele nasceu em Acari, veio para Natal com a família em 1972, aos 13 anos, e seu avô também, Possidônio, era rastejador. “Tem elementos autobiográficos iniciais. Eles dão o ponto de partida. Mas é um livro de ficção”, afirma.

Um rastejador
Ele explica que rastejador é um termo do interior que se refere a alguém que investiga, segue rastros até encontrar algo. O termo tem a ver com um episódio real, vivido pelo seu avô,  que ajudou a polícia a desvendar um caso no interior do Estado. “Oswaldo Lamartine chamava meu avô de Mestre Rastejador por causa dessa história. No livro 'Sertão do Seridó', ele chega a fazer uma referência a ele”, diz Hermenegildo. O autor reforça que o título também se refere não apenas a um dos personagens, mas a vários. “Os  personagens têm um grande desejo de encontrar suas origens, de preservar a própria memória, de buscar a própria identidade depois da mudança”.

Aprumo com a linguagem retardou lançamento

Mais recente imortal da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ocupando a cadeira nº 2, cuja patrona é Nísia Floresta e o último ocupante foi o médico Ernani Rosado –, e com mais de 10 livros publicados, dentre acadêmicos e de poesia, Hermenegildo mostra grande intimidade com o linguajar sertanejo, além de perícia narrativa. “Esse vocabulário eu tenho na memória, é muito forte em mim. Mas utilizei dicionários de termos regionais, até para checar a autenticidade”, lembra o autor. “Tem muita pesquisa literária. Um leitor mais atento talvez encontre referências a José J. Veiga, Guimarães Rosa, Montaigne”.


Bastante autocrítico, os momentos de insegurança com o caminhar da linguagem e do estilo o levaram a maturar o livro por mais de 15 anos. “Mudei muito desde a primeira versão. Ora eliminava coisas, ora acrescentava, descobria incoerências. Reescrevia frases. Procurei dar ritmo de poesia ao texto. Fui amadurecendo até me sentir livre para sair do autobiográfico e inventar”, comenta o autor, professor aposentado da UFRN, especialista em Literatura Comparada e Teoria Literária. “A experiência com uma narrativa longa tem que ser bastante amadurecida. Foi um desafio enorme. Só se concretizou porque consegui tempo”.

O autor diz que releu incontáveis vezes o texto, mas teve um momento decisivo para colocar um ponto final na história. “Juntei alguns amigos, professores, e fizemos uma roda de conversa sobre a leitura do livro. Anotei tudo que eles falavam. Depois mudei algumas coisas da narrativa”, recorda. “Não é algo novo. Entre os modernistas já se fazia muito isso”.

A preocupação com a maneira com que os leitores lidam com o texto fez o autor testar a compreensão do livro para além do Rio Grande do Norte, entre pessoas que não estão identificadas com muitos dos termos e cenários relatados na obra. “Mandei o livro para professores de outros estados. Quero saber se a leitura flui. É importante ter esse retorno”, afirma Hermenegildo.

O escritor agora quer prosseguir em outras aventuras. Ele tem muito material guardado, coisas esparsas que rendem um novo romance. Mas ele não está focado nisso por enquanto. Apesar de aposentado, ele está concluindo a orientação de alguns doutorandos. No entanto, até o final  do ano, outro livro inédito seu deve ser publicado, dessa vez de poesia. “Argueirinha” foi vencedor do Prêmio da Coleção Vertentes, da Universidade Federal de Goias e será lançado em Goiânia e em Natal.

Trecho
“Tão fatal assopro lambeu queimando a borda das papeletas onde estavam escritas as promissórias do empréstimo, atrasadas, e junto delas a hipoteca das terras. Com todo o valor da sua herança representado naqueles papéis que significavam a força de um banco diante de um matuto analfabeto, e acanhado, ele agiu como se apagasse um candeeiro com um tapa e pronto! Abalado, vendeu as propriedades e saldou a dívida”.

Serviço

Lançamento do livro “Rastejo”, de Humberto Hermenegildo
Dia 20 de abril, às 18h30
Academia Norte-rio-grandense de Letras (Rua Mipibu, 443, Petrópolis)
Preço do livro: R$ 30


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