Razões e motivos do martírio

Publicação: 2017-11-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Padre João Medeiros Filho

Os católicos norte-rio-grandenses vivem a alegria e a euforia da canonização dos mártires de Cunhaú e Uruaçu. Livros, artigos e palestras comentam o acontecimento, que culminou com a cerimônia litúrgica, em Roma. O imortal Valério Mesquita, em artigo neste jornal, relembrou a preocupação de Dom Nivaldo Monte para reavivar a memória dos mártires, começando pela restauração da capela de Cunhaú, tarefa conjunta da arquidiocese de Natal e das Fundações Pró-Memória, Roberto Marinho e José Augusto; esta, à época, dirigida pelo ilustre escritor macaibense. Foi uma luta ingente para vencer os entraves burocráticos do Ministério da Cultura, onde além da falta de verbas para a restauração, encontram-se ainda insensibilidade e morosidade no cuidado de nossa história cultural.

Digno de encômios foi o esforço de Padre José Freitas Campos para editar uma obra de divulgação sobre nossos protomártires. Muitos ignoram a beleza do testemunho de fé desses cristãos, que derramaram seu sangue pela Igreja de Cristo. O livro de padre Campos tem o prefácio do jesuíta Agustín Catalayud Salon, ícone do clero comprometido com os simples e humildes e ao qual muito deve a Igreja natalense. Esse preclaro religioso, pároco emérito da Cidade da Esperança, identifica os dois sacerdotes martirizados, como filhos de Santo Inácio de Loyola, outrora professos da Companhia de Jesus. É um dado que não poderá passar despercebido e desapercebido, revestindo-se de indicação importante para aquilo que já inquietava o saudoso Monsenhor Paulo Herôncio de Melo, qual seja: “as razões e causas do martírio”.

Os historiadores potiguares, especialmente aqueles voltados para a temática religiosa e eclesiástica, têm um desafio pela frente: identificar os reais motivos que levaram ao morticínio. O processo de beatificação e canonização, iniciado e tão bem conduzido por Monsenhor Francisco de Assis Pereira, não se deteve neste aspecto, que não pode ser desprezado por pesquisadores sequiosos da verdade. Até recentemente, os estudos do historiador holandês Francisco Schalkwijk – autor de “Igreja e Estado no Brasil Holandês” e, durante treze anos, pastor da Igreja Reformada Holandesa do Recife – eram pouco divulgados. No seu brilhante artigo “As lágrimas de Cunhaú” (publicado em O Poti, aos 02 de abril de 2000), questiona a autoria do morticínio. “... Afirmar que as barbaridades de Cunhaú foram perpetradas a mando do próprio governo holandês, e ainda por cima orientadas por um pastor evangélico, simplesmente não corresponde à verdade. Convém distinguir os fatos e a interpretação dos fatos. O que não atenua, antes aumenta a nossa ansiosa expectativa do dia em que o Senhor enxugará todas as lágrimas, inclusive as de Cunhaú” (Ap 7,17).

É importante levar em conta três situações importantes presentes no Brasil colonial do Século XVII. 1) Os jesuítas, não obstante sua profícua catequese, em razão do padroado português, representavam o Tribunal da Inquisição. 2) Em Portugal e suas colônias, o catolicismo era religião de estado. Não havia a laicidade estatal, que permite a liberdade religiosa. 3) As igrejas evangélicas eram incipientes e contavam com poucos adeptos. Isto foi amplamente estudado pela professora Francisca Jaquelini de Souza Viração, em sua tese: “A Igreja Potiguara: a saga dos índios protestantes no Brasil Holandês”.

O martírio pode ter tido um caráter: a) religioso-político, qual seja, revanche à Inquisição; b) religioso-social-ideológico, enquanto rejeição ao catolicismo como religião de estado e c) religioso-teológico: aversão à fé católica. O martírio, causado por qualquer uma das três hipóteses, em nada diminui ou invalida a santidade daqueles que foram canonizados pelo Papa Francisco. Morreram pela fé e por amor à Igreja. Para eles não importava o contexto histórico, social e político, que envolvia o mundo eclesial, e sim a pessoa de Cristo. Porém, cabe perguntar: sua morte foi causada por reação à Inquisição, perseguidora de ateus, judeus e protestantes? O martírio teve como motivo a insurreição contra a religião de estado e um grito em favor da liberdade religiosa? O massacre teria sido fruto da repulsa à realidade dogmática e sacramental do catolicismo? Há um fato relevante: as mortes de Cunhaú ocorreram, durante a celebração eucarística. Em nome da verdade histórica e ecumênica, seria justo esclarecer a autoria exata do massacre. Que os santos mártires iluminem os pesquisadores. “E conhecereis a verdade, e esta vos libertará” (Jo 8, 32).


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