Razões

Publicação: 2020-06-24 00:00:00
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Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Enxergar com alma é prêmio. Enxergar com honra é  princípio. De quem pratica, não apenas prega ou escreve sobre ética. Quem enxerga o mundo como  roda gigante de gente sem distinção por dinheiro (que é o primeiro critério da sociedade produtiva de falsidade), cor, credo religioso,  posição ideológica, estética e preferência sexual.


Créditos: Divulgação

Bem, o futebol no Brasil  baba pela volta, porque é uma modalidade regida por cabeças espertas e conveniências. O futebol do Rio Grande do Norte, descendo ao quintal,  foi capaz de maltratar o seu ídolo Marinho Chagas durante anos, derrubar seu principal patrimônio, o Estádio Machadão e deixar um inglês mafioso fazer do Alecrim sua laranja de sumo verde. 

Agora  parece achar , a banda narcisista do futebol , assim, quase banal, uma pandemia que atinge 1 milhão de compatriotas e matava(até ontem)  mais de 730  conterrâneos. Protocolos tendo a CBF de modelo atentam pelo detalhismo colegial. 

Pauta normal, hábito  da vida, da vida que se trata com desfaçatez de cortesã ao iludir o babaca. Aqui, a FNF agiu bem ao entregar o drama ao infectologista Antônio Araújo. Especialista. 

O futebol de hoje, lá e cá(culpa dos clubes), faz parte da rafaméia, termo pretérito, dos tempos de Tóia de centroavante no América e Preta na lateral do ABC,  do  subsolo, da encanação, do sumidouro do esporte rococó.  

É retrato da nata social subdesenvolvida vestindo  roupa de grife. Da elite boçal que comete 16 erros de concordância em duas frases  e confunde regência com artigo indefinido   em parágrafo de 10 palavras. 

É melancólico ocupar  a Quarta Divisão de um futebol  que, desde as últimas três décadas, desceu a ribanceira da mediocridade para o rastro da precariedade crônica.

O Brasil é um escrete de meio de semana. Cai nas quartas.  De final. Quando ficou em quarto em 2014,  levou dez gols entre as semifinais e a disputa do terceiro lugar. 

Vexames em  casa, nas arenas construídas onde faltam hospitais e UTIs para alojar as vítimas  do vírus Corona. Foram sete bilocas da Alemanha com mais três da Holanda. 

Ambas, Alemanha e Holanda, respeitando o caricato timeco de Felipão e Parreira de 2014 e economizando duas merecedoras goleadas de 14x0. Só o brasileiro delirante acha o futebol brasileiro decente. É várzea com capa de condomínio fechado. 

É um futebol regido por quem aprecia, acima de vidas, grana,  acima do ser humano, o vil metalíssimo. Que fala em povo sem com ele conviver. Povo é uma metáfora. 

Povo é uma moldura sem quadro, posto que sua individualidade é nada diante de quem detém o poder. Algum  deslumbrado se preocupa como está o vendedor de churrasquinho? De pastel? De tapioca? A velhinha do suco? Falaciosamente, talvez. 

No Brasil, burras  mesmo seriam as unanimidades de Nelson Rodrigues, autor da frase. Discutível, pois há quem seja bom para (quase) todos, um Ariano Suassuna de popularidade e asqueroso para 99,99%, plantel para lotar 277 treminhões. 

O Brasil, para se entender o futebol, é preciso que seja compreendido como ente, continental, um cachorro perdido quando cai de caminhão de mudança cheio de colchões, lençóis furados, cuecas e calcinhas sujas. Um satélite bêbado em cabaré lunar. 

Eis, pois, a razão da naturalidade com que se encara a preocupação prioritária com o futebol quando todos os dias, pais enterram filhos. Filhos. Toque em filho de pai de colhão  que ele será, sim, capaz do irracional.

Atinja de morte um menino de cabra valente,  pode passar na funerária e providenciar o próprio enterro. Filho é tudo. Filho é tesouro, filho é orgulho, filho é semente, fruto e safra. 

Haverá  bravateiro brigador pela volta do futebol com o  primogênito inscrito de vigésimo volante em algum quebra-canela? Será? Se existir , concordaria com essa pressa insana? Duvido. 

E você haverá de perguntar. Por que, seu Rubens Lemos Filho, você escreve sobre o futebol que tanto detona? Porque  é preciso ser faca amolada  diante da taça  de veneno tinto. Do cálice de cada fariseu de minha traiçoeira profissão. 

Exemplo
Jogam América ou ABC contra o Globo. Um atleta  de qualquer dos times é testado positivo Coronavírus. Quem vai custear seu isolamento?  Você, sinceramente, acha que estão levando em conta os pobres de chuteiras? Se disser sim, me manda os números da Mega-Sena. 
 
Depois 
Outros três do mesmo time se contaminam. Vão ser isolados. Onde, se o Governo do Estado nem hospital de campanha fez e é quem divulga menos e menos UTis disponíveis? Será na casa de algum desses virulentos de rede social que os doentes ficarão? 
 
Forçando a barra 
Vê-se, nítida, a obsessão do América em voltar imediatamente, agindo como um compressor sobre a Federação, os médicos e a mídia. O América  de outros tempos agiria diferente. Homens de moderação. Qualidade que, às vezes, nem o tempo oferece. 
 
Pequenos 
Teve clube pequeno que sequer sabia da reunião de segunda-feira. O dirigente sem a menor condição de botar um time de tênis de mesa para disputar uma paçoca de troféu. 
 
Pausa 
Para  Brasil 5x2 França, semifinal da Copa do Mundo de 1958, que hoje completa 62 anos. Final antecipada. Dois timaços. Gols: Pelé(3), Vavá e Didi. Fontaine e Piantoni para a França. Depois, só apanhamos. 

Pelé 
Tinha 17 anos, seis meses. E 29 dias.